Padre António Henrique, Diocese de Viseu

A história de uma vida é, afinal e no final, a vida de cada pessoa, cheia de acontecimentos, momentos e histórias em que, saindo de si, o Homem se aventura nos labirintos da vi(d)a.

Para escrever essa história é importante acolher e responder ao chamamento que nos é feito, da parte de Deus, à felicidade, discernir o(s) caminho(s) a seguir e saber onde colocar os pés; porém, é necessário dar lugar a uma etapa prévia: a escuta humilde, corajosa e disponível da Palavra de Deus, que inquieta, interroga e desafia! A Bíblia é essa “terra firme”, portátil, onde podemos assentar os pés; é essa bussola pela qual podemos orientar os nossos passos.

A história da vida de uma pessoa começa a ser sonhada no coração de Deus e a ser escrita, como fruto, pelo amor daqueles que se tornam pais! As primeiras páginas dessa história acolhem e gravam o maravilhoso e misterioso mundo do ventre materno (cf. Jer 1,5) e continua a escrever-se à medida que a vida se vai enchendo das (pequenas) histórias acontecidas no suceder-se das horas e dos dias, quais páginas em branco que o Deus da eternidade, irrompendo o tempo e a história, nos concede de graça.

A tinta são as atitudes, os atos, os gestos, os pensamentos e as palavras, etc… que vão sendo (des)encadeados a cada passo no caminho da vida. E a história de cada dia será tão mais especial e bela quanto mais for capaz de deixar nos olhos de quem lê, vê (também com o coração) e sente no ar o rasto de perfume que encanta e atrai as pessoas e as realidades à volta: o testemunho do Evangelho.

Umas vezes somos nós a impor o ritmo e a cadência dessa(s) história(s), outras vezes esses são-nos impostos, vindos de fora, e nos quais somos chamados a entrar, a tomar parte! Nesta história, que é a vida de cada pessoa, não há pausas, esta é um contínuo que se renova e enriquece a cada dia onde as vidas são histórias que se entrecruzam e tocam, com as luzes e as sombras próprias de cada tempo.

Há pessoas que entram e saem, não sem deixarem um pouco de si e não sem levarem um pouco de nós, mas há Alguém que deve permanecer sempre e a Quem se deve dar a primazia e a condução dos eventos: Deus, que se revela na Sua Palavra e se manifesta nas coisas simples de cada dia, tornando-as extraordinárias: a flor que desabrocha, o raio de sol que aparece por entre as nuvens, a pessoa que sorri e agradece, o perdão que se acolhe e oferece!

Importa, por isso, por um lado que nos abandonemos confiadamente à Sua vontade e por outro que nos disponhamos a viver segundo a Sua Palavra. Se a pessoa “se fia na Virgem e não corre” vai apenas escrever uns rabiscos intermitentes, soltos ao sabor do vento, exigidos pelas circunstâncias e não uma história com sentido, capaz de inspirar a vida de outras pessoas.

Neste contexto, Maria apresenta-se como Modelo de obediência e proatividade na fé; como alguém que nos ensina a conjugar a gramática da escuta e do serviço; como aquela que sabe passar da escuta da Palavra à proati[vida]de segu(i)ndo a Palavra. É assim que, com Maria (cf. Lc 1,26-56) e com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24), num caminho que se apresenta sempre cheio de novidade, mas, ao mesmo tempo, cheio da -presença de Deus, importa aprender a docilidade do coração.

Mais do que ficar numa defensiva para verificar se tudo seria como o anunciado, a atitude, de confiança e abandono à vontade de Deus que Maria assume, revela o dinamismo pascal que se viria a realizar na vida do seu Filho e nosso Salvador: (levantar-se e pôr-se a caminho). Este movimento de verticalidade, saindo da terra, desencadeado pela força da Palavra, vence a tentação da inércia e do imobilismo.

Da posição de “aprendiz” (sentada a escutar a voz do Anjo!?), Maria assume uma nova postura de discípula (levanta-se para partir), reunindo em si estas duas realidades fundamentais que devem sempre inspirar a vida de cada crente e, por isso, da própria Igreja em caminho (discípula, porque aprendiz e missionária, porque evangelizadora).

Com Maria e com os discípulos de Emaús aprendemos que a escuta da Palavra, não só educa o coração, (lugar onde se guardam as histórias de cada dia e se aprende a ler a vida sob a perspetiva de Deus, à luz da Palavra), mas capacita-o para a missão, como afirmava o Papa Bento XVI: passar do que é justiça, dando a cada pessoa o que é dela, ao amor, dando ao outro o que é meu, porque o amor supera a justiça.

Em cada dia que amanhece, esta deve ser a atitude do cristão: abrir-se à Palavra, que é o próprio Cristo (cf. Jo 1,14) e levantar-se para (re)partir. Em cada amanhecer há o (re)nascer e o (res)surgir de uma nova oportunidade de amar, perdoar, caminhar, crescer, fazer feliz o outro e com o outro ser feliz, por Cristo, com Cristo, em Cristo; mesmo no meio da adversidade. É esta Palavra motriz que capacita os discípulos para missão, a fazer o caminho ao encontro do outro…porque (des)conhecer a Palavra de Deus é (des)conhcer Cristo, como nos dizia São Jerónimo.

Em cada dia, o mistério da página ainda por escrever desafia-nos a ler os sinais, os tempos e os momentos, a não ter medo de arriscar, de sair de nós próprios, a levantarmo-nos como Maria e sair apressadamente, para escrever mais uma página que seja inspirada pelo perfume do Evangelho que (pre)enche a casa e a vida (cf. Jo 12,1-11), deixando por todo o lado o aroma que ainda hoje inebria aqueles que, como a Mãe, se abandonam Àquela Palavra!

Aprendamos com Maria e os discípulos de Emaús a abrir os ouvidos e os olhos à Palavra de Deus que ilumina e aquece o coração e a mente – a vida – pois a presença e a ação amorosa de Deus, através da Sua Palavra, é força que nos faz levantar cada manhã, é lâmpada que dissipa as trevas do medo e luz que ilumina o caminho da história que em cada dia se vai escrevendo com a vida. Rezemos com o salmista: “Senhor dá-me a vida segundo a tua Palavra” (Sl 119,107)

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