A Instrução Pastoral “Communio et Progres-sio” foi uma promessa do Concilio Vaticano II, plasmada no decreto “Inter Mirifica”, sobre os meios de comunicação social. Quarenta anos depois da sua publicação, continua a ajudar a ler criticamente o modo como tem evoluído a ‘ecologia da comunicação mediática’ e a inspirar a ação pastoral da Igreja neste âmbito.

Num momento em que as “redes sociais” e as plataformas e serviços de comunicação digital se encontram no centro das atenções, abrindo horizontes a práticas comunica-cionais inimagináveis ainda há poucos anos, é extraordinário como um documento de há 40 anos continua a colocar-se não só como memória, mas como horizonte do muito que há a fazer. Isso tornou-se possível porque, no essencial, não se ficou pela espuma dos fenómenos e, nomeadamente, pelo discurso eufórico acerca das promessas tecnoló- gicas nem tão-pouco por uma perspetiva instrumentalista dos meios de comunicação, tão típica das grandes estruturas de poder, sejam elas económicas, políticas ou cultu- rais, a Igreja Católica incluída.

De entre os pontos suscetíveis de serem destacados nesta breve leitura feita a partir de uma perceção dos tempos que correm, salientam-se três: a) o modelo e a conceção de comunicação subjacente; b) a formação dos públicos; c) a valorização da opinião pública, nomeadamente no interior da Igreja.

a. A comunicação: anúncio e diálogo

Dois grandes modelos de comunicação se poderiam recortar, na multifacetada história da comunicação humana: o informativo e o dialógico. O primeiro, culturalmente dominante ao longo dos séculos, é predominantemente unidirecional, voltado para a difusão de uma dada mensagem de um ponto a outro (ou a muitos pontos). O segundo é con- versacional, interativo, horizontal, feito de trocas, experiências, reconhecimento.

Digamos que, neste quadro, necessariamente sumário e simplista, a vida e testemunho de Jesus Cristo é, de facto, original, como a “Communio et Progressio” enfatiza, no seu ponto 11. Primeiro, Ele “não falava como que ‘de fora’, mas ‘de dentro’, a partir do seu povo”; depois, não se limitava a “exprimir ideias ou manifestar sentimentos”, mas doou-se a si mesmo, fazendo-se semelhante aos seus interlocutores. Dificilmente se pode colocar um cenário mais exigente e largo de comunicação. Daí o documento dizer que Cristo se manifestou como “perfeito Comuni-cador”. Disse o que fez e fez o que disse.

Olhando à atualidade desta perspetiva: comunicar continua a significar frequen-temente‘falar para os outros’. E quando ensaia o registo da conversação, não raro se converte em “conversa mole”, quando não em desconversa. Por outro lado, comunicação equivale tantas vezes a ‘performa-tividade’ das tecnologias (as tais “maravilhas” da técnica), reduzida que é ao uso e consumo de ferramentas e de máquinas.

Uma outra pista de reflexão é aqui pertinente: nada pode substituir (mas apenas complementar, enriquecer, alargar) a comunicação olhos-nos-olhos.

b. A formação dos públicos para um uso crítico dos media

Os discursos da comunicação costumam olhar sobretudo para os comunicadores, esquecendo os públicos e o seu papel. A Instrução Pastoral também não os esquece, mas, sintomaticamente, coloca “os que recebem as mensagens” em primeiro lugar. E detém-se a explicitar o que deve (e como deve) ser feito para que seja um parceiro ativo no processo.

Com os públicos, “é preciso, em primeiro lugar, estimular o conhecimento dos princípios que regem o uso dos meios de comunicação; (…) Se, com efeito, compreenderem bem a

sua índole e função, estes meios de comunicação podem contribuir para um verdadeiro enriquecimento do espírito; (…) Por isso, a educação deve incluir princípios bem definidos para cada um dos meios de comunicação e respetivo papel na comunidade local, bem como a melhor maneira de os utilizar” (n. 64).

Essa formação “deve-se fazer metodicamente nas escolas”, com lugar explícito nos programas de estudo e sob a orientação de mestres competentes” (n.66). A formação tanto dos pais como dos educadores e professores é, por isso, crucial. (n.70)

Mais de dez anos antes da primeira grande “declaração” sobre uma formação sistemática e crítica dos alunos sobre os media, feita pela UNESCO em 1983, já a Igreja, de forma circunstanciada e clara, tinha traçado o horizonte, o programa e o alcance desta formação.

Quando a União Europeia, a UNESCO e o Conselho da Europa se encontram empenhadas em aprofundar esta formação orientada para a literacia informativa e mediática, a Igreja, nas suas instituições, e em diálogo com todos, pode dar um contributo culturalmente relevante nesta matéria.

c. A opinião pública, também no interior da igreja

A “Communio et Progressio” preconiza “um diálogo contínuo com o mundo contemporâneo, participando, assim, na resolução dos problemas do homem de hoje” (n. 114). Esse é um caminho para exercitar a necessária leitura dos “sinais dos tempos”, que não pode prescindir dos media.

Seria um contrassenso que a Igreja apostasse numa opinião pública esclarecida e interveniente face à vida coletiva, incluindo a eclesial, e não cuidasse, ao mesmo tempo, e com igual desvelo, da promoção de uma opinião pública, igualmente esclarecida e crítica, na comunidade católica. Sem ela, “faltar-lhe-ia qualquer coisa de vital, e a culpa recairia tanto sobre os Pastores como sobre os leigos”. Para isso, acrescenta o ponto 116, “as autoridades responsáveis favoreçam e procurem que exista na Igreja, graças à liberdade de expressão e de pensamento, uma troca legítima de opiniões (…)”. Desde que salvaguardadas as “verdades da fé” que “pertencem à própria essência da Igreja”, “este diálogo livre (…) não prejudica a unidade, a solidariedade entre os fiéis; pelo contrário, favorece a concórdia e o encontro das diversas correntes de pensamento, através do confronto de pa- receres dentro da opinião pública” (n. 117).

Dir-se-ia que esta preocupação tão cara ao pós-concílio vê-se pouco na agenda de preocupações da vida da Igreja de hoje, se é que existe. Quer do lado de quem tem as maiores responsabilidades pastorais quer na base, parece vingar, nos tempos que correm, sobretudo o desejo do unanimismo e o medo de assumir a diferença de opiniões, comprometendo o amadurecimento de uma fé adulta e a credibilidade da comunicação.

Também aqui parece residir uma notória atualidade da “Communio et Progressio” e um desafio para as celebrações dos 50 anos do Concílio, que em breve ocorrerão.

Manuel Pinto
Professor de Jornalismo e de Educação para os Media na Universidade do Minho

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