Bíblia: «Ilusão das ilusões! Tudo é ilusão!» – Comissão da CEP apresenta nova tradução do Livro de Coélet

Especialistas falam em «livro singular», com reflexão de teor filosófico

Lisboa, 01 abr 2026 (Ecclesia) – A comissão coordenadora da tradução da Bíblia, da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), lançou a nova versão do Coélet, texto do Antigo Testamento que apresenta como um “livro singular”.

“Várias das ideias e temas do livro de Coélet levam os estudiosos a pensar em influências da cultura helenista. Alguns matizes de ceticismo, epicurismo e estoicismo são os aspetos mais frequentemente apontados pelos autores”, explicam os especialistas, em nota enviada à Agência ECCLESIA.

O início da obra surge traduzida por “ilusão das ilusões – diz Coélet! Ilusão das ilusões! Tudo é ilusão!”.

“Esta frase constitui como que um refrão onde se contém a tese do livro. Por isso é retomada no epílogo. O termo hebraico ‘hebel’ condiz bem com a ideia de uma coisa vã ou inútil, mais do que com a ideia de absurdo. Por isso aqui se traduz por ilusão”, justificam os responsáveis pelo texto.

Segundo os especialistas, o essencial do pensamento do Coélet enquadra-se na “fase de transformação cultural e teológica por que estava a passar o Israel desta primeira fase do helenismo”.

“Muitos exegetas pensam que as tendências para suscitar interrogações sobre certezas tradicionalmente garantidas constituíam igualmente uma característica da sabedoria oriental, já visível em anteriores práticas bíblicas, como o livro de Job, as quais, por sua vez, tinham raízes hoje conhecidas nas antigas literaturas da Mesopotâmia e do Egito”, acrescentam os tradutores.

O nome do livro deriva da expressão hebraica ‘qohelet’, mas a designação tradicionalmente usada como título deste livro é ‘Eclesiastes’, tradução do nome hebraico para o grego ‘ekklesiastés’.

“O uso e significado da palavra, tanto em hebraico como em grego, remete-nos para o contexto das assembleias, sejam de cariz litúrgico sejam de carácter cultural. Uma personagem receberia um tal nome por ser um membro destacado numa dessas assembleias”, indica a nota que acompanha o texto da nova tradução.

Por detrás dos conteúdos deste livro singular estaria, por conseguinte, uma personagem de grande repercussão na vida cultural e espiritual da comunidade hebraica. Alguns seriam levados a pensar mesmo num mestre popular e peripatético, de teor mais cultural e filosófico do que propriamente litúrgico ou religioso.”

O livro é oriundo do ambiente palestino entre os finais do século III e os inícios do século II a.C., “na época em que a Palestina estava sob o domínio dos Ptolemeus”, isto é, dos herdeiros egípcios de Alexandre Magno.

Os especialistas destacam a passagem final do autor principal, “uma espécie de alegoria sobre o desmoronar do ser humano, com as forças que se esgotam, as luzes que se apagam, o espírito que se afasta e a vida que se afunda no poço do seu próprio mistério”.

O Coélet deixa-nos também algumas mensagens sóbrias e positivas como recomendações bem prestáveis: um trabalho moderado, o gozo comedido dos prazeres da vida, nomeadamente amor, amizade e usufruto dos bens adquiridos, com sabedoria e temor de Deus. Apesar de todas as suas fragilidades e limitações, a vida vale ainda a pena ser vivida.”

Ao colocar online a tradução provisória dos livros dos Macabeus, a Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da CEP convida a comunidade a “envolver-se no processo de tradução e revisão deste documento e dispõe-se a acolher o contributo dos leitores, em ordem ao melhoramento da compreensibilidade do texto”.

A tradução provisória deste e de outros textos bíblicos está disponível para download no site da Conferência Episcopal Portuguesa.

Em março de 2019, a Conferência Episcopal Portuguesa apresentou o primeiro volume da nova tradução da Bíblia em português feita por 34 investigadores a partir das línguas originais, com a publicação da edição de ‘Os Quatro Evangelhos e os Salmos’.

Desde agosto de 2021, um novo livro da Bíblia é disponibilizado mensalmente em formato digital e divulgado pela Agência ECCLESIA.

OC

 

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