A história de Philippe Yarga, catequista, assassinado no Burquina Fasso

Executado a sangue-frio

Procurou resistir até ao último instante. Procurou ficar juntamente com os outros habitantes da aldeia apesar de serem cada vez mais visíveis os sinais de que os terroristas se preparavam para atacar. Foi a 16 de Fevereiro do ano passado. Philippe Yarga foi assassinado juntamente com mais 23 pessoas. Philippe era catequista. Tinha sete filhos…

Philippe Yarga tinha sido avisado que era melhor abandonar a aldeia de Pansi, situada perto da fronteira com o Mali e o Níger. Os terroristas, se atacassem, iriam certamente à sua procura, pois Philippe era não só catequista mas também o líder comunitário. Desde 2017 que tinha essa responsabilidade. Era mais uma das tarefas que assumia com entusiasmo. Philippe estava precisamente a organizar a sua partida e a de outras pessoas quando o ataque começou. Foi no dia 16 de Fevereiro. D. Laurent Dabiré, Bispo de Dori, resumiu o que aconteceu a meia dúzia de palavras: “os terroristas invadiram a aldeia e executaram 24 pessoas a sangue-frio”. Uma dessas pessoas foi Philippe Yarga. Foi um ataque indiscriminado. Os terroristas varreram a aldeia a tiro alvejando todos os que encontraram pelo caminho. Philippe tinha 46 anos e deixou sete filhos. O mais novo iria nascer dali a apenas mês e meio. O assassinato de Philippe Yarga veio mostrar também a importância e ousadia dos que estão na linha da frente assumindo a sua missão nos locais onde impera a ameaça e o extremismo. A vida da Igreja em África seria impensável sem a coragem dos catequistas. Yarga foi um dos primeiros catequistas enviados para a região de Dori quando a diocese foi criada, em Novembro de 2004. A esmagadora maioria da população local é muçulmana. Os Cristãos não ultrapassam os 2%. Os terroristas procuram criar nesta zona de África um ‘califado’, à imagem e semelhança do que os jihadistas do Estado Islâmico fizeram na Síria e no Iraque.

 

Reinos de terror

São reinos de terror implacável para quem não seguir as regras do Islão mais radical. São mundos de pesadelo que aos poucos começam a ser erguidos sobre o sangue de mártires e de inocentes como o catequista Philippe Yarga e os outros 23 habitantes da aldeia de Pansi. “Desde 10 de Setembro” do ano passado “até aos dias de hoje”, explica o Bispo de Dori, a diocese “já sofreu pelo menos dez atentados terroristas”. É toda uma vasta zona que está sob ataque. As forças de segurança revelam-se incapazes de suster esta onda de violência.

Para a pequena comunidade cristã estes são dias terríveis. Aos poucos, as igrejas vão sendo encerradas e ninguém se atreve a dizer se alguma vez irão voltar a encher-se de fiéis. Por causa dos ataques, por causa da ameaça jihadista, há um número cada vez maior de comunidades cristãs que se vão esvaziando. Diz D. Laurent Dabiré que o Burquina Fasso atravessa um tempo particularmente difícil mas os fiéis têm sabido resistir a todas as contrariedades, dando um exemplo notável de fé e de coragem. “Os nossos fiéis têm um grande espírito de perseverança e resiliência. Eles continuam a viver a sua fé, custe o que custar. Nem sequer uma vez desde 2015 ouvimos falar de qualquer caso de deserção, abandono ou apostasia. Os fiéis estão a fugir do terrorismo, mas mantêm a sua fé. Mesmo quando os terroristas ameaçaram as pessoas, tentando forçá-las a converter-se, não conseguiram. O povo simplesmente fugiu, levando consigo a sua fé.” Estes cristãos de que fala o Bispo, e que têm resistido ao terror jihadista, precisam de nós. Ajudá-los é a melhor maneira de honrar a memória de Philippe Yarga, assassinado a sangue frio a 16 de Fevereiro do ano passado por terroristas islâmicos. Philippe era catequista. Tinha sete filhos…

Paulo Aido

 

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