Cardeal-Patriarca critica exageros do laicismo

Apresentação da «Bíblia dos Jerónimos» mostra dimensão cultural da Religião O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, manifestou-se ontem contra o que considera serem os “exageros do laicismo” que pretendem banir “os símbolos religiosos e a Sagrada Escritura”. “A Bíblia, como aliás a Cruz do Senhor, nos países que têm o cristianismo como matriz da sua cultura, não são apenas símbolos religiosos, são realidades culturais”, apontou. Falando na apresentação da “Bíblia dos Jerónimos”, na Torre do Tombo, D. José Policarpo considerou que a laicidade tem de ser entendida no seu aspecto positivo, que “se afirma como neutralidade do Estado em matéria religiosa e respeito por todas as religiões”. Em relação ao lançamento do manuscrito do século XV, considerado uma obra-prima de iluminura europeia, o Cardeal-Patriarca de Lisboa frisou que “no caso da Sagrada Escritura são bem-vindas todas as iniciativas que promovam a sua dimensão cultural, como a que recentemente desencadeou a Sociedade Bíblica, fazendo escrever à mão, por milhares de portugueses, todo o Texto Sagrado”. “Não temem essa dimensão cultural aqueles países, grandes democracias do mundo ocidental, em que os juramentos mais solenes continuam a ser feitos sobre a Bíblia. Não é isso que os transforma em Estados Confessionais”, afirmou. A “Bíblia dos Jerónimos” vai estar exposta ao público na Torre do Tombo, em Lisboa. A exposição vai permitir ter acesso a “uma das obras mais marcantes da iluminura europeia” que “só ocasionalmente foi vista por privilegiados”, afirma no prefácio da obra o director da Torre do Tombo, Pedro Dias. O livro, da autoria de monsenhor Arnaldo Pinto Cardoso e do catedrático Martim de Albuquerque, tem fotografia de Massimo Listri, tendo surgido da parceria iniciada no ano passado entre a Bertrand Editora e as Edições Franco Maria Ricci com o álbum “O Presépio Barroco português”. A “Bíblia dos Jerónimos” é constituída por sete volumes, num total de 3.060 fólios de pergaminho e foi produzida em Florença por Attavante degli Attavanti, Gherardo e Monte Del Fora. Segundo D. José Policarpo, a obra “é um dos mais preciosos tesouros do nosso património cultural e tem estado escondido”, lembrando que “na consideração actual da responsabilidade perante o Património Cultural, as comunidades foram enunciando deveres e direitos: o dever de defender, conservar e preservar, de inventariar; mas também o direito, já considerado um direito democrático, de fruição, por parte da comunidade, desse mesmo Património”. O Cardeal destacou ainda a “complementaridade e a harmonia” existentes entre a pintura e o texto para vincar que “essa harmonia entre a verdade e a beleza, entre a lógica do discurso e a dimensão envolvente do belo, é algo que é urgente redescobrir na cultura contemporânea, mesmo na cultura religiosa”.

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