No Dia Mundial das Missões, Ecclesia e Renascença conversam com o provincial português dos Espiritanos a partir da Tanzânia, onde decorre o Capítulo Geral da Congregação. O diálogo inter-religioso e a justiça e paz são áreas prioritárias, conta o religioso, que fala ainda da sua vocação missionária e do impacto da pandemia

Foto: Espiritanos

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

Termina este domingo o Capítulo Geral dos Missionários do Espírito Santo, onde foi eleito o novo Superior a nível mundial – que é pela primeira vez um africano -, mas foi igualmente eleito um português para o “governo” mundial da Congregação: o padre Tony Neves é um dos novos Assistentes Gerais. É uma escolha importante, também do ponto de vista de Portugal?

É importante sobretudo do ponto de vista da Congregação. Normalmente o método de eleição é um método que garante a representatividade das várias sensibilidades, a nível cultural e linguístico, de distribuição pelo mundo e de tipo de missão, essa escolha tem a ver com isso mesmo.

 

O novo Superior Geral é o padre Alain Mayama, de 50 anos, natural do Congo Brazzaville. Qual é a importância de pela primeira vez ser um religioso africano a liderar a Congregação a nível mundial?

Se calhar tem uma importância mais simbólica do que outra coisa. A nossa Congregação foi fundada para a primeira evangelização, para os mais pobres, e tem uma longa tradição de presença em África. Um dos nossos fundadores tinha uma especial predileção por África, isso fez com que muitos dos países africanos que hoje têm igrejas pujantes, desenvolvidas, tenham sido evangelizadas sobretudo por espiritanos, ou com uma presença muito forte dos espiritanos. Um dos frutos dessa realidade é que hoje a Congregação, na verdade, é maioritariamente africana. A eleição de um africano como Superior Geral é uma consequência natural dessa realidade. Hoje temos uma percentagem de africanos na Congregação que ultrapassa os 50%, portanto, essa é uma razão.

Por outro lado, o padre Alain é alguém que tem uma experiência larga em vários tipos de missão: trabalhou nos Estados Unidos, foi formado também na Nigéria, é congolês, teve uma longa experiência de presença em Roma e de trabalhos ao nível da liderança na Congregação em vários lugares, portanto, é alguém que conhece bastante bem a Congregação em diferentes registos culturais e linguísticos, e em diferentes realidades missionárias, e isso é uma grande mais-valia para alguém que assume a liderança suprema de uma Congregação como a nossa, que é uma Congregação missionária e internacional.

 

Este Capítulo Geral realiza-se de oito em oito anos. Nesta altura em que conversamos já há prioridades missionários definidas?

As prioridades missionárias, na verdade, são as de sempre, são a primeira evangelização, a justiça e paz, etc. Há uma ênfase especial dado ao diálogo inter-religioso, sobretudo num mundo como o nosso, contemporâneo, em que as questões religiosas, da paz e da justiça são tão candentes, parece absolutamente prioritário que a abertura a outras culturas e sensibilidade religiosas esteja no horizonte primeiro da ação missionária da Igreja. Portanto, o diálogo inter-religioso é uma das prioridades fundamentais.

Por outro lado, num mundo com cada vez mais assimetrias e realidades sociais e culturais, marcadas muitas vezes pela extrema pobreza, vamos dando conta de que os compromissos pela justiça e paz se tornam também absolutamente prioritários. Portanto, estas duas grandes áreas são áreas de prioridade, claramente, para a Congregação do Espírito Santo hoje.

 

A missão é associada ao primeiro anúncio da fé, mas a verdade é que quem está no terreno procura sempre alargar os campos da missão, sobretudo hoje. Falou das questões da justiça social, da paz, mas a Congregação também tem uma preocupação com a ecologia, um tema cada vez mais presente. A prioridade missionária é cada vez mais colocada como uma forma de acompanhar a vida concreta dos povos onde se encontram os missionários?

Sim. Diria que sempre foi, e as diferentes dimensões da missão – o primeiro anúncio, a própria dimensão litúrgica, a catequese, o acompanhamento das comunidades cristãs já estabelecidas, etc. – nunca se separou, e não se pode separar, desse compromisso com a humanidade enquanto tal.

A dimensão pelo cuidado da Casa Comum, em sintonia total com a ‘Laudato Si’ e o magistério do Papa Francisco, e as questões da justiça e paz, do diálogo inter-religioso, as questões sociais do desenvolvimento – outra grande dimensão da missão hoje -, tudo isso está entrelaçado, e na verdade nada disso faz sentido isoladamente. Quando nos preocupamos com a solicitude de Deus pela humanidade, estamos a preocupar-nos com todas as dimensões que fazem parte da vida da humanidade.

O anúncio do Evangelho, explicitamente, não pode nunca separar-se de todas as outras dimensões ao serviço da pessoa humana, toda, de uma maneira muito inclusiva, sob pena de se desvirtuar esse anúncio. Portanto, hoje a presença dos institutos missionários é, sobretudo, marcada por essa proximidade, por esse entrelaçar-se com as realidades do povo em que nos inserimos e que nos acolhe.

 

Há uma realidade que é transversal a todo o mundo, neste momento, que é realidade da pandemia. O Papa na sua mensagem para este Dia Mundial das Missões, que foi publicada neste momento crítico, apela a uma “missão de compaixão” e a “missionários de esperança” como resposta à crise provocada pela Covid-19. É um desafio que é preciso assumir ainda?

Claro que sim. Continuamos a perceber com muita clareza as consequências da pandemia e a expressão ainda presente dessa pandemia, e isso é muito evidente, não apenas na Europa, mas em todo mundo.

Aqui na Tanzânia, curiosamente, esperava uma preocupação maior com esse assunto, mas não é tão evidente como noutros lugares… No entanto, o problema existe igualmente, as consequências económicas e sociais continuam muito presentes, e continua a marcar muito a vida dos missionários e a vida da Igreja nas zonas ditas mais periféricas, mais pobres, ou onde os recursos materiais e humanos não são tão abundantes. Isso é efetivamente uma preocupação.

 

A pandemia também afetou muito a Congregação dos Espiritanos e as vossas missões, em termos de vítimas? Tiveram de redimensionar projetos?

Há dias tivemos um momento de oração no cemitério dos missionários em Bagamoyo, que é a primeira missão da África de Leste, e quisemos marcar esse momento recordando os muitos missionários que morreram jovens e que estão ali sepultados. Nessa celebração houve um momento de memória de todos os confrades espiritanos que morreram durante a pandemia. Eu confesso que sabia que tinha havido alguns países do mundo profundamente flagelados a este nível, mas fiquei impressionado pelo tempo que demorou a ler a longa lista de missionários que tinham morrido vítimas da pandemia na Europa, em países como a França e como a Irlanda – houve um período em que morriam vários por semana, foi uma coisa muito dolorosa -, mas um pouco por todo o mundo, em África também, e não apenas missionários, mas gente profundamente ligada à nossa Congregação.

Efetivamente, o impacto que a pandemia tem tido na nossa missão é enorme, desde logo por isso mesmo, porque há missionários que morreram ou ficaram gravemente doentes, mas também pelo impacto social e económico que as populações a quem servimos sofreram e continuam a sofrer, e isso evidentemente tem uma consequência de maior dificuldade na presença missionária junto dessas pessoas.

 

De que forma é que o impacto da pandemia também vai afetar os próximos tempos em Portugal?

No que se refere aos espiritanos tivemos, apesar de tudo, um impacto mínimo, graças a Deus não houve vítimas mortais nem situações particularmente difíceis. No entanto, ao nível da nossa missão, sim, fomo-nos dando conta de que franjas importantes das populações a quem mais diretamente servimos foram profundamente afetadas. Estou a pensar, por exemplo, nos imigrantes.

Temos uma instituição criada por nós, que é o CEPAC, Centro Padre Alves Correia, que serve pessoas em situação de imigração, particularmente aquelas que não estão ainda em situação de regularização documental, que são uma população extremamente fragilizada, porque muitos deles não têm emprego, não têm reconhecimento legal nem espaço de intervenção, muitos não conhecem sequer a língua. Se em toda a sociedade sentimos o impacto terrível que a pandemia criou, essas pessoas sim, estão mesmo na linha da frente das vítimas, não apenas da doença, diretamente, mas das consequências económicas, da situação de isolamento em que agora se encontram, etc. E o CEPAC tem tido, naturalmente, como outras instituições de caráter social, um desafio tremendo em atender todas estas pessoas: a ajuda alimentar multiplicou-se, a ajuda documental e o apoio psicológico, para muitas delas, tem aumentado, mas da nossa parte os recursos são mais ou menos os mesmos, até menores… Nesse sentido, esta pandemia tem tido um impacto importante em Portugal, sim, mesmo ao nível da missão espiritana.

 

O CEPAC funciona na zona da Estrela, em Lisboa. Pelo que nos conta, as necessidades e a procura de ajuda têm sido crescentes. Precisam de apoio para esta missão social?

Sim, com certeza. Dispomos de um quadro de colaboradores permanentes, temos um conjunto grande de voluntários e mais voluntários são bem-vindos. Debatemo-nos com dificuldades económicas, para o apoio a todas estas pessoas; damo-nos conta de que mais possibilidades houvesse, a nível de recursos humanos e financeiros, mais pessoas poderíamos atender. A impressão que temos é que o crescimento da resposta social a esta situações poderia ser quase infinita, se houvesse possibilidades infinitas. Sim, é um desafio lancinante e às vezes sentimo-nos bastante impotentes, para lhe fazer face.

 

Há vários movimentos de leigos integrados na Família Espiritana (LIAM, Jovens Sem Fronteiras), nesta espiritualidade e carisma próprios. É uma colaboração fundamental?

Sim, claro que sim. A missão é conjunta, é de todos, é da Igreja, a missão somos nós. Estes movimentos de que falou, a Liga Intensificadora da Ação Missionária (LIAM), os Jovens Sem Fronteiras e outras realidades da família espiritana, são expressões de compromisso na Igreja local e na sociedade que querem visibilizar e concretizar a dimensão da missão na vida cristã que é, pela sua natureza, missionária. A LIAM, em particular, tem mais de 85 anos de existência, é um movimento pioneiro, porque tendo a marca de uma espiritualidade missionária, de uma congregação religiosa, é desde o princípio um movimento de inserção paroquial. Isso traduz-se, basicamente, por cristãos comprometidos, dentro da sua paróquia, a trabalhar ao serviço da sensibilização e consciencialização missionária da comunidade, para que todos se sintam verdadeiramente comprometidos com a missão – perto, nas suas paróquias, nas suas Igrejas locais, e longe, uma vez que a missão ‘ad extra’ continua a ser uma parte importante, uma dimensão importante.

 

Tem 52 anos de idade, já celebrou os 25 anos de sacerdócio. O que é que o levou a querer ser missionário espiritano?

Posso dar uma série de razões: a sensibilidade às questões da justiça e da paz, a perceção da urgência da evangelização e da primeira evangelização, a perceção de um mundo que, maioritariamente, continua a não conhecer Jesus Cristo e que precisa de o encontrar – não de uma forma proselitista, mas no contexto e no registo próprio do diálogo, do acolhimento, da busca da verdade, que nós acreditamos estar em Jesus Cristo e que também acreditamos estar nas culturas e nos povos que nos acolhem. Por isso, eles podem reconhecer Jesus como seu salvador.

A perceção dos grandes desafios da missão, se calhar, é algo que, humanamente, esteve na origem da minha vocação. Mas ela é sempre uma iniciativa de Deus – tinha tantas razões para não ser missionário, tantas situações que poderiam ter marcado o fim dessa vocação – e é mesmo uma questão de fé, porque Deus está presente e nos vai acompanhando em todas as situações da vida, conduzindo-nos nas opções que quer fazer connosco, em diálogo com a nossa liberdade.

 

Fez o estágio missionário na Guiné-Bissau e esteve depois em missão vários anos em Moçambique (de 1996 a 2009). O que é que o marcou mais nestas experiências fora de Portugal?

São realidades bastante diferentes, na Guiné-Bissau estava numa missão de absoluta primeira evangelização, coincidiu com a minha presença lá o batismo dos oito primeiros cristãos, numa aldeia do interior, distante de todo o mundo e toda a cultura ocidental que conhecemos…

 

Uma experiência que deve ser muito emocionante, para um missionário…

Sim, fascinante. A minha nomeação como padre foi em Moçambique, onde fiquei 13 anos, sempre em missões do interior, fortemente marcadas por essa dimensão da primeira evangelização, que é sempre uma dimensão fascinante, e ao mesmo tempo pela inserção em comunidades cristãs a nascer, de primeira, segunda geração, agora já de terceira geração.

Marcou-me mesmo esta experiência fantástica de perceber a presença de Deus e a vitalidade da Igreja em tantos contextos diferentes, com culturas, línguas, modos de expressão diversos. Isso ajuda imenso a relativizar as nossas certezas absolutas, a colocar na sua verdadeira dimensão coisas que nos parecem fundamentais, mas que talvez não o sejam assim tanto, mesmo a nível material, económico… Foi um grande enriquecimento para mim, tornei-me mais rico vivendo em situações que, materialmente, economicamente, eram de maior pobreza.

 

Ser superior provincial dos Espiritanos em Portugal é uma forma diferente de estar ao serviço e de fazer missão? Portugal também é uma terra de missão?

É uma maneira diferente, obviamente, viver em Portugal não é o mesmo do que viver em Moçambique, os trabalhos são sempre diferentes, mas o essencial é que a missão está na vida, onde quer que a gente esteja, o que quer que faça, com quem quer que a gente tenha de interagir, aí mesmo está a missão, aí mesmo está o lugar de Deus, a colocar-nos em comunicação, uns com os outros. Isso é que é a missão, Deus a fazer-nos comunicar, a partir dos seus olhos, percebendo o quanto Ele se envolve nos nossos compromissos. Isso é missão.

Ser provincial hoje, em Portugal, é um desafio, sem dúvida, porque há uma série de dificuldades, problemas, e também há coisas boas, que a gente vai tendo de gerir. Mas é sobretudo essa experiência da diversidade da relação humana e da presença de Deus na nossa vida, na presença dos homens nestes caminhos de Deus, onde vamos sendo conduzidos às vezes de maneira muito imprevisíveis, na nossa história.

 

Como Provincial dos Espiritanos, e vice-presidente da CIRP – a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal – como é que vê o processo sinodal em curso na Igreja? Os Institutos de Vida Consagrada podem dar o seu contributo próprio?

(O Sínodo) parece-me uma das grandes maravilhas e um dos grandes desafios do pontificado do Papa Francisco. É uma interpelação enorme a toda a Igreja, em particular aos institutos missionários, de facto. Temos de assumir com maior consciência e com maior compromisso que a Igreja somos todos, todos nós, e somos chamados efetivamente a participar, não apenas em posição de subalternidade, mas em posição de compromisso ativo. A nossa voz é importante, o que Deus vai escrevendo nas nossas vidas e na interação de todos, uns com os outros, é importante.

Se há alguma coisa que marca a identidade dos institutos missionários, dos institutos religiosos, é precisamente essa experiência de comunhão, de chamamento à comunhão, que fazemos e só é autêntica se for transbordada, comunicada aos outros. A sinodalidade é a comunhão concretizada na forma como nos organizamos, na forma como pensamos os desafios e os dons da comunidade cristã, do mundo. A forma como nos escutamos, como fazemos dessa escuta o lugar e o ponto de partida para construir alguma coisa mais parecido com o que Deus quer de nós, tanto a nível da Igreja como a nível da sociedade, da realidade humana. Em certo sentido, a sinodalidade é a nossa missão, é o rosto próprio do ser missionário, e diria até do ser Igreja. O Papa Francisco captou isso e está a transmiti-lo de uma maneira formidável, aos cristãos e ao mundo.

 

Está animado, portanto, em relação a este processo?

Estou, realmente. Há desafios a vencer, há problemas na Igreja, de resistências, inclusive ao Papa Francisco e aos sinais de Deus, aos sinais dos tempos, e essas resistências são bastante humanas, transversais à história da Igreja, porque sempre existiram, em certo sentido. Por outro lado, tem de haver coragem para as chamar pelo nome e para ir caminhando, no sentido de construir a comunhão, a sinodalidade de que falamos.

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