Portugal tem um novo Santo – Bartolomeu dos Mártires vai ser canonizado no próximo domingo e este é o mote para a conversa com o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (ECCLESIA)

Foto: Agência ECCLESIA/LFS

Frei Bartolomeu dos Mártires, da Ordem dos Frades Pregadores, nasceu em Lisboa (1514) e morreu em Viana do Castelo (1590), onde se encontra sepultado. Beatificado em 2001, destacou-se como arcebispo de Braga, diocese que vai acolher esta cerimónia de canonização. É um momento importante para a Igreja em Portugal e para a arquidiocese, em particular?

Sem dúvida, na medida em que esta canonização, diria, é como que um estímulo não apenas para os cristãos, mas sobretudo para eles, que se sentem verdadeiramente interpelados por aquilo que foi a sua vida. Uma vida do século XVI, mas uma vida que está repleta de atualidade.

É por isso que me parece tão importante esta canonização, não só como um recordar o passado, por aquilo que aconteceu na vida de São Bartolomeu dos Mártires, mas essencialmente por aquilo que ele foi, que ele realizou, e que hoje continua repleto de uma atualidade muitíssimo grande. A Igreja acolhe este momento com uma importância única, porque é uma interpelação para o seu agir, nas circunstâncias concretas em que nos encontramos.

 

Esta é uma canonização especial, porque a Santa Sé dispensou o milagre que seria habitualmente exigido após a beatificação. Falamos de um momento esperado em todos os territórios onde o novo santo foi arcebispo, como é que foi o processo de conversações com o Vaticano? Foi difícil desbloquear o processo, digamos assim, e chegar a este resultado da canonização equipolente?

Eu penso que não se pode falar propriamente de desbloquear, foi qualquer coisa de muito normal, diria. Frei Bartolomeu dos Mártires viveu no século XVI, passaram-se já muitos anos, mas o que é certo que a sua vida, durante este tempo, foi sempre reconhecida como a de alguém que foi santo. Aliás, quando morreu, em Viana do Castelo a população já o reconhecia como tal, era o “arcebispo santo”, que viveu e morreu ali.

Houve talvez alguma incúria, mas não quero fazer juízo nenhum em relação ao passado, faltou preocupação em desencadear todo o processo de canonização, que aconteceu um pouco mais tarde, graças ao trabalho, em particular, de um padre dominicano, o padre Rolo, no sentido de recuperar a sua pessoa e a sua obra. A partir daí aconteceu a beatificação; depois seria necessário também um milagre para a canonização, o ser declarado como santo.

Pensei que poderia ser interessante não adiar mais, fazermos a nossa parte, no sentido de propor ao Papa Francisco que concedesse a graça da dispensa do milagre, uma vez que a Igreja o considera como santo já há muito tempo. Foi isso que aconteceu, foi uma exposição muito normal, num encontro privado que tive com o Papa Francisco, onde lhe entreguei este pedido. O Papa, porventura, já conhecia um pouco a personalidade e a obra de Bartolomeu dos Mártires.

Não nos esqueçamos que ele é muito conhecido por parte da Igreja, inclusivamente o Papa Paulo VI ofereceu a todos os bispos do Concílio Vaticano II, no final, quase como se fosse uma prenda, o livro ‘O estímulo dos Pastores’, o que fez com que fosse conhecido pelo mundo inteiro. A sua vida era conhecida, a sua obra era conhecida, o Papa chegou a esta conclusão e foi algo natural.

 

Bartolomeu dos Mártires foi uma das vozes de referência no Concílio de Trento (1543 – 1563), num momento decisivo na história da Igreja Católica, por causa da reforma protestante. Destacou-se também pela sua missão pastoral à frente das comunidades do Minho e de Trás-os-Montes. É fácil falar deste Santo às novas gerações, como uma referência, um modelo?

Penso que é fácil falar dele às novas gerações, como a todas as pessoas. Ele foi uma grande personalidade do Concílio de Trento, pela ânsia de reforma da Igreja, integrando-se naquilo que na época começou a chamar-se reforma católica. Estava em curso a reforma protestante e alguns historiadores começaram também a referir a contra-reforma.

Frei Bartolomeu dos Mártires integrou-se nesta ânsia que a Igreja Católica tinha também de se reformar, por isso participa no Concílio de Trento com várias propostas para a renovação da mesma Igreja. Aquilo que ele leva, no entanto, já o tinha concretizado aqui. A sua vida é a de alguém que vai ao encontro das pessoas, que peregrina por toda a diocese – é bom que recordemos que a Arquidiocese de Braga, naquela altura, integrava Viana do Castelo, Vila Real e parte de Bragança -, em toda a sua extensão, no contacto com as pessoas. Isto faz com que, efetivamente, ele seja uma referência.

Depois, o cuidado que ele teve com os pobres, com os mais necessitados. Há tantos momentos da sua vida na relação com os mais abandonados, com os mais marginalizados. É muito fácil encontrarmos elementos que possam, na verdade, ser um estímulo para os cristãos, adultos e jovens, para caminhar de uma maneira nova, mais comprometida na Igreja e na sociedade.

 

A atenção aos pobres continua a ser uma missão da Igreja. Como é que o novo santo pode inspirar as mudanças que a atualidade exige?

Eu vejo muitos aspetos, mas destaco o cuidado que ele teve, por exemplo, na formação das pessoas. Foi um homem apaixonado pela formação, tendo fundado o Colégio de São Pedro e São Paulo, que entregou aos Jesuítas, nascidos há relativamente pouco tempo, no sentido de promover a formação, a cultura e, consequentemente, o desenvolvimento da sociedade. Portanto, não é apenas um colégio pelo colégio, mas para suscitar pessoas para a sociedade, para um compromisso concreto. Ele suscita depois a criação dos nossos seminários, como orientação do Concílio de Trento.

Depois existia o cuidado com a formação, também, quando passava pelas diversas comunidades, tinha essa grande preocupação. Hoje a ideia de formação permanente, de atualização constante, é outra realidade de extrema importância que a Igreja não pode, de maneira alguma, desconsiderar. Antes pelo contrário. Neste aspeto, também, São Bartolomeu dos Mártires é um estímulo.

 

Era já arcebispo de Braga quando Frei Bartolomeu dos Mártires foi beatificado, em 2001. É importante para si estar ainda à frente da arquidiocese no momento desta canonização?

Sem dúvida, como é natural quando nos dedicamos a uma causa e quando acreditamos nela. Penso que a Igreja, hoje, necessita também de uma renovação e, aliás, o Papa Francisco fala permanentemente disto, do que classifica como renovação inadiável.

Esta renovação da Igreja, pensam alguns, passa pelas estruturas. Poderá acontecer. Passa por mudar de hábitos, de rotinas. Mas, pessoalmente, estou convencido de que a grande renovação da Igreja vem de dentro, de dentro para fora, da santidade para os compromissos concretos que a vida, depois, proporciona.

Portanto, eu que acredito firmemente nisto – que a renovação da Igreja passa por uma transformação interior, por uma maior fidelidade ao Evangelho, por um maior compromisso com o próprio Jesus Cristo -, certamente tenho de ficar contente com uma canonização.

Efetivamente, é um Santo. É a Igreja que reconhece, porque como dizia atrás, a santidade de Bartolomeu dos Mártires já era reconhecida pelo povo há muitos séculos. Fico muito contente pelo facto de a Igreja poder ter mais alguém a dizer: “Assim como eu fiz, fazei vós também. A santidade foi possível para mim, também será possível para vós, bispos, sacerdotes, leigos”. Isto de pautarmos a nossa vida pela mediocridade, pela superficialidade, não conduz a nada. Não podemos viver só de hábitos, de rotinas, temos de ter um espírito muito grande, uma alma, que nós dá alento e coragem para mostrar que Cristo está em nós e que, por nosso intermédio, está a agir na sociedade. É um momento grande de alegria, para mim, essencialmente por isto.

 

Foto: Agência ECCLESIA/LFS

Já celebrou as bodas de ouro como sacerdote, é bispo há mais de 30 anos, arcebispo de Braga há 20, e quando completou os 75 anos de idade apresentou a sua renúncia ao Papa. Já tem alguma indicação sobre quando será substituído?

Não, nem me preocupo. Fiz aquilo que deveria fazer, que são as orientações canónicas, quando completei 75 anos, agora não me preocupo muito com isso. Procuro ir vivendo a vida, não fugir às responsabilidades, tendo o mesmo encanto, se é possível, e a mesma dedicação. Não há orientação nenhuma. Confio e espero, e quando e como Deus quiser, cá estarei para encetar um novo período na minha vida.

 

Para os seus 20 anos como arcebispo o jornalista Ricardo Perna trabalhou consigo no livro ‘D. Jorge Ortiga – Semeador de alegria e da unidade’. É assim que gostaria de ser recordado, como um semeador da alegria e da unidade?

Sem dúvida. Desde o princípio pautei a minha vida, particularmente episcopal, por este testemunho da unidade. Acredito que é possível a Igreja dar um contributo muito grande para a unidade, em primeiro lugar dela própria, da Igreja, mas depois também da sociedade. Mas é preciso construí-la, é preciso trabalhar, de facto, a unidade. Penso que tenho vivido para a unidade, e que um dos frutos da unidade é precisamente a alegria. Quando entre nós não há divisões, quando nos sentimos amados e quando amamos, sentimos e experimentamos a alegria, e a alegria torna-se o testemunho da nossa vida. Não posso ser juiz em causa própria, mas penso que tenho procurado orientar a minha vida para construir a unidade, e consequentemente para viver na alegria no encontro com as pessoas, com as situações e com os problemas. Que existem, mas eu acredito sempre que as coisas se modificam e que aquilo que importa é que manifestemos muita serenidade, confiança e também muita alegria perante aquilo que a vida nos proporciona.

 

Qual foi o momento mais feliz para si enquanto arcebispo, e qual foi o mais triste?

É difícil, não sei dizer. Procuro encarar a vida tal e qual ela é, nas situações boas e más, não gosto de fazer grande diferença, portanto não lhe posso dizer qual foi o momento mais triste. Procuro abraçar as diversas situações, sei que são desafios, que são problemas, mas abraçam-se com fé e com esperança e tudo se ultrapassa, e o que hoje parece um muro intransponível, amanhã deixa de o ser.

Em termos de alegria, e dentro daquilo de que há momentos falávamos: a beatificação de Alexandrina de Balasar, e a beatificação e agora canonização de frei Bartolomeu dos Mártires deram-me, de facto, grande alegria na minha vida de arcebispo de Braga.

 

Na Diocese de Braga há uma dinâmica implementada de diálogo com a sociedade, de que são exemplo as conferências ‘Nova Ágora’, uma iniciativa dinamizada neste seu tempo como arcebispo. Gostaria que prosseguisse este diálogo entre a sociedade civil e a Igreja Católica?

Creio que é imprescindível. Hoje a Igreja não pode, de maneira nenhuma, fechar-se dentro dela. O Papa convida permanentemente a Igreja a sair, a ir ao encontro das situações, de pobreza e outras, mas hoje a nossa saída tem de ser essencialmente para um encontro com a cultura. A Igreja não é nada sem um diálogo permanente e constante com a cultura, nas suas mais variadas manifestações. Portanto, penso que isto não é uma opção, é como um dever e uma obrigação.

A Igreja não é ela própria se efetivamente não entrar em contacto com a cultura, para amar a própria cultura, porventura para evangelizar essa cultura, deixar dentro da cultura a semente do Evangelho, até para aprender com a cultura. Porque não podemos de maneira nenhuma apegarmo-nos aos nossos esquemas tradicionais de ir repetindo sempre a mesma coisa, isso já não conta, isso já não vale. A linguagem do Evangelho tem de ser uma linguagem revestida por esta nova linguagem da cultura, da técnica moderna, isso é de facto imprescindível. Portantro, creio que não é uma opção para a Igreja, é uma obrigação.

Se vão continuar com a experiência da ‘Nova Ágora’ não sei, também não me preocupo com isso, foi uma iniciativa que fez o seu tempo, poderá continuar, é bom que continue, mas a Arquidiocese poderá encontrar outros modos de dialogar com a cultura. Não poderá deixar de o fazer.

 

Nestes 20 anos como arcebispo foi presidente da Conferência Episcopal e esteve também ligado à Pastoral Social, que é uma área que acompanha com particular atenção. Como é que vê o atual momento do país em termos económicos e sociais? Há alguns indicadores positivos relativamente ao desemprego e à diminuição do número de pobres em Portugal, mas as instituições de solidariedade social continuam a dizer que recebem muitos pedidos de ajuda de portugueses que não ganham o suficiente para as despesas. Que ecos é que vai tendo?

Evidentemente que os índices em alguns aspetos são positivos, mas eu costumo dizer que nós não podemos viver pura e simplesmente das estatísticas, porque ainda há muitas situações de pobreza que não podemos de maneira nenhuma ignorar. Olhando para o concreto, a habitação não é aquilo que deveria ser em muitas situações, a situação dos idosos também não – o dinheiro que recebem de reforma é verdadeiramente insignificante para responder às necessidades. A ação social que a Igreja vai realizando não é muito conhecida, mas é uma ação de grande valor e importância, porque efetivamente de grande necessidade. Não são apenas os problemas que as instituições de solidariedade da Igreja enfrentam, mas a necessidade que têm de estar no meio desses problemas e de encontrar resposta. E de facto são muitos, por parte da juventude, por parte dos migrantes, hoje uma realidade nova.

Que a sociedade portuguesa está melhor, evidentemente que ninguém o nega, mas enquanto houver alguém que não tem o indispensável para viver, a Igreja não poderá tranquilizar-se e dizer que está tudo feito. E há sempre alguém, particularmente no interior. É necessário olhar para o interior.

As estatísticas muitas vezes refletem aquilo que acontece nas cidades ou nas vilas e esquecem o interior, onde existem poucas pessoas, normalmente pessoas de idade, que muitas vezes estão praticamente abandonadas, estão sozinhas, e que se não for a presença da Igreja não há mais nenhuma presença, de quem olhe para elas e lhes preste atenção. Portanto, há muitas situações e esta do interior é um problema que me aparece ainda bastante grave.

Foto: Arquidiocese de Braga/João Pedro Quesado

No território da arquidiocese de Braga há muitas empresas e indústrias especializadas. Portugal continua a ter um dos salários mínimos mais baixos da União Europeia, de 600 euros, e esta semana os parceiros sociais começaram a discutir a sua atualização. Como é que vê a meta do governo para que o salário mínimo atinja os 750 euros em 2023?

Eu não quero estar a imiscuir-me nesse assunto, a entrar em termos concretos…

 

Mesmo não olhando especificamente para o valor, mas para a ideia e para a preocupação.

Sem dúvida nenhuma que aquilo que importa é dialogar. É fundamental o diálogo entre todas as instituições para chegar a uma solução e a um consenso, na certeza de que o ordenado mínimo ainda é bastante, eu direi, insuficiente para que as pessoas possam viver tranquilamente com a dignidade a que têm direito.

O caminho para fazer com que as coisas possam evoluir e ser diferentes é uma coisa que efetivamente não me diz respeito, agora, que gostaria de ver as pessoas com outra capacidade, sem dúvida nenhuma.

 

Depois das eleições de outubro o parlamento já reabriu os trabalhos, e logo no primeiro dia o Bloco de Esquerda anunciou a intenção de apresentar um novo projeto de lei para legalizar a eutanásia. Como é que vê esta decisão?

Por aquilo que sabíamos, era esperada. Tenho esperança de que a sociedade portuguesa tenha consciência dos seus valores e que seja capaz de defender a vida, como tantas vezes se vai dizendo que somos pela vida, e que a vida é vida de todos, inclusive dos que estão em situação às vezes terminal, que naturalmente precisam também de dignidade. Mas, a resposta não é a eutanásia, mas passa por tantas outras respostas sociais que deveriam ser intensificadas.

Hoje sabemos que é muito complicado encontrar um lugar numa unidade de cuidados continuados ou paliativos, e esta é que devia ser a verdadeira resposta, aqui é que se devia gastar dinheiro, não gastar dinheiro na morte das pessoas, mas gastar dinheiro para que haja condições e as pessoas possam chegar ao fim da sua vida de uma maneira digna. Isto é que me parece que era importante.

 

Mas, concorda com a possibilidade de se fazer um referendo sobre a eutanásia, como defendem alguns?

Ora bem, já fizemos referendos, se não houver… Eu acho que a vida não é referendável, isto é um princípio para mim e para a Igreja, não podemos estar a sujeitar a vida ao referendo. Se não houver outra hipótese, pois com certeza que nessa altura teremos de ir para a luta, apelando naturalmente aos portugueses que tenham consciência daquilo que foi sempre a sua história.

 

E a Igreja deve envolver-se mais nessa luta, publicamente?

Evidentemente se se trata da vida… mas, não numa campanha, a Igreja não se envolve na política, agora nos valores, tudo aquilo que está relacionado com a pessoa humana, a Igreja é a primeira que desde sempre ‘suja os seus pés’ nessa matéria, digamos assim. Tem de se envolver sempre e cada vez mais, não pode ter medo, não pode estar na expectativa, antes pelo contrário, no sentido de propor para que efetivamente esse grande valor da vida seja defendido e não seja ultrajado.

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