O Natal é efetivamente um tempo especial. Apesar das suas raízes pagãs, associadas à celebração do solstício de Inverno, esta quadra pretende memorar o nascimento de Jesus Cristo. Se o próprio Deus se fez tão pequeno e frágil, cada um de nós deve recordar-se – pelo menos uma vez no ano – do quanto precisa dos outros para viver e, procurando a paz, encontrar a felicidade que tanto ambiciona.

Independentemente da maior ou menor crença, todos partilham este espírito de aproximação com os demais. As famílias juntam-se, esquecendo muitas vezes os conflitos surgidos durante o ano. Os amigos voltam a encontrar-se. As pessoas desavindas fazem, muitas vezes, as pazes. Por vezes esta é a única época do ano em que nos lembramos daqueles que experimentam a carência, multiplicando-se as ações de solidariedade. Ou seja, estamos diante de um período do calendário que nos aproxima uns dos outros, quebrando barreiras e tornando a nossa vida um lugar melhor.

O Natal na Arquidiocese de Braga cumpre as cadências das demais localidades do Entre-Douro-Minho. As famílias juntam-se à volta da mesa, mesmo aqueles que trabalham longe da sua terra regressam para passar esta quadra junto dos seus. O frio que se faz sentir lá fora contrasta com o calor do fogão e das conversas que preenche o cenário no interior das casas. No canto da sala não falta o célebre pinheiro de Natal, tradição importada da Baviera pelo rei-consorte Fernando de Saxe-Coburg-Gotha, marido da nossa D.ª Maria II, e que por cá se enraizou com celeridade. O que não costuma faltar numa casa bracarense é o presépio. Com mais ou menos figuras, lá está o Menino Jesus, entre Maria e José, junto do burro e da vaquinha, a lembrar que o Natal é uma festa cristã. Em muitas casas apenas se coloca a imagem do Menino Jesus no presépio depois da meia-noite de 25 de dezembro, ficando o presépio até essa data desprovido da sua figura principal.

Onde o Natal bracarense do passado mais se assemelha à atualidade é na mesa. As famílias esforçavam-se para que nunca faltasse o bacalhau na consoada, fazendo, por vezes, grandes sacrifícios para o comprar. As batatas e couves, que faziam o acompanhamento, eram muitas vezes cultivadas nos seus quintais. Por isso mesmo, o prato principal da consoada bracarense é, ainda hoje, o bacalhau cozido com legumes, depois regados com azeite. No Entre-Douro-e-Minho também ainda é comum fazer-se acompanhar a mesa da consoada com arroz de polvo, um molusco que nunca faltou no Noroeste peninsular e que continua a marcar a gastronomia natalícia. Depois vinham os doces…e aquele inconfundível perfume a canela. As rabanadas, a aletria, os tradicionais mexidos (também designados de formigos) e o bolo-rei nunca faltam na mesa minhota.

Para muitos, a noite jamais pode terminar sem a deslocação até ao templo mais próximo para celebrar a Missa do Galo, que culminava com o beijar do Menino, tradição que ainda hoje se mantém. Sendo certo que nem todas as famílias alimentavam este costume religioso, era mais generalizado o hábito de oferecer presentes às crianças. O Menino Jesus, mais tarde superado pelo Pai Natal, deixava no sapatinho colocado no fogão ou junto da chaminé o seu presente. Fosse uma família mais abastada ou uma família de mais parcos recursos, geralmente não faltava o presente no sapatinho das crianças da casa. Enquanto faziam horas para a meia-noite, os garotos divertiam-se a jogar ao rapa, dando uso aos pinhões que se tiravam das pinhas.

No dia seguinte, o Natal propriamente dito, dormia-se até mais tarde. Estreava-se roupa nova – aqueles que podiam – e voltava a família a juntar-se para o almoço. Durante o resto do dia era comum visitar-se os presépios movimentados que abundavam nas freguesias. Mais recentemente também o Presépio Vivo de Priscos e a Aldeia dos Presépios em Garfe almejaram lugar no Natal bracarense.

Rui Ferreira

 

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