Maria Lúcia Brito e Moura lembra acção desenvolvida pelas mulheres na I República

O papel das mulheres católicas na I República é visível na resistência a determinadas medidas e, sobretudo, à execução da Lei da Separação (Abril de 1911), refere a historiadora Maria Lúcia Brito e Moura, em entrevista à Agência ECCLESIA.

A especialista dá o exemplo do caso dos inventários – na Lei da Separação foi declarado que os bens que, tradicionalmente, estavam em poder da Igreja passavam para o poder do Estado.

“As mulheres saíram em defesa desses bens. Houve necessidade de fazer arrolamentos que deviam decorrer no prazo de 3 meses. Estas dificuldades surgiram no Norte de Portugal, mais nas zonas rurais porque nas zonas urbanas era mais fácil uma comissão de arroladores ir a uma igreja e passar despercebida”, indica.

“As mulheres distinguiram-se nessa resistência e, muitas vezes, tocavam os sinos a rebate e chamavam os homens. Gritavam que estes queriam roubar os santos”, acrescenta.

A Lei da Separação de 1911 foi particularmente dura para as religiosas, pois obrigava os membros das congregações a irem para as suas terras.

Maria Lúcia Brito e Moura refere que algumas puderam continuar nas suas casas – sem «hábito» -, desde que fosse pouca gente e quando não se conseguiu encontrar quem as pudesse substituir. “Isso aconteceu com um asilo de cegas, em Lisboa, e que estava entregue às Dominicanas de Santa Catarina de Sena que tiveram como fundadora Teresa de Saldanha. Creio que ela foi a única que ficou em Lisboa e, daí, dirigiu toda a congregação”.

Muitas mulheres saíram em defesa das religiosas, observa a especialista: “Luísa Andaluz tomou conta de uma escola que as Cartuxas tinham em Santarém. Criou também outras obras que, mais tarde, deram origem à Congregação das Servas de Nossa de Fátima”.

“Destaco também Maria Carolina Sousa Gomes, de Coimbra, que era filha de um professor universitário – Francisco Sousa Gomes – que esteve ligado à criação do CADC (Centro Académico de Democracia Cristã). Maria Carolina dá origem a uma obra voltada para as classes pobres: Criaditas dos Pobres”.

Outro nome incontornável é o de Sílvia Cardoso, amiga de Guerra Junqueiro e Leonardo Coimbra. Tinha uma casa de retiros e uma escola para crianças pobres.

No mesmo mês que a Alemanha declara guerra a Portugal (Março 1916), surge uma agremiação de mulheres católicas – muitas delas da aristocracia (condessa de Ficalho e condessa de Burnay) – que fundam a associação «Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra».

“Em primeiro lugar, estas mulheres pretendiam formar enfermeiras. O Governo criou-lhes dificuldades. Algumas delas fazem exames com a Cruz Vermelha. A condessa de Burnay, Maria Amélia Carvalho de Burnay, cede uma casa na Junqueira (Lisboa) à Cruz Vermelha. É aí que são preparadas as enfermeiras que vão para França com a Cruz Vermelha. Algumas destas mulheres fazem acções notáveis no auxílio às famílias dos militares”, indica.

Para Maria Lúcia Brito e Moura, é claro que “as mulheres católicas estão um pouco esquecidas, mas deixaram obra e mostraram que tinham as virtudes republicanas”, atribuindo esse esquecimento a “um certo preconceito”.

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