Padre António Cartageno realça que Cante alentejano impressiona pela sua sensibilidade religiosa

Beja, 25 dez 2020 (Ecclesia) – O Natal é uma época que inspira os cantares alentejanos, como explica à Agência ECCLESIA o padre António Cartageno, da Diocese de Beja, que fala de um “reportório grandioso”.

“É uma tradição popular que se tem vindo a descobrir e a recuperar” afirma o responsável pelo Departamento Diocesano de Música Sacra e Liturgia, que reconhece que grande parte deste material se perdeu no período da República, em virtude do espírito anticlerical.

Nos anos 80 do último século, o especialista iniciou um trabalho de recolha das tradições musicais alentejanas e conseguiu recuperar muitas melodias e letras que se julgavam perdidas.

Este sacerdote sublinha a consciência teológica do povo e a sua capacidade para construir estrofes com conteúdos religiosos que requeriam conhecimento.

Nessa linha, destaca uma estrofe que se canta em Peroguarda no Concelho de Ferreira do Alentejo: “Junto à cidade de Belém há uma árvore de Jessé com três letrinhas que dizem, Jesus Maria e José”.

“Onde é que as pessoas foram buscar esta ideia da árvore de Jessé? Trata-se de um tema bíblico que aparece em Isaías… Jessé era o pai do Rei David”, explica o padre António Cartageno.

A edição de hoje do “Cabaz de Conversas”, que a ECCLESIA apresentou online desde o início do tempo do Advento, recupera uma gravação com os “Vindimadores de Vidigueira”.

O Grupo de Cante liderado pelo padre Manuel Trindade Reis, traz o canto ao menino, uma melodia tradicional do dia de Natal.

“Esta era uma melodia para vozes mistas, pois destinava-se a ser cantada em família junto ao madeiro”, indica o sacerdote.

O nosso cante é, na sua estrutura um canto religioso…  mas os temas são apenas religiosos no caso do Natal, dos reis, na encomendação das almas em algumas regiões do Alentejo e também o canto dos Passos na Semana Santa, conhecido como o canto das Endoenças”.

Não sendo naturalmente um canto litúrgico, o padre António Cartageno – que veio um dia de Trás-os-Montes para a planície – conseguiu compor música litúrgica que bebe nas melodias alentejanas.

“Já me disseram que sou o homem que pôs a Igreja a cantar à alentejano”, refere o compositor, sublinhando que o seu trabalho resultou numa reconciliação das comunidades cristãs com as suas raízes musicais mais profundas.

“Sinto-me muito feliz com isso. Esta recolha do canto popular religioso do Baixo Alentejo, foi das melhores coisas que fiz na minha vida, e com isso, ajudar o povo do Alentejo a cantar as melodias da sua terra”, acrescenta.

O ‘Cabaz de Conversas’ pelas vivências e tradições de Natal nas dioceses portuguesas é também uma iniciativa solidária para apoiar as Irmãs Dominicanas do Rosário que acompanham cerca de 100 famílias carenciadas, nos bairros na zona do Calhariz Velho, Patriarcado de Lisboa.

HM/OC

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