Angola: Presidente da Conferência Episcopal fala em país «excessivamente partidarizado» e espera que vista do Papa desperte consciências

D. José Manuel Imbamba projeta passagem de Leão XIV por Luanda, Muxima e Saurimo

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Saurimo, Angola, 12 abr 2026 (Ecclesia) – O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), espera que a visita de Leão XIV ao território angolano, de 18 a 21 de abril, desperte “consciências” e ajude a superar tensões do passado.

“O país está excessivamente partidarizado, o país está empobrecido, o país está com assimetrias muito acentuadas e tudo isto fere a paz, fere a reconciliação”, diz D. José Manuel Imbamba, em entrevista à Renascença e à Agência ECCLESIA.

A poucos dias de receber o Papa, o responsável católico destaca que, apesar dos 24 anos de paz efetiva, Angola lida com divisões profundas na consciência coletiva.

“Ainda há fissuras na nossa consciência, há fissuras no modo como nós narramos a nossa história, há fissuras nas próprias memórias históricas. E fissuras essas que não ajudam a criar aquela cidadania que todos nós pretendemos”, precisa.

D. José Manuel Imbamba alertou para os “assombramentos do passado” que impedem a reconciliação e o reconhecimento do outro, independentemente de filiações partidárias.

Queremos verdadeiramente sentir esta renovação, esta interpelação, esta capacidade de ir ao encontro do irmão e abraçá-lo, esta capacidade de nos aceitarmos apesar das nossas diferenças, essa capacidade de fazermos, digamos assim, um exorcismo à nossa própria maneira de viver a nossa história e tudo aquilo que aconteceu.”

O bispo de Saurimo destaca a importância de o Papa visitar, pela primeira vez, o leste de Angola, uma região marcada pela exploração diamantífera e por fortes fluxos migratórios.

“A mensagem será no sentido de despertar um pouco as consciências, quer dos nossos governantes, como as de todos aqueles que exploram minério nesta região, para que valorizem mais a riqueza humana, para que valorizem mais as pessoas, as comunidades humanas, que não olhem só pela matéria-prima enquanto tal”, assinala.

Questionado sobre a atual situação social, o presidente da CEAST reconhece a existência de tensões vivas provocadas pelo desemprego e pelo elevado custo de vida, fatores que impulsionam a fuga dos jovens para o estrangeiro.

“O calor social continua alto, porquanto os problemas ainda continuam sendo adiados. Há muito desemprego, muita insatisfação, as políticas públicas ainda não conseguem dar as respostas esperadas”, aponta.

O roteiro da visita papal inclui uma passagem pelo Santuário da Muxima, elevado recentemente a santuário nacional, local que D. José Imbamba descreve como o centro da espiritualidade do país.

“Muxima hoje representa o coração espiritual do nosso país. Todos ocorremos lá para pedir bênçãos, graças e tudo aquilo que faz bem a cada fiel e à nação, no seu todo”, explica.

Relativamente às relações com o Estado, o bispo classifica o momento atual como positivo, sustentado pelo Acordo-Quadro assinado em 2019, sem que isso signifique o silêncio da Igreja perante as injustiças.

“A Igreja continuará a desempenhar este seu papel. É uma força viva, é uma mãe que acolhe todos e esta voz crítica e profética que ainda ecoa por este nosso país para ajudar a que os valores divinos e os valores humanos não sejam descurados”, assume.

A visita do Papa Leão XIV a África, que abrange também a Argélia, Camarões e Guiné Equatorial, é vista pelo líder da CEAST como um sinal de valorização do continente, muitas vezes “tido só como um espaço, como um lugar para se extrair riqueza e matéria-prima”.

“Creio que é nesta senda que nós devemos viver e interpretar a vinda do Santo Padre: que a África seja, de facto, um continente de pessoas e não um continente de coisas”, concluiu.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Angola: Leão XIV vai passar por Luanda, Muxima e Saurimo

 

 

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