O novo Embaixador da República Portuguesa junto da Santa Sé, João Alberto Bacelar da Rocha Páris, fala à Agência ECCLESIA das suas novas funções e dos desafios de futuro para as relações diplomáticas entre as duas partes Agência ECCLESIA – Como reagiu à oportunidade de trabalhar diplomaticamente com a Santa Sé? Embaixador Rocha Páris – Este é, evidentemente, um desafio novo. Nas minhas funções de embaixador já tinha passado por Angola, a Bélgica, os EUA e o Japão; agora, a experiência é totalmente diferente e eu acho que é um privilégio poder ter chegado a este ponto da carreira e, na realidade, ir trabalhar com uma diplomacia que é uma das mais experientes do mundo e que é uma das de maior qualidade do mundo, na medida em que, de facto, na Secretaria de Estado do Vaticano há pessoas extraordinariamente bem preparadas e competentes. Por consequência, é um privilégio, antes de mais nada, para um diplomata católico, como eu sou, e para um diplomata profissional, como também sou, ter chegado a este ponto. AE – Estando em funções desde o passado mês de Setembro, já conseguiu notar um carinho especial quando se fala no nome de Portugal? RP – Já, isso é bem visível tanto por parte do Santo Padre como na Secretaria de Estado, nas conversas que tive ao mais alto nível desde que lá cheguei, com o Cardeal Sodano e com outros altos dignatários da diplomacia vaticana. Gostaria de, a este respeito, lembrar um episódio que considero um gesto desse carinho especial, não como vaidade pessoal: o Santo Padre decidiu receber a carta credencial, que me acredita como embaixador no Vaticano, seis dias depois de eu chegar a Roma e em Castel Gandolfo onde ele ainda estava de férias. Eu e a minha mulher chegámos a Roma no dia 15 de Setembro, ao fim da tarde, e no dia 21, pelas 11 horas da manhã, Sua Santidade recebeu-me. Isto em termos de diplomacia não é normal, o mais vulgar é esperar-se um período longo para apresentarmos as credenciais que é o que sucede, aliás, no nosso país. Também não é de todo comum um Chefe de Estado estar de férias e aceitar receber as credenciais de um novo embaixador durante as suas férias. Portanto, o gesto de Sua Santidade que a mim me marcou profundamente, é daqueles gestos de que nós não vamos esquecer mais. AE – Encontra alguma justificação para esse facto? RP – Acho que, em tempos mais recentes, a maneira como foi negociada, assinada e agora já ratificada a Concordata contribuiu para esse apreço que a diplomacia vaticana tem por nós. Dou outro exemplo: há dias falei com o reitor de uma igreja em Roma que me disse uma coisa que ficou também gravada: disse que a Companhia de Jesus tem uma dívida inesquecível para com Portugal. Eu lembrei-me imediatamente que os Jesuítas tinham sido expulsos de Portugal num dado momento da nossa história e fiquei sem perceber muito bem o que ele queria dizer, mas ele concretizou e disse que a Companhia de Jesus, aquando das nossas expedições das Descobertas, levava normalmente missionários jesuítas nas caravelas. Isso permitiu à Companhia de Jesus evangelizar uma substancial parte do mundo que então desconhecia completamente os Evangelhos e a doutrina católica. Esse papel histórico que Portugal desempenhou e o actual trabalho de estudo do Instituto de Santo António dos Portugueses, permitem que a nossa Igreja tenha prestígio em Roma e eu orgulho-me muito que assim seja. AE – Qual é o trabalho de um embaixador português junto da Santa Sé agora que há uma nova Concordata assinada? RP – Permito-me responder com uma curiosidade: na residência da nossa embaixada, no Vaticano, existe o chamado catálogo dos enviados de Portugal junto da Santa Sé, desde que a Santa Sé reconheceu a existência de Portugal como país independente. Cabe-me o número de ordem 182. Naturalmente, há que não esquecer que a Santa Sé tem um papel de observador na ONU, e toma posições activas em todos os problemas do mundo, desde – recordo – os problemas que havia em Angola até à Guerra do Iraque ou a reforma das Nações Unidas. Para além do mais, a Santa Sé sabe da existência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e não ignora que a língua portuguesa é falada por quase 200 milhões de pessoas. Por consequência temos muito para fazer em Roma, temos o Instituto de Santo António dos Portugueses, temos mil e um outros aspectos que têm a ver, agora, com a aplicação da Concordata. Depois, não nos esqueçamos que há causas de Beatificação pendentes, junto da Congregação para as Causas dos Santos. Vou procurar conseguir que durante a minha missão com o trabalho da Embaixada, se continue a manter esse sentimento em relação ao nosso país e à nossa Igreja, num relacionamento sempre tão profundo e cordial. AE – A negociação em torno da nova Concordata ajudou a consolidar esse bom relacionamento? RP – A Concordata foi o resultado de um diálogo muito intenso, muito cuidadoso, muito profissional, mas também muito correcto e cordial entre a Santa Sé e o Estado português. Hoje em dia existe do lado de ambas as partes a noção muito clara que esta Concordata é a primeira que actualiza um texto que era antigo e não estava adaptado às características da vida actual. Na minha opinião, a Concordata foi negociada com elevado sentido de responsabilidade por ambas as partes e eu creio que o texto satisfaz as preocupações de ambos os lados. Como tal, certamente é um texto que vai ter uma longa vida pela frente. A nova Concordata se calhar vai servir como ponto de referência, como modelo de inspiração para outras Concordatas que outros países possam vir a negociar com a Santa Sé e a nós orgulhar-nos-á termos sido os primeiros.

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