E D. Armando Esteves Domingues destacou que «o serviço aos pobres é o maior desafio colocado aos discípulos»

Angra do Heroísmo, Açores, 23 mar 2026 (Ecclesia) – O vigário episcopal para o Clero da Diocese de Angra afirmou que “a Igreja é toda pastoral social” e deve “debruçar-se sobre os pobres”, num encontro do Serviço Diocesano da Pastoral Social sobre a ‘Dilexi te’, em Ponta Delgada.
“Estaremos disponíveis para acolher o pobre que está no campo de São Francisco, que rouba para se drogar, e encontrar nele o altar sagrado? Não estamos”, disse o padre José Júlio Rocha, no Centro Pastoral Pio XII, citado pelo portal online ‘Igreja Açores’.
Segundo o vigário episcopal para o Clero da Diocese de Angra “a Igreja é toda pastoral social”, e a mudança passa por recentrar prioridades, deve “debruçar-se sobre os pobres em vez de dar prioridade a outras pastorais, detidas em ritos”.
“Quando o pobre for o altar da Igreja e não o barroco, ou o incenso, então estaremos no caminho”, acrescentou o sacerdote, que alertou para o perigo de um “cristianismo aburguesado” e, “por vezes, muito afastado das realidades mais duras e periféricas” da sociedade.
O Serviço Diocesano da Pastoral Social de Angra realizou a conferência ‘Dilexi te – O amor para com os pobres’, este sábado, dia 21 de março, em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel.
O padre José Júlio Rocha aprofundou o significado da pobreza no cristianismo, distinguindo “a pobreza como escolha e modelo de vida”, da “pobreza imposta”, e observou que “Jesus foi as duas coisas”, nasceu “numa manjedoura porque não havia lugar para ele”, foi migrante e refugiado, e viveu sem “onde reclinar a cabeça”.
A presidente do Conselho Económico e Social dos Açores alertou que têm “mais de 11 mil trabalhadores cujos salários não suportam as dificuldades do dia-a-dia” no arquipélago, que a taxa de risco de pobreza se situa nos 17,3%, mas “se não existissem apoios sociais, seria de 40%”.
Piedade Lalanda referiu-se também aos problemas de habitação, como a sobrelotação, que “pode ser um subproduto do turismo”, e desigualdades de género, com “as mulheres, sobretudo em idades mais avançadas, mais atingidas pela pobreza”.
“Não se pode pedir a pessoas com instabilidade laboral que tenham filhos”, afirmou a socióloga, que já foi responsável do Serviço da Pastoral Social da Diocese de Angra, e rejeitou uma leitura fatalista da pobreza, indicando que “se trata de um problema estrutural” que deve ser “atacado nas causas”.
A presidente do Conselho Económico e Social dos Açores explicou que a pobreza atinge de forma particularmente dura as famílias, “em 2024, incide sobretudo nas famílias monoparentais, com 87,3%”, e os Açores, uma região “católica”, tem “a taxa de divórcio mais alta do país”.

O bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, afirmou que “o serviço aos pobres é o maior desafio colocado aos discípulos”, na abertura do encontro ‘Dilexi te – O amor para com os pobres’.
“Saibamos estender a mão e abrir o coração… o mundo está a precisar de afeto, e ele não deve impedir-nos de intervir”, pediu a diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social de Angra, Aldina Gamboa, no final da sessão, onde desejou que “deste encontro brote uma vida nova para a pastoral social”.
A conferência contou também com a intervenção da vice-presidente do Instituto de Segurança Social dos Açores, Tânia Fonseca, informa o sítio online ‘Igreja Açores’.
O Papa Leão XIV publicou a primeira exortação apostólica do pontificado, ‘Dilexi Te’ (Eu amei-te, em português), na qual assume o legado pastoral e social de Francisco, numa reflexão sobre a relação da Igreja com os pobres, no dia 9 de outubro de 2025.
CB/OC
