Em Lahore, no Paquistão, os cristãos vivem tempos muito duros

Porto de abrigo

Na diocese de Lahore, no Paquistão, vivem-se tempos de incerteza. A pandemia do coronavírus atingiu fortemente a já estigmatizada comunidade cristã. Os pobres tornaram-se ainda mais pobres e a Igreja transformou-se num verdadeiro porto de abrigo. Mas, apesar de toda a incerteza, há quem olhe para o futuro com confiança. “O sofrimento torna-nos mais fortes…”, diz o padre Gulzar.

O coronavírus deixou marcas em todos os lugares. Não haverá região ou país que tenha passado imune à pandemia. O Paquistão foi um desses países. Os cristãos são uma comunidade minoritária e confundem-se quase sempre com os mais pobres dos pobres da sociedade. É assim em quase todo o país e é assim em Lahore. A exclusão está sempre de mãos dadas com a pobreza. A pandemia atingiu esta região violentamente. A economia estagnou e muitos cristãos ficaram, quase de um dia para o outro, sem trabalho. E quase de um dia para o outro, muitas famílias ficaram sem pão na mesa. Foi dramático. O padre Francis Gulzar, o vigário-geral da Arquidiocese de Lahore, diz que foi “um pesadelo horrível”. Um pesadelo que continua a atormentar a comunidade cristã que muitas vezes apenas consegue sobreviver realizando os trabalhos mais duros e mal pagos, os que são tantas vezes considerados quase indignos aos olhos da sociedade, nas limpezas, nos esgotos, no meio do lixo.

 

Cadeias de solidariedade

Foram tempos duros, lembra o padre Gulzar a Tobias Lehner, da Fundação AIS. O governo tinha dado ordem para fechar tudo como forma para a contenção do coronavírus. “A partir de 14 de Março, começámos a receber chamadas do governo para fechar as igrejas”, recorda o padre Francis Gulzar. Mas era preciso dar de comer a todos os que ficaram sem trabalho, sem sustento. E só ali, na Arquidiocese de Lahore, havia mais de 500 famílias em grande necessidade. Seguramente que mais de duas mil pessoas. Naqueles dias mais difíceis quando as ruas se esvaziaram, as lojas ficaram encerradas e o silêncio tomou conta da grande cidade, as portas abertas das igrejas foram um oásis no meio do desespero. “Muitas pessoas passaram a ir à paróquia. Era o único lugar onde conseguiam encontrar alguma coisa para comer…”

 

De estranhos a vizinhos…

Toda esta ajuda só se tornou possível graças à solidariedade que se estabeleceu rapidamente face à dimensão da pandemia. A Fundação AIS foi uma das entidades responsáveis por alimentar esta cadeia de entreajuda. Houve também apoio que chegou de “amigos muçulmanos”, gente que se condoeu com o sofrimento dos vizinhos que ficaram de mãos vazias e impedidos de ganhar o sustento para os seus filhos. “Graças a Deus – explica o vigário-geral da Arquidiocese de Lahore à Fundação AIS –, nós, os cristãos, começamos a ser reconhecidos gradualmente como uma parte do Paquistão.” Já não são os outros, já não são como estranhos e passaram a ser vizinhos. A Igreja em Lahore tem procurado abrir caminho no diálogo com todas as religiões, criando laços, fortalecendo relações de amizade, estreitando os muros da indiferença. “Graças a Deus”, diz o padre Gulzar.

 

A certeza da fé

Claro que na memória de todos estão ainda os violentos ataques do Domingo de Páscoa de 2016, em que morreram 75 fiéis, ou os constantes atropelos à dignidade das famílias, os ignóbeis sequestros de raparigas cristãs, tantas vezes perante a indiferença das próprias autoridades, ou as conversões forçadas a quem pede apenas ajuda para sobreviver… Os tempos são duros mas é a própria fé desta comunidade cristã que tanto tem sofrido que está a ser posta à prova. Diz o padre Gulzar que este Natal está a ser “um tempo muito difícil, em que vamos ter de descobrir novas formas para apoiar as famílias em necessidade”. Agora que um novo ano está a começar, a resistência deste povo que encontra na fé o seu melhor tesouro volta a estar à prova. “O sofrimento torna-nos mais fortes…”, diz o padre Gulzar. “Graças a Deus.”

Paulo Aido

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