Como andam os nossos olhares?

O Evangelho deste trigésimo primeiro domingo do tempo comum apresenta-nos o encontro de Jesus com Zaqueu. A história de Zaqueu é uma história de olhares… Há o olhar de Zaqueu, que procurava ver quem era Jesus; correu e subiu a um sicómoro para ver Jesus que devia passar por aí. Há o olhar de Jesus que, ao chegar a esse lugar, ergueu os olhos… Há, enfim, o olhar da multidão, que, ao ver tudo isso, recrimina Jesus por ir a casa de um pecador.

Três olhares, tão diferentes uns dos outros! Todos sabemos muito bem que o olhar é uma linguagem que está para além das palavras. Os nossos olhares falam muito mais do que muitos discursos. As palavras podem mentir, os olhares não.

Em primeiro lugar, reparemos no olhar da multidão. Jesus tinha curado um mendigo cego; ao ver isso, a multidão celebrou os louvores de Deus. Ao ver essa maravilha, a multidão maravilhou-se. Mas após a atitude de Jesus para com Zaqueu, a multidão muda de repente e olha Jesus com hostilidade. Inconstância das multidões, sem dúvida. Mas também dos nossos próprios olhares, tantas vezes inconstantes. Basta uma coisita de nada para que mude o meu olhar sobre determinada pessoa que estimava, quando percebo que ela não era «bem aquilo que eu pensava»!

Em segundo lugar, reparemos no olhar de Zaqueu. Mais do que um olhar de simples curiosidade, é um olhar de desejo. Ele tinha ouvido dizer que este Jesus não falava como os escribas e os fariseus. Além disso, Ele até fazia milagres. Não viria Ele da parte de Deus? Zaqueu quer ver este rabino que não é como os outros. Mas a sua procura continua tímida. Não ousa avançar demasiado. E eu? Qual é o meu desejo de ver Jesus, de O conhecer? Não sou demasiado tímido quando se trata da minha ligação com Jesus e da minha fé?

Finalmente, há o olhar de Jesus, que ergueu os olhos para Zaqueu. Que viu Jesus? Um pecador à margem da Lei, banido por todos? Não, Jesus viu um homem rejeitado por todos, um homem habitado por um desejo, talvez não muito explícito, de ser acolhido pelo próprio Jesus. Viu um homem que não tinha ainda compreendido que Deus o amava, apesar dos seus pecados, que Deus o olhava unicamente à luz do seu amor primeiro e gratuito. Ao olhar Zaqueu, Jesus pôs todo este amor que transformou o publicano e o salvou.

Que o exemplo de Zaqueu contribua para a nossa conversão. Que os nossos olhares, às vezes tão díspares e desfocados, sejam focados no mesmo olhar de Jesus, um olhar de amor e ternura, de perdão e compaixão, de bondade e misericórdia, um olhar que atinge o nosso coração.

 

Manuel Barbosa, scj

www.dehonianos.org

 

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