«São milhares aqueles que já faleceram à procura de uma vida melhor» – D. Manuel Quintas

Faro, 20 jan 2020 (Ecclesia) – O bispo do Algarve alertou para os “milhares” de pessoas que “já faleceram à procura de uma vida melhor” na Europa e não encontraram acolhimento, no encontro de oração que reuniu as Igrejas Cristãs na diocese, em Faro.

“São milhares aqueles que já faleceram à procura de uma vida melhor, com maior dignidade para si e para as suas famílias. E também nos sentimos consternados ao verificar que não há esta amabilidade em todos os países. Antes pelo contrário, há rejeição, há indiferença”, disse D. Manuel Quintas, na igreja de São Francisco.

No encontro que marcou o início da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos na Diocese do Algarve, o bispo católico contextualizou que existe “indiferença naqueles que exploram” os migrantes e refugiados e “vendem mais bilhetes que aqueles que os barcos podem levar”, “naqueles que os acolhem que não deixam que possam atracar nos seus portos” e “naqueles que os escorraçam”, deixando-os “confinados a campos de acolhimento”.

Anualmente, o Oitavário de Oração une milhões de pessoas de várias Igrejas, entre 18 e 25 de janeiro no hemisfério norte, e este ano recorda os migrantes e refugiados que são vítimas de naufrágios no Mediterrâneo.

A reflexão proposta para as igrejas cristãs de todo o mundo foi preparado pelas comunidades do arquipélago maltês, a partir do relato bíblico do naufrágio de São Paulo II (século I), que o levou até à ilha de Malta, onde, segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, foi tratado com “invulgar humanidade”.

“Ao pensar neste naufrágio no Mar Mediterrâneo penso que nenhum de nós deixa de pensar em tantos naufrágios dos nossos dias”, desenvolveu D. Manuel Quintas, explicando que o texto bíblico convida “também a ver, do ponto de vista humano”, como é que hoje se vive esta “hospitalidade, amabilidade, com todos aqueles que são frágeis na sua vida”.

Para o bispo do Algarve, para além da amabilidade, são necessários outros valores como “a hospitalidade, a reconciliação, a iluminação, a confiança, a fortaleza e a benevolência”, que foram apresentados em remos como símbolo dos migrantes naufragados, e são também o “primeiro passo” para que a oração pela unidade seja “eficaz”.

“São valores fundamentais e essenciais para que nos sintamos todos, não apenas reunidos, mas unidos na oração pela nossa unidade”, assinalou.

A celebração ecuménica pela unidade dos cristãos, na igreja de São Francisco de Assis, congregou para além da Igreja Católica representantes da Igreja Luterana alemã, da Igreja Anglicana, da Igreja Ortodoxa ligada ao Patriarcado de Bucareste, e da Igreja Evangélica, e foi organizada pelo Secretariado Diocesano para o Diálogo Ecuménico e Inter-religioso do Algarve com o Movimento dos Focolares.

“As divisões entre nós existem desde há muitos séculos, o que causa muita dor e é contrário à vontade de Deus. Acreditamos no poder da oração e, juntamente com os cristãos do mundo inteiro, apresentamos em comum as nossas preces enquanto procuramos superar a separação”, referiu D. Manuel Quintas, divulga o jornal diocesano ‘Folha do Domingo’.

O ‘oitavário pela unidade da Igreja’, hoje com outra denominação, começou a ser celebrado em 1908, por iniciativa do norte-americano Paul Wattson, presbítero anglicano que mais tarde se converteu ao catolicismo.

As principais divisões entre as Igrejas cristãs ocorreram no século V, depois dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia (Igreja copta, do Egito, entre outras); no século XI com a cisão entre o Ocidente e o Oriente (Igrejas Ortodoxas); no século XVI, com a Reforma Protestante e, posteriormente, a separação da Igreja de Inglaterra (Anglicana).

CB

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