Exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes é uma homenagem ao artista plástico moçambicano que elege para a sua pintura e escultura a dignificação da mulher, da criança, da família e da natureza

Lisboa, 10 set 2026 (Ecclesia) – O artista plástico Lívio de Morais disse em declarações à Agência Ecclesia que a sua pintura e escultura é uma “luta pela dignificação da mulher, da criança, da família” e defende que a arte é promotora da paz.
“Uma vez até eu cheguei a dizer: se fizermos uma exposição em Cabo Delgado, sem dúvida que a guerra para. Porque onde há arte não há violência, onde há violência não é possível fazer arte”, afirmou o artista plástico moçambicano.
Na inauguração da exposição que evoca o seu percurso na pintura, na escultura e na investigação sobre a cultura e a História de África, Lívio de Morais valorizou o contributo da arte para a paz e para que se “defenda a natureza” e disse que o pensamento dos artistas é de “de insatisfação”, encontrando formas de “materializar a revolta”.

A Sociedade Nacional de Belas Artes tem patente ao público a exposição “Homenagem a Lívio de Morais”, que mostra pinturas e esculturas do artista moçambicano, assim como a investigação sobre o continente africano, que se prepara para publicar, divulgando a História de cada país, assim como o que o distingue, cultural e geograficamente.
O artista plástico moçambicano, que está em Portugal desde 1971, afirma que a exposição “não é um reconhecimento” pessoal, mas assinala “várias coisas importantes que aconteceram”, nomeadamente os 50 anos das independências dos países de língua portuguesa, os 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), referindo também o valor da democracia e da comunicação, nomeadamente a RTP África, que considera “muito importante”.
Sobre as temáticas que coloca nas telas ou nas esculturas que cria, Lívio de Morais aponta “uma espécie de luta pela dignificação da mulher, da criança, da família”, contrariando o que acontece na Europa, que é “destruir e matar”, e também em países africanos, nomeadamente pelo aumento do terrorismo.
“As minhas obras mostram o papel fundamental da mulher, a importância da família e pensar na natureza: o caju, as crianças, a vida bucólica, a dança, a música”, refere.
Lívio de Morais esteve na Congregação dos Irmãos Maristas durante 11 anos, na capital moçambicana, e valoriza as suas convicções crentes no processo de criação artística, assim como o facto da exposição ter sido inaugurada no dia em que se assinala a Natividade de Nossa Senhora e após ter celebrado, no último domingo, as Bodas de Ouro matrimoniais.

O artista plástico considera-se um “produtor de Cristos”, na pintura e na escultura, assumindo que o “mais difícil de compreender” é a crucificação de Jesus, referindo que “é das coisas mais cruéis que foi possível acontecer”.
Entre as produções artísticas expostas na Sociedade Nacional de Belas Artes estão máscaras africanas, arte que recheia os museus na Europa e na América e que “foi espoliada no tempo colonial”, mas que são “são objetos de culto”, seja aos antepassados, como para “para pedir a produção agrícola, a fecundidade materna” ou referentes a ritos desde o nascimento até a morte.
Lívio de Morais alerta para o facto do continente africano continuar a ser um “continente esquecido” e lembra que África “não é igual” ao tempo colonial.
“Ensinaram, no tempo colonial, a África como se fosse de animais, só. Claro: tem animais preservados em parques naturais. Mas a África é rica e acho que devia haver debate, demonstração”, sublinha.
Para dar a conhecer cada país de África, Lívio de Morais investigou sobre cada região, a sua história e a sua cultura, e prepara-se para editar um livro com a identidade de cada nação do continente africano, revertendo a venta das pinturas e das esculturas para este projeto editorial.
A exposição “Homenagem a Lívio de Morais” está patente ao público na Sociedade Nacional de Belas Artes até ao dia 10 de outubro.
![]() Lívio de Morais nasceu na Zambézia, em Moçambique, em 1945, quando se viviam o tempo colonial, que determinou a instrução escolar que recebeu, que “valorizavam a presença civilizadora de Portugal” e “silenciavam a milenar história africana, desvalorizando a riqueza cultural e civilizacional dos povos de África”. “A vivência em espaço colonial, o contacto com as realidades moçambicanas, o gosto pelas produções artísticas do seu país marcara a formação do jovem Lívio, que aos 20 anos se inicia em Artes Plásticas no Núcleo de Arte em Maputo, então Lourenço Marques, a capital da colónia. Começa assim uma longa vida ligada às artes plásticas, consciente da dura luta pela liberdade do país”, afirma Isabel Castro Henriques no texto de apresentação da exposição. Em 1971, Lívio de Morais vem para Portugal e licencia-se em escultura em 1978, na enão Escola Superior de Belas-Artes, desenvolvendo a sua “arte escultórica e pictórica ao mesmo tempo que ensina História de Arte e Geometria Descritiva”, investigando sobre as artes africanas, assim como antropologia e sociologia. A partir dos anos 90 fazem emergir um “artista-conferencista” que expõe e comunica em Portugal e na Europa o valor de África, que procurou entender melhor frequentando, no início do século XXI, o mestrado em História de África da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que concluiu com o trabalho intitulado “A representação da morte na arte moçambicana. Das formas Makonde à produção plástica atual”. Isabel Castro Henriques sublinha o “trabalho criativo” de Lívio de Morais, a participação em diferentes instituições culturais, educativas e de solidariedade social, nomeadamente a Casa de Cultura Lívio de Morais, em Sintra, que dirige. |
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