Catequese: De impedida de fazer o Crisma a catequista, Ana Evaristo fez as «pazes com a Igreja» e é hoje «muito feliz»
17 Outubro, 2026 23:40
Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, foi palco da partilha de testemunhos, incluindo o de Ana Sofia Jordão, para quem a Síndrome de Down não é obstáculo para dar catequese
Foto: Pedro Quintans
Fátima, 17 out 2026 (Ecclesia) – Ana Evaristo é catequista na paróquia de São José, em Algueirão-Mem Martins, no Patriarcado de Lisboa, onde diz ser “muito feliz”, mas a ligação que hoje estabelece com a Igreja nem sempre foi próxima.
Em declarações à Agência ECCLESIA, a participante das Jornadas Nacionais de Catequistas, que decorrem em Fátima, explicou que, já em adulta, em conjunto com a filha, tinha a intenção de realizar o sacramento da confirmação, mas essa porta foi-lhe fechada.
“Na altura colocaram-me ali um entrave, por eu ser divorciada, então eu senti que foi injusto. Eu e a minha filha sentimos que foi injusto. Eu queria que ela ficasse, ela também já não quis fazer, porque eu não fiz o Crisma, então estive um pouco afastada da Igreja e até um bocadinho aborrecida”, conta.
No entanto, depois de refazer a vida e voltar a ser mãe, Ana inscreveu o filho na catequese e voltou a aproximar-se da fé católica.
Fiz as pazes com a Igreja. Tive a sorte de ter uma comunidade fantástica, uma referência para mim, pessoas muito unidas”, testemunhou.
Ana Evaristo, que contou a sua história nas Jornadas Nacionais de Catequistas, partilha que durante a Covid-19, ajudou nas tarefas da igreja e foi convocada para ali realizar uma atividade, juntamente com o companheiro.
“Foi interessante, fizemos partilhas, oração, foi muito bom”, descreve Ana, que se começou a aperceber que estava a abrir-se uma porta que pensava que “já não era possível”.
“Disseram-me que eu poderia fazer o Crisma fazendo a preparação. Então, inscrevi-me na catequese à noite, fiz a catequese. Durante esse percurso, convidaram-me para ajudar a dar catequese, para ser catequista”, revela.
Foto: Pedro Quintans
Apesar de ter ficado um “bocadinho reticente” e pensar que não iria conseguir assumir esta missão, respondeu positivamente ao desafio: “Aceitei e graças a Deus que aceitei, porque eu estou muito feliz”.
Ana Evaristo recebeu o sacramento da confirmação e, depois do pai da filha falecer, voltou a casar pela Igreja, em 2024, vendo o matrimónio como “uma grande alegria”.
“Era aquilo que eu mais queria, era o único sacramento que faltava ao meu companheiro de caminho, no fundo. Então, foi tudo assim muito rápido, marquei o casamento pela Igreja, fiz o Crisma em janeiro, casei em março de 2024. Os meninos a quem eu estava a dar catequese foram ao meu Crisma, foram assistir ao meu casamento”, explica.
A catequista fala num percurso na Igreja “muito bonito” e “até aqui gratificante”, dando conta que tem vindo a aprofundar a fé, a fazer formações e há dois anos que dá catequese.
Este ano estou a dar catequese aos mais pequenos e é com muita alegria que estou a fazê-lo e que estou a seguir este caminho novamente”, expressou.
“Por muito que nós achemos que sim, eu com toda a minha história, é com muita alegria que eu digo que Deus não desiste de nós e o meu caminho agora é sempre a segui-lo”, acrescentou.
Em 2026, Ana Evaristo acompanha um grupo de crianças de 6/7 anos, com o ‘Despertar da Fé 2’, que corresponde ao primeiro tempo do percurso de iniciação cristã.
“São crianças mais pequenas que fazem a catequese junto com as famílias, portanto é um desafio ainda mais interessante. Porque são crianças pequeninas, tem que ser tudo muito mais didático. Muitos não sabem ler, portanto temos que arranjar ali forma de as crianças gostarem. E eu acho que sim, está a correr muito bem”, indica.
A catequista sente que hoje está “completamente” reconciliada com a Igreja e que acredita cada vez mais que este é o seu caminho.
Foto: Pedro Quintans
Além de Ana, também mais três participantes das jornadas deram o seu testemunho no painel “Da inspiração catecumenal à vida: experiências que fazem caminho”.
Entre eles esteve Mateus Rodrigues, de 20 anos, da Diocese de Bragança-Miranda, que, em declarações à Agência ECCLESIA, contou que recebeu os sacramentos de iniciação cristã há dois anos, em 2025.
“Desde criança, que sempre fui tendo algum contacto [com a Igreja], embora os meus pais tenham optado por não pedir os sacramentos para mim. E chegada a idade, a maioridade, eu decidi então pedir os sacramentos e fiz o caminho da iniciação cristã completo”, disse.
O jovem descreve que viveu o momento com “uma alegria imensa”, realçando que foi um percurso “muito gratificante”, “muito intenso” e “sem dúvida extraordinário”.
Em paralelo com o caminho de iniciação cristã, Mateus Rodrigues foi realizando discernimento vocacional, primeiro com o Seminário de Bragança e depois com os Carmelitas Descalços, acabando por fazer uma experiência de aspirantado, primeira etapa do processo de formação na vida religiosa consagrada.
Foto: Pedro Quintans
“Foi um caminho muito bom, muito intenso. Em dois anos aconteceram imensas coisas, desde a iniciação aos sacramentos, sacramentos, depois fiz um ano de aspirantado e agora iniciei a Teologia no postulantado e, portanto, está a ser muito bom, tenho quatro colegas candidatos e tem sido uma graça imensa novamente”, referiu.
O jovem está inclinado para seguir o “sacerdócio, embora ainda esteja tudo em aberto”.
Foto: Pedro Quintans
Outro dos testemunhos ouvidos no Centro Paulo VI, em Fátima, foi o de Ana Sofia Jordão, de 33 anos, a quem a Síndrome de Down não impede de acompanhar os mais novos na catequese da paróquia de Colmeias, na Diocese de Leiria-Fátima.
É bom, é sentir que somos úteis. E para as crianças também é bom, para acompanhar no caminho da fé”, disse.
Ana Sofia Jordão exerce esta missão desde os 18 anos e indica que prepara os encontros semanais na véspera: “[Ser catequista] é uma grande missão”, declarou.
Da Diocese de Setúbal, mais concretamente da paróquia de Pinhal de Frades, no Seixal, veio Luísa Batista, que, através dos filhos, descobriu uma vocação.
A participante das jornadas conta que acompanhou o filho mais velho, portador de síndrome de Asperger, às primeiras sessões de catequese e que, quando o teve de deixar de fazer, sentiu “alguma pena”.
“De verdade, é que anos depois, quando a minha filha ingressou na Catequese, que foi o ano passado, já havia o projeto piloto do DF2 [Despertar da Fé 2] e nós pais acompanhámos”, lembrou.
E isso fez muita diferença na nossa vida familiar e mesmo no nosso dia-a-dia, no quotidiano, porque houve uma porta para a naturalidade com que se fala de Jesus, porque existe algum tabu no nosso dia-a-dia, nós falarmos da palavra Jesus e o que representa, há sempre algum tom de brincadeira ou gozo”, complementou.
Foto: Pedro Quintans
Luísa Batista explica que a experiência teve influência na educação dos filhos e na forma de resolver algumas situações do dia a dia.
Também o filho da catequista, que antes não se expunha, é hoje acólito: “Pediu-me, eu não tinha nada a opor, nem tinha que pedir, eu só disse: ‘vai conversar então com o padre, ver se realmente pode ser’. E ele está a seguir esse caminho, portanto, também é algo com que ele se sente tranquilo”.
“Se isso o ajuda a encarar as pessoas, porque também não é fácil estar num altar, na posição dele, e perante tanta gente. Se isso o ajuda, é maravilhoso. Mas lá está, Deus presente na nossa vida a ajudar de alguma forma”, expressou.
Este é o primeiro ano que Luísa abraça o papel de catequista: “Ser feliz ajuda-nos a transmitir algo aos outros, mas a tranquilidade, quando somos serenos, também nos permite observar as situações e tudo o que nos envolve de outra forma. E, portanto, eu penso que foi isso que trouxe à minha vida, a tranquilidade, conseguir resolver as coisas de outra forma”.
Fátima acolhe as Jornadas Nacionais de Catequistas, que reúnem quase 1500 participantes de todas as dioceses do país, em torno do tema “A inspiração catecumenal da catequese”, procurando aprofundar os desafios da iniciação à vida cristã e da renovação da catequese.