Mortos em 1996, beatificados há um ano, a 8 de Dezembro de 2018

Os mártires da Argélia

Viviam num mosteiro e eram exemplo da convivência pacífica entre religiões. Viveram até ao fim na gratuidade do amor aos outros. Apesar disso, foram assassinados por radicais islâmicos no auge da guerra civil da Argélia. Beatificados há precisamente um ano, sete monges trapistas de Tibhrine são exemplo da Igreja perseguida nos tempos modernos.

Calcula-se que tenham morrido mais de 150 mil pessoas. Os anos 90 foram terríveis para a Argélia. Foi uma década de violência e de morte. Tudo se precipitou após a vitória eleitoral, em 1991, de fundamentalistas islâmicos. Os militares promovem um golpe de Estado e instituem um governo, ignorando a vontade expressa nas urnas. Os fundamentalistas, ao viram fechadas as portas do poder, lançam-se de armas para as ruas. Foram tempos de terror absoluto. Todos os que não seguissem a ‘Sharia’, a lei islâmica mais estrita, eram perseguidos e violentados. Muitos foram assassinados. Ninguém escapou a esses julgamentos sumários feitos com o dedo no gatilho. Nem os muçulmanos mais moderados. Os Cristãos ficaram também na mira dos radicais. No dia 8 de Dezembro de 2018, faz agora um ano, a Igreja beatificou 19 homens e mulheres que conheceram o martírio nesses tempos turbulentos na Argélia. Viviam em paz, procuravam servir a comunidade. Foram mortos. Alguns foram assassinados nas igrejas, durante a missa, outros foram degolados na rua, outros foram atacados à bomba. São os mártires da Argélia. Entre eles estão sete monges trapistas que viviam no Mosteiro de Notre-Dame de l’Atlas, em Tibhrine. Nem aí, nesse oásis de paz erguido no cimo de uma montanha, estiveram a salvo. A história dos irmãos Bruno, Célestin, Christian, Christophe, Luc, Michel e Paul deu origem até a um filme. Ainda agora, mais de vinte anos depois, há uma enorme inquietação quando se revisitam esses anos em que a Argélia foi consumida pelo terror.

O padre Christian de Chergé era o prior do mosteiro. Já se viviam tempos muito conturbados quando resolveu escrever um texto que acabaria por ficar como testemunho poderoso da iniquidade que estava prestes a acontecer. O filme [‘Dos homens e dos deuses’, de Xavier Beauvois] que relata esta história, não resolve a perplexidade de tanta violência gratuita, de tanta maldade sobre pessoas inocentes que dedicaram as suas vidas aos outros, procurando ajudá-los, oferecendo o melhor que tinham e sabiam. Um dos sete irmãos, o frade Luc, era médico. Não haveria ninguém em toda a região que não conhecesse a forma generosa e gratuita como tratava todas as pessoas.

 

Ficar ou partir

Estes sete monges trapistas podiam ter abandonado o mosteiro quando a violência se banalizou, quando o ódio assaltou as ruas. Decidiram ficar, sabendo que arriscavam a própria vida. Ficaram como sempre viveram. Desarmados. Ficaram, pois, à espera. Durante a noite de 26 de Março de 1996, um comando do Grupo Islâmico Armado irrompeu pelo mosteiro sequestrando os sete homens, os sete frades. Os seus corpos, martirizados, só seriam encontrados 56 dias mais tarde. As palavras do prior do mosteiro, o padre Christian de Chergé, ganham uma força impressionante quando se sabe que foram escritas dois anos antes do ataque a Tibhrin. “Se me acontecesse um dia (e poderia ser hoje) de ser vítima do terrorismo que parece querer envolver agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família se lembrassem de que a minha vida foi dada a Deus e a este país. (…) Que eles soubessem associar esta morte a tantas outras igualmente violentas, deixadas na indiferença e no anonimato. A minha vida não tem mais valor do que outra.” O ano passado, no dia 8 de Dezembro, estes monges trapistas de Tibhrine foram beatificados juntamente com mais 12 Cristãos. São conhecidos agora como os mártires da Argélia. São, todos eles, exemplo da Igreja perseguida nos tempos modernos.

 

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

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