«Vivemos hoje um tempo histórico dramático para as migrações e concretamente para os refugiados» – André Costa Jorge

Foto PAR

Lisboa, 10 set 2021 (Ecclesia) – O coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados – PAR destacou o interesse de cidadãos e instituições no acolhimento de pessoas do Afeganistão, considera que o governo talibã “não irá garantir os direitos fundamentais” e querem proteger quem está em perigo.

“Na nossa opinião, o governo talibã não irá garantir de forma alguma os direitos fundamentais e irá impor um tipo de regime opressor e injusto. O que queremos é que estas pessoas que estão em risco de vida possam ter a proteção e a dignidade que merecem e necessitam”, disse André Costa Jorge em declarações à Agência ECCLESIA.

O coordenador da PAR adianta que têm recebido “pedidos de socorro” e estão em articulação com as autoridades portuguesas, nomeadamente o Ministério dos Negócios Estrangeiros, para que se faça “o possível para retirar as pessoas que estão em perigo de vida” do Afeganistão, “sobretudo mulheres e ativistas políticos”.

“Do lado da sociedade civil, das organizações da Igreja Católica em Portugal, tudo faremos para que as pessoas encontrem a normalidade o mais rápido possível e aqui, enquanto viverem connosco, sejam o mais feliz possível”, afirmou.

André Costa Jorge destaca que a Plataforma de Apoio aos Refugiados dinamizou uma reunião, esta quarta-feira, que congregou “mais de 100 pessoas interessadas em participar no acolhimento de refugiados do Afeganistão”, um trabalho que estão a realizar em articulação com as autoridades portuguesas, nomeadamente o Alto Comissariado para as Migrações.

Neste contexto, o coordenador da PAR apela a “todas as pessoas interessadas” – cidadãos, instituições, IPSS, muitas da Igreja, congregações, organizações religiosas e outras -, que sintam o “apelo de materializar o acolhimento dos refugiados”, que é também um apelo do Papa Francisco, para juntarem-se à organização e inscreverem-se no seu sítio online.

Foto: EPA/HEDAYATULLAH AMID

Após a chegada do regime talibã ao poder no Afeganistão, tomaram a capital Cabul no dia 15 de agosto, Portugal começou a receber e a acolher refugiados afegãos e André Costa Jorge já teve oportunidade de conversar com “algumas famílias”.

Segundo este responsável, em primeiro manifestam uma “enorme gratidão por aquilo que Portugal fez”, concretamente os militares que os ajudaram a sair do país, e, por outro lado, têm uma “grande preocupação” em relação aos seus familiares que ainda estão no país asiático.

“A rede familiar no Afeganistão é a base das comunidades, as famílias são alargadas, as pessoas vivem comunitariamente e com base nas redes familiares. A família nuclear conseguir salvar-se não é o alívio absoluto e as pessoas estão felizes por estarem a salvo mas estão muito preocupadas com todos os outros parentes e familiares que não têm hipótese, pelo menos imediata, de sair”, desenvolveu.

O coordenador da PAR destaca ainda uma terceira dimensão, nomeadamente o futuro destas pessoas em Portugal e adianta que têm estado em conversações com os responsáveis portugueses para que “se defina um quadro de apoio imediato, qual é o enquadramento com que estas pessoas estão, e haja um plano que permita que estabilizem”.

Neste sentido, as crianças “integrem rapidamente a escola”, com apoio específico, e os adultos possam viver “numa habitação autónoma e preparar o futuro em termos laborais”.

Os refugiados afegãos expressaram ainda vontade de “viver em proximidade”, neste momento “o único património que têm é a sua língua”, porque perderam tudo, e André Costa Jorge considera que seria importante “algum conforto de proximidade”.

A PAR foi uma das organizações que esta quinta-feira participou numa reunião do Fórum das Organizações Católicas para a Imigração e Asilo (FORCIM) com o diretor-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM), o português António Vitorino, na Conferência Episcopal Portuguesa, em Lisboa.

“Vivemos hoje um tempo histórico dramático para as migrações e concretamente para os refugiados”, afirma André Costa Jorge.

Neste contexto, destaca que na reunião também falaram sobre a região de Cabo de Delgado, no norte de Moçambique, os “quase 1 milhão de deslocados e de todo o sofrimento que o povo está a passar”, e a campanha solidária da PAR ‘packs anti-experiência’.

HM/CB

 

A PAR recentemente confirmou o acolhimento de 12 famílias, cerca 50 pessoas, e tem “capacidade imediata” para “acolher mais cinco a seis famílias, entre 25 a 30 pessoas”. 

O Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS-Portugal) foi “convocado de urgência” pela Câmara Municipal de Lisboa para apoiar a chegada de cidadãos afegãos a Portugal, que está a realizar em dois espaços – o Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados (CATR), e um novo centro adaptado, numa instituição em Lisboa.

Desde a madrugada do último sábado, chegaram de emergência a estes dois espaços 88 pessoas: 19 pessoas no CATR, 10 são crianças, e 69 pessoas na outra instituição, 36 crianças, “algumas de tenra idade”.

O JRS-Portugal tem também em desenvolvimento um projeto em Vendas Novas, para a reconstrução de um antigo colégio Salesiano com capacidade de acolhimento de “20 famílias em simultâneo, ou seja, cerca de 100 pessoas”. 

 

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