História de coragem e perdão de uma das vítimas do ataque de Orissa, na Índia

Os anjos de Meena

Foi em Agosto de 2008. Uma onda de violência brutal cai sobre Kandhamal, no Estado de Orissa. Populares, irados, querem vingar o assassinato de um líder hindu local. Os Cristãos são as principais vítimas desse ódio descontrolado. Ninguém escapou. Uma irmã, Meena Barwa, foi violada e arrastada para a rua pela multidão. Onze anos depois, conta-nos a sua história…

Ainda hoje é com enorme perplexidade que se escutam os relatos do ataque em Kandhamal, no Estado de Orissa, na Índia, em Agosto de 2008. Foi de tal forma brutal que ainda hoje o balanço ainda não está fechado. Cento e vinte mortos, dezenas de aldeias atacadas. Seis mil casas destruídas. Trezentas igrejas e paróquias arrasadas. Ninguém foi poupado. Foi terrível, brutal. Iníquo. Nas várias notícias que se publicaram sobre estes incidentes, há algumas referências a uma irmã. Uma religiosa. Meena Barwa. Foi atacada talvez por ser sobrinha de um líder da Igreja Católica, o Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar. Talvez. Nunca se vai saber. Era uma irmã, uma mulher. Foi atacada em casa, violada e arrastada quase sem roupas para o meio da rua. Foi violada e humilhada. Lembrar o que aconteceu revela-se sempre doloroso. É como reabrir uma ferida que nunca deixou de sangrar. Mas Meena Barwa aceitou contar a sua história. Dar o seu exemplo. Aceitou contar como o perdão é sempre mais poderoso do que o ódio. “O trauma foi quase insuportável”, diz, lembrando que a violação foi apenas o começo de um longo caminho que ainda não chegou ao fim. A violência continuou a pairar por Orissa naqueles dias, naquelas semanas e meses. Meena foi forçada a mudar de casa várias vezes. A ameaça continuava a ser muito forte. Os cristãos tiveram de se esconder por questões de segurança. “Até usava disfarces”, recorda. “Durante anos, fiquei separada da minha família… as noites eram especialmente más…” Como um pesadelo sem fim, Meena Barwa teve também de enfrentar a violência do julgamento. Ir a tribunal, encarar eventuais agressores, recordar passo a passo o que lhe aconteceu, deixou-a traumatizada. “Não consegui dormir durante dias…” Cada sessão do julgamento era como uma nova violação. Meena ganhou até aversão ao sistema judicial, a tudo.

Reagir

Mas decidiu reagir. Era preciso lutar pela justiça, defender todos os que, como ela, foram vítimas da violência mais absurda. Decidiu estudar. Matriculou-se numa faculdade longe de Orissa, mas nunca revelou a sua identidade. Continuou a ser uma religiosa mas, na escola, era apenas uma jovem estudante. Foi em 2015. “Hoje levo uma vida normal e tornei-me muito mais forte. As pessoas que conheci ajudaram-me a esquecer a minha dor.” Todos os que estiveram com a Irmã Meena durante estes anos ajudaram-na a ultrapassar o trauma, a olhar de frente para o futuro, a acreditar novamente em si. “Foram anjos enviados para me guiar, para que eu não me afundasse na miséria.” Hoje, a Irmã Meena é outra pessoa. Cresceu. “Ultrapassei o meu trauma e encontrei uma maneira de trazer esperança ao meu povo. Tornei-me mais humilde, mais paciente e mais humana.” Meena Barwa teve de se confrontar com os seus agressores. Mesmo não podendo identificar um a um os homens que a agrediram, teve de os encarar durante as suas orações. Não havia maneira de se desviar disso. “A oração só tem sentido quando eu perdoo. Como posso rezar a Nosso Senhor se não perdoo? Ao perdoar aos meus agressores, fiquei livre dos meus traumas, do medo, da vergonha, da humilhação e da raiva. Sinto que estou a viver uma vida normal e sou feliz porque lhes perdoei. Caso contrário, teria enlouquecido. Não desejo mal aos que me agrediram. Só desejo que eles se tornem boas pessoas.” Meena Barwa, a sobrinha do Arcebispo de Cuttack-Bhubaneswar, aprendeu da forma mais dolorosa o poder do perdão. Hoje, é um exemplo de que o amor é sempre mais forte do que o ódio…

Paulo Aido | fundacao-ais.pt

 

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