Coordenador nacional da Pastoral Penitenciária fala da forma como se vive «mandamento de amor» nas prisões

Aveiro, 18 abr 2019 (Ecclesia) – O estabelecimento prisional de Aveiro vive nesta Quinta-feira Santa um dia especial, com o rito do lava-pés, que tem os reclusos como protagonistas.

No dia em que a Igreja Católica recorda a Última Ceia de Cristo com os apóstolos, o coordenador nacional da Pastoral Penitenciária lava os pés aos reclusos, celebração que acontece na maioria das cadeias em Portugal.

“É um momento que não se pode descrever, são muitas emoções. A quem quiser que lhe seja lavado o pé, e podem ser todos, peço-lhe que descalce o sapato. Muitos hesitam, mas praticamente quase todos querem, há uma toalha para cada um e depois até ficam com ela como recordação”, conta o padre João Gonçalves à Agência ECCLESIA.

O momento acontece em “ambiente informal”, com a presença dos voluntários e dos reclusos que querem participar.

O sacerdote, que conhece aquele estabelecimento prisional de Aveiro há mais de 30 anos, sabe as “histórias e o sofrimento de muitos reclusos” que ali estão.

Alguns não consentem que lhes beije o pé, não se sentem dignos, e eu não sou Jesus! Mas são momentos fortes que acabam sempre com uma lágrima, quer neles, quer em mim, não sou capaz de conter, é grande a emoção, porque estou diante de pessoas muitas delas marcadas por sofrimentos e crimes muito graves e eles sabem…”

‘Eu não mereço’ é o que dizem mais… e eu pergunto afinal quem merece? Ali sente-se pelo silêncio, pelas lágrimas o que significa o lava pés como mandamento de amor”, aponta o padre João Gonçalves.

O momento termina com um abraço da paz, “sem formalismos” ,entre todos que deixa marcas naqueles que vivem em privação de liberdade.

“O abraço da paz é com muito silêncio, lágrimas, muito forte e bonito, acabam os formalismos, com os voluntários e com eles, há uma proximidade e troca de amizade e isso marca-o porque percebem o que a Igreja está a viver cá fora e sentem esta ligação com o exterior”, explica o sacerdote.

Foto AE/MC, padre João Gonçalves

Já na Sexta-feira Santa, este ano a 19 de abril, os reclusos fazem uma “grande caminhada na cadeia”, uma “homenagem” a Jesus, a Via-Sacra, com textos próprios e adaptados.

“Fazemos uma caminhada grande dentro da cadeia, com cruz e velas que eles transportam.  Mesmo os que leem mal são respeitados, num ambiente bonito e ele estão a homenagear e a seguir os passos de Alguém muito parecido com eles, que foi preso e condenado”, conclui o coordenador nacional da Pastoral Penitenciária.

O Papa Francisco vai presidir hoje à Missa vespertina de Quinta-feira Santa, com o rito de “lava-pés” na prisão ‘de Velletri, Roma.

A celebração, com início marcado para as 16h30 locais (menos uma em Lisboa), vai contar com a participação de detidos, agentes policiais e pessoal civil da instituição.

Trata-se da quinta vez que Francisco dedica a celebração da tarde de Quinta-feira Santa aos presos, depois de 2018, 2017, 2015 e 2013, tendo lavado os pés a pessoas de várias nacionalidades e confissões religiosas, nessas cerimónias.

SN/OC

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