Cónego Manuel Maria Madureira, Arquidiocese de Évora

A Maria, de três anos, já sabe que «o coronavírus não se vê, mas está lá e põe os meninos doentes». Que mais se pode esperar de tão tenra idade? Foram os pais que lhe ensinaram isso, bem sabemos, por precaução, para que ela não vá mexer nem aproximar-se do que não deve. O covid-19 é doença altamente contagiosa. Com tamanho Conhecimento científico, sintetizado numa frase tão assertiva, não será difícil a qualquer Universidade dar-lhe o diploma de doutora em biologia ou coisa semelhante.

Observemos com atenção um pormenor especial na afirmação científica da Maria: o vírus não se vê, mas está lá e põe os meninos doentes. Sabe-se que existe, que está lá, porque se conhecem os efeitos nocivos. A sua existência comprova-se a partir dos efeitos e não olhando para ele próprio, que não se vê. Na prática é dizer que um efeito é sempre o resultado de uma causa e que nenhum efeito aparece do nada. É fácil seguir o raciocínio. A relação causa-efeito está aqui bem presente. O vírus produz a doença. Sabe-se da existência do vírus analisando os doentes e a doença. “Pelos frutos as conhecereis” (dizia Jesus a respeito das árvores boas ou más, querendo dizer que também é pelas boas ou más obras que se conhecem as pessoas). Se o critério para se saber da existência de qualquer realidade for somente o sentido da visão, então os cientistas, tal como eu, nunca poderiam afirmar a existência do coronavírus já que, naturalmente, o não veem. Vê-se pouco com os olhos, a não ser que se utilizem ferramentas que permitam ver mais e melhor, como é o caso dos microscópios. Sabem?

Na frase científica da Maria há uma grande lição para os sábios do nosso tempo que se afincam na convicção de que Deus não existe, porque não se vê. Claro! Como podem vê-l’O se não usam os microscópios espirituais que os ajudariam a ver?! Pergunto: Não poderiam olhar para os efeitos? Os efeitos vêem-se a olho-nu, sem precisarem de microscópio! Não sabem que o mundo é um efeito, que o homem é um efeito, uma consequência de uma causa? Só não vê quem não quer. Vê-l’O a Ele diretamente, ninguém vê, nem os crentes, apesar da fé. Estes têm, é certo, o auxílio de ferramentas específicas recolhidas na Sabedoria com as quais veem para lá da materialidade.

No início deste texto escrevi “Conhecimento” (a respeito da frase da Maria). Agora escrevo “Sabedoria”. O Conhecimento tem a ver com a inteligência, a razão, o “saber para saber”. A Sabedoria tem a ver com o coração, com o “saber para agir”, de acordo com os valores que a consciência moral propõe. Aliás, é a consciência moral, iluminada pela Sabedoria, que impele a Vontade a “conhecer” Deus e a agir em liberdade. Com a Razão, conhecemos; com a Vontade livre, agimos. O mesmo em relação a Deus. Com o conhecimento racional, naturalmente não O vemos; com a Sabedoria do coração, vemo-l’O nos efeitos da Sua ação no mundo e sobre nós.

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