Na Libéria, o centro de acolhimento de Ganta é um mundo à parte…

O sapateiro da leprosaria

No norte da Libéria, no meio da floresta, como se estivesse escondido, existe uma leprosaria e centro de reabilitação para tuberculosos. É em Ganta. Parece um fim do mundo. Para muitas das pessoas que por ali vivem, Ganta é, de certa forma, todo o mundo. O trabalho que as Missionárias da Consolata desenvolvem em Ganta é ajudado por Martin Dolo. Não é enfermeiro, nem médico, nem psicólogo. É apenas sapateiro mas quase faz magia…

A lepra é uma doença insidiosa, faminta, que vai corroendo a pele, que vai deixando marcas. A lepra é ainda hoje uma palavra que assusta, que afasta. Ali, em Ganta, no norte da Libéria, na Leprosaria, as Missionárias da Consolata fazem muito mais do que cuidar daqueles homens e mulheres a quem um dia foi diagnosticada a doença. As irmãs são mais do que enfermeiras ou médicas. Cuidam das pessoas, procurando devolver-lhes o sentimento de dignidade que a lepra parece corroer. Em Ganta, na leprosaria, vive-se num mundo à parte. O espaço sofreu várias vicissitudes. No final da década de noventa do século passado, em plena guerra, tornou-se necessário reabrir a leprosaria. Foi necessário quase começar tudo de novo. O que existia era quase nada. Apenas escombros do antigo centro. O local tinha sido saqueado, as camas, os móveis e as casas de madeira dos doentes foram arrancadas e transformadas em lenha. Cozinharam com pedaços de móveis, com bocados de portas, de janelas, de soalho. Sobraram as paredes. Aos poucos o centro foi reabilitado. Hoje, alberga dezenas de pessoas. As irmãs procuram que todos ali possam ter uma vida tão normal quanto possível. Essa é também a missão de Martin Dolo. Ele é sapateiro. Ali, no centro, é no entanto muito mais do que isso. É quase um fazedor de magia pela forma como consegue fazer sapatos de quase nada. Ali, diz, nada se perde. “O material é dispendioso e nós não conseguimos arranjá-lo. Por isso, não desperdiçamos. O nosso desperdício é mesmo desperdício total, aquilo que já ninguém consegue usar”, diz, soltando uma gargalhada. O seu sorriso é uma das vitaminas do centro. Martin não deixa ninguém indiferente.

 

Paciência de artesão

Ali, em Ganta, todos se conhecem uns aos outros. Todos compartilham aquele espaço que é uma espécie de refúgio, um santuário de amor e carinho onde estão protegidos de uma sociedade que continua a ter dificuldade em lidar com a doença. Martin Dolo faz mais do que sapatos. Devolve o andar devolvendo a confiança às pessoas a quem manufactura, com paciência de artesão, sandálias, botas, chinelos… São sempre mais do que sapatos, pois procuram também esconder a lepra. Principalmente para os mais jovens, os que ainda não se resignaram com uma vida diminuída. “Têm vergonha, têm medo de ser estigmatizados, porque são sandálias para a lepra. Isso acontece sempre com os jovens. Procuramos fazer sapatos mais modernos, mais extraordinários, mas com protecção, para que não se note… que é aquilo que eles receiam.” São sapatos que escondem. São quase um milagre. Das mãos e do engenho de Martin Dolo nascem sapatos que trazem felicidade e devolvem esperança. No norte da Libéria, no meio da floresta, como se estivesse escondido, existe uma leprosaria e centro de reabilitação para tuberculosos. Por lá trabalha um homem que não é enfermeiro, nem médico, nem psicólogo. É apenas sapateiro mas quase faz magia…

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

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