Padre Jorge Guarda, Diocese de Leiria-Fátima

A Associação de Empresas de Serviços Funerários da Catalunha (Espanha) publicou recentemente os dados da sua atividade relativos a 2021. Neles se informa que há uma tendência crescente para os funerais laicos ou civis, atingindo já, na cidade de Barcelona, no ano referido, 69% de todos os realizados. Nas zonas rurais e noutras cidades menos descristianizadas, as percentagens são diferentes, predominando as exéquias cristãs. Já se conheciam estatísticas preocupantes para a Igreja noutras áreas como a prática da missa dominical, os matrimónios, batizados e outras celebrações festivas. Agora, é à volta da morte que surgem estatísticas alarmantes.

É um facto cada vez mais observável que as pessoas estão a perder um dado fundamental do credo cristão: a fé na Vida Eterna e que a morte não é o fim de tudo. Persistem ainda, é certo, muitas manifestações desta fé, explícita ou implícita, nos comportamentos e sentimentos das pessoas: pedido de funerais cristãos, sinais religiosos e intenções de missas pelos defuntos, etc. São expressões de alguma fé na vida futura, mas o seu impacto no modo de encarar a morte e na vivência do luto parece ser, em muitos casos, bastante débil. O sentimento e a dor da perda têm um peso tal sobre familiares e amigos que a fé e a esperança na continuidade da vida para além da morte e da relação espiritual com os defuntos exercem pouca influência sobre quem sofre o luto.

Que reflexões nos sugerem estes dados e factos? Que desafios nos suscitam? Não basta pensar que entre nós ainda não é assim, pois também aqui diminui em muitos a visão cristã sobre a vida e a morte e vão aumentando os funerais sem qualquer celebração religiosa. As agências funerárias, por seu lado, com criatividade, vão avançando com propostas alternativas de cerimónias fúnebres com memórias dos defuntos, música, palavras e gestos para honrar aqueles e dar conformo aos familiares e amigos. É de esperar que o futuro nos traga cada vez mais este tipo de cerimónias.

Sem prejuízo do respeito que nos merece a liberdade de pensamento e de convicção das pessoas, não podemos deixar de nos sentirmos interpelados enquanto cristãos e pastores. Daí que, no meu entender, este fenómeno nos lance desafios pastorais na área da espiritualidade, da compaixão e solidariedade e da liturgia.

O desafio da espiritualidade. Se cresce o número de pessoas que prescindem da Igreja e dos seus ministros para os acompanhar na morte ou no luto, muitas delas não estão, todavia, totalmente longe de Deus e da espiritualidade. Esta é o recurso em que buscam sentido e conforto para a vida e para a morte. O homem não é só corpo material. É também espirito e vive a partir da sua interioridade e do divino que nela se revela. Estamos nós, comunidades cristãs e pastores, aptos a proporcionar experiências, ritos, símbolos e mensagens que ajudem a avivar e fortalecer esta dimensão fundamental da pessoa humana já na doença, na preparação para a morte e depois no luto? Que podemos oferecer e por que meios?

O segundo desafio é o da compaixão e solidariedade. No passado, havia confrarias, ritos e apoios várias por parte da comunidade cristã para ajudar as famílias enlutadas, sepultar os corpos e dar apoio espiritual aos vivos e defuntos. E hoje, como é encarada a morte, celebradas as exéquias e dado apoio nas comunidades cristãs a quem sofre a perda de entes queridos? As obras de misericórdia indicam sepultar os mortos e rezar

pelo vivos e defuntos como expressão de ajuda fraterna aos irmãos. Tais obras não podem ser praticadas somente de forma individual, institucional e profissional, mas devem tornar-se ações essencialmente comunitárias e significativas. A morte de uma pessoa, mais ou menos conhecida, e o luto que sofrem os seus familiares e amigos devem envolver a própria comunidade de que era membro, mesmo que, em muitas situações, de modo distante e passivo. Não chega ir participar no funeral e apresentar as condolências. É preciso tomar iniciativas para ajudar as pessoas a enfrentarem a morte e a fazerem a despedida dos seus entes queridos.

Nestes dias, participei numa celebração exequial. Nos familiares, havia muita comoção e lágrimas de dor. Por desejo expresso da pessoa defunta, além da Eucaristia, houve o canto do ofício de defuntos. Senti que o canto, os silêncios, a palavra de Deus, os ritos, a comunhão espiritual e sacramental com Cristo, as orações, a memória sobre a vida humana e cristã da defunta, tudo isso dava conforto, suavizava a perda e alimentava a comunhão e a esperança na vida eterna e na ligação espiritual entre vivos e defuntos. Será que assim acontece normalmente nas celebrações e funerais? É este o desafio da liturgia: proporcionar celebrações que toquem o íntimo das pessoas, revitalize e reforce nelas a fé e a confiança.

Pastores e comunidades cristãs precisamos de discernir e procurar novas formas de avivar a espiritualidade, exercer a compaixão, acompanhar as famílias em luto e celebrar as exéquias com qualidade litúrgica e espiritual. Não deveria existir nas comunidades cristãs, um serviço pastoral envolvendo padres e leigos que se façam próximas dos familiares e amigos dos defuntos, proponham momentos de oração e celebrações que testemunhem a verdadeira fé da Igreja, deem apoio espiritual, esperança e conforto? Este serviço não deveria circunscrever-se ao redor da morte, mas proporcionar também acompanhamento e apoio no luto: grupos de partilha e entreajuda, momentos de memória e oração nos aniversários, celebrações da eucaristia… Sem prejuízo do respeito pelos sentimentos e sensibilidade das pessoas, a proximidade, entreajuda, propostas inovadoras oportunas… poderão ser expressões de uma comunidade cristã que crê na vida eterna e o manifesta de modo concreto no amor ao próximo ferido pelo luto.

O serviço pastoral das exéquias é um dos que deverá ser renovado no caminho sinodal em curso. Não se trata tanto de evitar a concorrência das novas propostas civis, quanto de viver, testemunhar e propor a genuína fé cristã na vida eterna e na ressurreição, que se celebra na liturgia católica. E também de praticar, em formas adequadas aos tempos atuais, as obras de misericórdia em relação aos defuntos e aos seus familiares e amigos. É preciso criatividade e inovação, a partir de iniciativas que aqui ou ali já são praticadas. Por exemplo, quando fui ao Canadá, na comunidade portuguesa, morreu uma pessoa e o pároco foi comigo, na véspera do funeral, à casa mortuária para cumprimentar os familiares, proporcionar um momento de oração, a possibilidade de se confessar a quem o quisesse fazer e preparar com eles a celebração exequial. Os sacerdotes podem não ter a disponibilidade para isto em todos os casos, mas se houver uma equipa de pessoas voluntárias, como acontece com outros serviços da paróquia, certamente que alguma coisa será possível fazer. Haja pastores e fiéis criativos e ousados para abrir novos caminhos pastorais.

Fonte da notícia referida: https://www.religionenlibertad.com/espana/654881685/funerales-laicos-barcelona-mayoria.html?eti=5735#%23STAT_CONTROL_CODE_3_654881685%23%23

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