José Maria Montenegro

A vida nova vem com a velha, onde estão os nossos (pais, irmãos, filhos, amigos, colegas), onde moram os defeitos e as virtudes que nos condicionam, onde reza a história do que fizemos e prometemos fazer. Onde estão – numa palavra – as nossas circunstâncias que não são, nem devem ser, descartáveis.

Neste ano em especial (mas por nenhuma razão em especial) dei por mim a meditar sobre a passagem de ano, sobre essa ideia de boas entradas que encomendamos uns aos outros, sempre iluminados pela novidade de um ano que começa. «Bom ano novo!», ouvimos e dizemos. E, de quando em vez, lá repescamos esse dito popular do «ano novo, vida nova!», como expressão de incentivo à mudança a reboque do ano que se inicia.

Mas será mesmo assim? A resposta faltou-me, confesso, ao ver o olhar atónito dos meus filhos pequenos perante o momento bizarro da passagem da meia noite em que toda a gente comemorava, se abraçava e saudava «sem razão nenhuma». E eles tinham razão (as crianças têm sempre, outra expressão popular…). Não se passava nada, nada acontecera, era (é) simplesmente uma convenção entre adultos. Como tantas outras.

Fiquei preso à ideia de convenção «entre adultos» e rapidamente me dei conta de como não faltam pretextos que geram o desafio romântico da vida nova, do novo começo, ou, como se diz em linguagem teológica, da epifania (temos o novo ano civil, mas também o ano judicial, o ano académico, a época desportiva, a nova coleção, etc.). Concluí, com algum desencanto, como grassa a banalização do apelo e, pior, como é comprovada e frequentemente infrutífero.

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