Assembleia geral do episcopado criticou «inadmissíveis tentativas sistemáticas» que minam «proteção social» no país com «grave crise sanitária, económica, ética, social e política»

Foto: Lusa/EPA

Brasília, 17 abr 2021 (Ecclesia) – Os bispos do Brasil apelam à “unidade” entre a “sociedade civil, Igrejas, entidades, movimentos sociais e pessoas de boa vontade” em favor da vida, pedem “competência e lucidez” e criticam a falta de orçamento na saúde e educação.

“Na sociedade civil, os três poderes da República têm, cada um na sua especificidade, a missão de conduzir o Brasil nos ditames da Constituição Federal, que preconiza a saúde como «direito de todos e dever do Estado». Isso exige competência e lucidez. São inaceitáveis discursos e atitudes que negam a realidade da pandemia, desprezam as medidas sanitárias e ameaçam o Estado Democrático de Direito”, afirmaram os bispos, esta sexta-feira, numa mensagem dirigida ao povo brasileiro, por ocasião da 58ª assembleia geral da Conferencia Nacional do Bispos do Brasil.

Os responsáveis destacam a importância da ciência no combate à pandemia e pedem que se incentive o “uso de máscara”, se promova o “distanciamento social” e se garanta a “vacinação para todos, o mais breve possível”.

“O auxílio emergencial, digno e pelo tempo que for necessário, é imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia, com especial atenção aos pobres e desempregados”, sublinham.

A saúde e a educação são, denunciam os bispos, alvos de “inadmissíveis tentativas sistemáticas de desmonte da estrutura de proteção social no país” com falhas na aplicação do “mínimo constitucional do orçamento na saúde e na educação”.

“A educação, fragilizada há anos pela ausência de um eficiente projeto educativo nacional, sofre ainda mais no contexto da pandemia, com sérias consequências para o futuro do país. Além de eficazes políticas públicas de Estado, é fundamental o engajamento no Pacto Educativo Global, proposto pelo Papa Francisco”, indicam.

A violência “disseminada” na sociedade, onde existe um “fácil acesso às armas” é outra preocupação apresentada pelo episcopado, bem como a “desinformação e o discurso de ódio” que se encontram “com agressividade e sem limites” nas redes sociais.

“Constatamos, com pesar, o uso da religião como instrumento de disputa política, justificando a violência e gerando confusão entres os fiéis e na sociedade”, sublinham.

Os bispos afirmam a urgência de “superar a desigualdade social no país”, pedem a promoção de uma “melhor política”, que não se submeta aos “interesses económicos” mas que tenha como farol a “fraternidade e a amizade social” que “implica não só a aproximação entre grupos sociais distantes, mas também a procura de um renovado encontro com os setores mais pobres e vulneráveis”.

“A travessia rumo a um novo tempo é desafiadora, contudo, temos a oportunidade privilegiada de reconstrução da sociedade brasileira sobre os alicerces da justiça e da paz, trilhando o caminho da fraternidade e do diálogo”, pode ler-se.

No encontro, realizado em formato on-line, devido à pandemia da Covid-19, “neste grave momento”, entre os dias 12 e 16 de abril, os bispos recordaram “solidariamente” as pessoas doentes e as “famílias que perderam os entes queridos”, bem como todos os que “sofrem as consequências da Covid-19”, e manifestaram também “profunda gratidão aos profissionais de saúde e a todas as pessoas que têm doado a vida pelos doentes, prestado serviços essenciais e contribuído para enfrentar a pandemia”.

Os responsáveis falam numa “grave crise sanitária, económica, ética, social e política, intensificada pela pandemia”, que o Brasil está a atravessar e que desafia à exposição da “desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira”.

“Embora todos sofram com a pandemia, as suas consequências são mais devastadoras na vida dos pobres e fragilizados”, indicam.

“Tudo o que promove ou ameaça a vida diz respeito à nossa missão de cristãos. Sempre que assumimos posicionamentos em questões sociais, económicas e políticas, nós o fazemos por exigência do Evangelho. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada”, acrescenta o episcopado brasileiro.

LS

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