NIGÉRIA: Padre descreve violência extrema contra comunidades cristãs

Sangue de mártires

Os cristãos no norte da Nigéria sentem-se abandonados à sua sorte. Vítimas de grupos armados – desde os jihadistas do Boko Haram aos pastores fulani e aos bandidos comuns –, não estão a salvo em lugar nenhum. As autoridades não os defendem e o medo passou a fazer parte do dia-a-dia. O Padre Sam Ebute descreve-nos um ambiente de violência mas também de coragem e de fé. “O sangue destes mártires não será em vão”, diz este sacerdote à Fundação AIS.

“Em menos de duas horas, os bandidos deixaram 17 jovens mortos, enquanto outros quatro acabariam por falecer a caminho do hospital ou já mesmo no hospital.” Foi assim no dia 21 de Julho, na aldeia de Kukum Daji. O Padre Sam Ebute, da Sociedade de Missões Africanas, conta a história deste massacre com as palavras já anestesiadas pela rotina da violência e da morte. Vinte e um jovens perderam a vida naquela segunda-feira. Cerca de três dezenas ficaram feridos. Uns com mais gravidade do que outros. Todos, porém, dificilmente irão esquecer os tiros, os gritos, o sangue, os corpos no chão já sem vida, cravejados de balas. O Padre Ebute diz que o massacre em Kukum Daji foi apenas um episódio na violência descontrolada de grupos armados na região norte da Nigéria. Várias aldeias e vilas já experimentaram o sabor amargo do terror, da impotência face aos militantes do mal, como se as pessoas estivessem abandonadas à sua sorte. O Boko Haram, o grupo jihadista, é um dos principais responsáveis por esta onda de terror. Segundo as Nações Unidas, ao longo dos últimos dez anos, mais de 36 mil pessoas foram já assassinadas e mais de dois milhões tiveram de fugir, abandonando tudo o que tinham. São deslocados. São pessoas sem nada. O Padre Sam Ebute, responsável pela promoção de vocações na Diocese de Kafanchan, lembra, como num lamento, as vezes que já teve de enterrar os seus paroquianos vítimas da barbárie. Há sempre alguém, alguma família, que já testemunhou pelo menos um ataque. O terror é geral. “Os últimos ataques deixaram-nos a todos com medo. Sobretudo, com medo do desconhecido, porque não sabemos quando ocorrerão os próximos ataques ou o que os causará…”

 

Sentimento de orfandade

Um medo que paralisa, que limita movimentos, que coloca uma comunidade inteira quase em prisão domiciliária. “Os nossos fiéis não podem realizar as suas actividades livremente. E depois, esta é a época das colheitas, mas agora ninguém se atreve a ir para os campos. Todos têm medo de serem atacados. Por causa disso, as colheiras estão a definhar…” Os ataques têm visado as comunidades cristãs como se fossem um alvo. Como se as suas casas estivessem marcadas, como se os cristãos tivessem de ser abatidos, um por um. Agora, com os campos a serem abandonados também, sobra uma espécie de sentimento de orfandade. O mundo está a desabar. “É como se tivéssemos morrido por causa da nossa fé!” O Padre Sam Ebute tenta fazer das fraquezas força para alimentar o seu povo com a esperança em tempos com menos violência e morte. “Tento estar disponível para todos eles, confortando-os, rezando com eles e encorajando-os a manterem a fé em Deus e em permanecerem firmes. Procuro dar apoio espiritual, moral e material o melhor que posso.” Ser sacerdote num ambiente assim é difícil, explica o Padre Sam Ebute à Fundação AIS. “É difícil pregar o perdão, a reconciliação, a paz e o amor às pessoas cujos meios de subsistência foram roubados, que vêm a sua riqueza ser destruída por causa destes ataques…” É difícil mas não é impossível. A fé é a vitamina que alimenta os dias deste padre habituado a sepultar os seus paroquianos vítimas do terror à solta na Nigéria. “Consolo-me que Deus está a ver tudo. O sangue destes mártires não será em vão…”

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

Partilhar:
Share