Geofísico, professor jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, é investigador na área das alterações climáticas e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do desenvolvimento sustentável

Foto: Joana Gonçalves/RR

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

Nos últimos anos as secas tornaram-se mais frequentes e prolongadas em Portugal. Este ano estamos em fevereiro e os sinais de alerta chegam de todo o país. não só do Sul. Devemos ficar moderada ou gravemente preocupados, tendo em conta até os nossos hábitos de consumo?

Bom, este é um problema anunciado, que é conhecido com algum detalhe desde finais do século passado. Eu coordenei um estudo e houve até a publicação de um livro em 2002, sobre os cenários e os impactos das alterações climáticas em Portugal. Aliás foi o primeiro estudo que fez uma avaliação Integrada desses impactos com base em cenários climáticos, e foi o primeiro estudo na Europa do Sul. E aí, de facto, já se alertava que ia diminuir a precipitação média anual no nosso país ou, outra maneira de dizer, as secas iam-se tornar mais frequentes e os anos húmidos mais raros. É algo que se tem vindo a agravar, e que infelizmente – não posso deixar de dizer – se irá continuar a agravar até que este problema das alterações climáticas seja resolvido, o que implica diminuir as emissões globais de gases com efeito de estufa.

É um problema muito difícil. Há esforços grandes no sentido de o resolver, mas é esta a situação.

 

Não estamos a falar de uma situação que se resolva com pensos rápidos?

Não, de modo de nenhum.

 

Pode obrigar a medidas drásticas em termos de racionamento do consumo de água, e implica aprender uma sobriedade do uso da água? Há todo um caminho que podemos fazer em conjunto?

Há todo um caminho que podemos fazer em conjunto, e também não posso deixar de dizer que Portugal podia ter começado esse caminho há mais tempo.

Uma das respostas a este problema das alterações climáticas é a redução das emissões globais de gases com efeito de estufa – e aí Portugal tem feito um percurso muito meritório, na minha opinião, realizando uma transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis. É, aliás, líder no sul da Europa em termos de geração de energia elétrica de fontes renováveis. Mas, na adaptação às alterações climáticas temos de certo modo pensado ‘bom, este ano temos uma seca, mas o próximo ano será de bastante chuva, portanto vamos aguentado’, e realmente não há muitas medidas estruturais para enfrentar este problema.

 

Portugal podia ter ido já mais longe ou mais rápido nas medidas que já tomou?

Podiam ser tomadas, e estão a ser tomadas algumas medidas, mas para ser concreto: o consumo de água a nível urbano, água para os utilizadores nas suas casas, não é o maior, o maior é para a agricultura, cerca de 70%, depois temos para o consumo urbano e para a indústria. No que respeita ao consumo urbano, na distribuição de água a nível das autarquias há perdas e essas perdas são conhecidas. Há câmaras que têm aumentando muito a eficiência do uso da água. Repare, há perdas físicas na canalização, mas depois também há usos da água que não são contabilizados, e essa é uma situação que não é desejável, mas tem-se mantido. Este é um aspeto. O outro aspeto é na agricultura de regadio, que é muito importante e é competitiva, e temos de pensar que estamos num mundo que é competitivo, temos uma economia mundial…

 

Mas a produção agrícola não é mundial, é local. Não seria necessário adaptar a produção agrícola em Portugal às condições ambientais que estão em profunda mutação no país?

Nós temos sobretudo que ter uma agricultura que seja viável do ponto de vista económico. Isto não quer dizer que não tenhamos também um outro tipo de agricultura, mais ecológica, isso é tudo muito importante. Mas, por exemplo, temos condições ideais para produzir azeite, somos o maior produtor do mundo de cortiça, também temos agora a questão das amendoeiras, tudo isso é bastante competitivo. Penso que temos de compatibilizar o aspeto económico com o aspeto ambiental, e isto é que é desenvolvimento sustentável. É difícil, mas é um equilíbrio.

No que respeita à agricultura de regadio, existem bons exemplos de empresários e agricultores que utilizam as metodologias mais modernas de eficiência do uso da água, a chamada agricultura de precisão. Mas há também no país muita agricultura que é feita com uma irrigação por gravidade, sem usar bombas para elevar, quer dizer, sem pressão no transporte da água. Aí perde-se muita água. Por exemplo, o rio Mira é uma bacia hidrográfica que neste momento tem uma escassez de água extrema num estudo recente que foi publicado – um estudo muito interessante, que está para discussão pública, sobre as disponibilidades da água em Portugal no presente e no futuro. E aí a irrigação é feita por gravidade: é a partir da barragem que a água é conduzida e chega onde chegar, mas se não for distribuída por todos os sítios, há alguma que se perde, ao passo que se for por pressão, através de bombas, gasta energia e é mais caro.

Mas, esta é a realidade em que todos os países estão concentrados, não é um problema só de Portugal é um problema também de Espanha, de todo o sul da Europa, de toda a região mediterrânica. Estamos todos com os mesmos problemas e estamos todos a tentar resolvê-los.

 

Portugal e Espanha deviam coordenar-se melhor na gestão da água?

Essa é uma questão difícil. Os espanhóis têm um pouco a impressão – e estou a falar por experiência própria – de que nós não estamos tão preocupados com a água como eles estão.

É preciso lembrar que Espanha tem regiões que são muito mais áridas do que as nossas, no Sul. Mas o que é que eles fizeram nessas regiões muito áridas que se estão a tornar hiper-áridas, como a região de Múrcia e Alicante? Têm um transvase de água que vem do Tejo, e é esse transvase que permite uma horticultura extremamente importante do ponto de vista social, porque tem 250 mil ‘regantes’, como dizem em Espanha, que vivem dessa horticultura com a água que vem do Tejo. O que está a acontecer agora é que o Tejo começa a não ter água para isso, e o que o governo espanhol tem feito é dizer ‘temos de diminuir o caudal’ que vai para o transvase Tejo-Segura, esse aqueduto gigante, com 300 e tal quilómetros. E as autonomias do Sul dizem ‘não, isso é impossível, como é que nós vivemos?’. Então, a solução é utilizar mais as águas residuais urbanas, porque há população, e havendo população há águas residuais urbanas… estão a ver a relação?

 

Foto: Joana Gonçalves/RR

Temos estado a falar de Portugal, e agora um pouco de Espanha, mas conhece projetos ambientais em todo o mundo. Há bons exemplos de aproveitamento de outras fontes hídricas que é possível copiar para Portugal?

Sim, sem dúvida. Não estou a dizer que isto é a solução. A solução mais importante é, de facto, perceber que a água é um bem precioso e que temos de consumir o menos possível, sem prejudicar a que é utilizada para coisas essenciais, mas consumindo o menos água possível. Mesmo nas nossas casas, na possibilidade de reciclar.

Dito isto, se pretendemos que a nossa atividade económica que não sofra com essas questões, temos de encontrar outras disponibilidades de água, e isso faz-se através da utilização do conceito de economia circular, ou seja, reciclar as águas residuais urbanas fazendo um tratamento terciário, que permite que se possa beber. É o extremo, mas é o que se faz em Singapura e noutros sítios, os paradigmas estão a mudar.

 

E a dessalinização?

É cara e tem problemas ambientais, mas também se podem tentar resolver, e resolvem-se alguns deles. A dessalinização faz sentido é quando se está próximo do mar, mas também se pode fazer a dessalinização das águas salobras, não só das águas do mar. Por outro lado, tem um custo, porque utiliza bastante energia elétrica, mas que pode ser gerada através de fontes renováveis, e Portugal tem quantidades fabulosas de fontes renováveis.

 

O que nos leva ao início, ao dizer que este problema não está desligado da grande questão que são as alterações climáticas?

Não, não está. Há um nexo entre as questões da energia, que são cruciais, as questões do clima e as questões da água. E a agricultura também, e a biodiversidade, há aqui um nexo neste conjunto.

 

Falamos há pouco da agricultura. Relativamente à floresta, aprendemos alguma coisa com os incêndios 2017, até em termos de plantação e gestão da mancha verde que temos no país?

Acho que sim, tem-se feito um esforço muito meritório no sentido de uma melhor ordenação da floresta em Portugal e de uma diversificação das espécies. Uma ideia extremamente importante é o pagamento dos serviços do ecossistema florestal, porque a floresta é o mais importante para reter a água no solo.

A diferença entre um deserto e uma zona que não é desértica é o solo, o ter matéria orgânica, microrganismos, e se tivermos uma floresta, esses microrganismos e o carbono que está retido no solo, tudo isso é fundamental para reter a água.

 

Talvez o facto de muita gente viver hoje em centros urbanos faça esquecer que grande parte do território é florestal.

Sim, sem dúvida. Isso é também importante, tem uma conexão com o clima: a floresta quando cresce, sequestra o dióxido de carbono da atmosfera, através da fotossíntese, um processo natural, é um sumidouro de CO2 e contribui para que as nossas emissões não sejam tão elevadas.

 

O Papa Francisco tem sido uma das vozes mais ativas na questão do clima, sobretudo depois da sua encíclica ‘Laudato Si’, que lançou o conceito de ‘ecologia integral’. Como é que avalia o papel do Papa nesta área, as suas intervenções, e esta encíclica em particular?

Eu admiro muito o Papa Francisco. Não sou praticante, mas tenho um grande respeito pela religião cristã, a católica em particular. O Papa tem feito um esforço notável, em vários aspetos.

Só a escolha do nome Francisco tem um significado muito especial, com a referência a São Francisco de Assis, que tem uma relação muito especial com o ambiente. A ‘Laudato Si’ foi uma encíclica em que ele se rodeou de cientistas, conheço alguns deles, e aceitou o contributo da ciência. Essa encíclica incomodou todos os interesses dos combustíveis fósseis, no mundo, e os defensores mais acérrimos de uma economia neoclássica, ortodoxa.

 

Em relação à questão da água, especificamente, o Papa tem repetido que esta é um direito de todos e não uma mercadoria. Há o risco de deixar os recursos hídricos à mercê de interesses privados?

Essa é uma pergunta difícil, porque temos no mundo exemplos em que os serviços de água funcionam bem, sendo públicos e privados, como temos serviços que funcionam muito mal, sendo públicos e privados. Não se pode generalizar, tem muito a ver com a cultura de cada país, com as inclinações sociológicas e políticas de cada país.

Tenho a opinião de que o Estado não pode fazer tudo, tem de haver o concurso da iniciativa privada, das pessoas.

 

O Estado funciona mais como salvaguarda de que ninguém seja privado desse direito?

Exatamente, no aspeto regulatório o Estado tem um papel fundamental, que tem de ser reforçado, em muitos casos. Mas também há outros bons exemplos: em Portugal, neste momento, há duas áreas protegidas, privadas. E a pessoa pensa: mas qual é o ganho que os privados têm sobre isso? O último é o Vale das Amoreiras, em Aljezur, uma floresta com biodiversidade. Temos de ter o concurso da iniciativa individual e coletiva das organizações, que estão sensíveis às questões ambientais, conscientes dos problemas, e querem intervir. Devem ter espaço para o fazer.

As empresas desempenham um papel muito importante, neste processo, e são o veículo para a criação de riqueza num país, não temos outros.

 

Foto: Joana Gonçalves/RR

No final de 2020 aconteceu a COP 26, Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Foi um fracasso? Teria sido possível ir mais longe?

Acho que não foi um fracasso. Tem sido um processo muito arrastado, muito difícil, mas também tem aspetos positivos, porque tudo depende do patamar em que pomos as coisas. Que haja 193 países que tomam decisões por consenso é extraordinário. Hoje em dia, estamos a assistir na Europa a um confronto latente; a nível mundial, com muito maior dimensão e implicações futuras, temos outro, entre os Estados Unidos e a China.

Que mais de 190 países se reúnam e tomem decisões, durante 26 anos, é notável. Claro que houve coisas em que se ficou aquém do que seria de esperar, mas das coisas que ilustram bem as dificuldades neste processo é a questão do carvão e da Índia, que tem um nível social e de desenvolvimento económico muito mais baixo do que a China, a União Europeia, os Estados Unidos, que são os principais emissores de gases com efeito de estufa no mundo.

A Índia tem uma agenda de desenvolvimento, para gerar maior bem-estar, prosperidade económica. A energia acessível que têm é o carvão, tem sido essencial para essa agenda de desenvolvimento.

 

E não podem mudar as coisas de forma mais rápida…

Exatamente. Eles compreendem o problema, são afetados pelas alterações climáticas, este é o dilema. Os países com economias avançadas, com diferentes gradações, estamos bem instalados, relativamente a grande parte do mundo.

Na COP não foi decidido acabar com o uso do carvão, mas sim ir diminuindo o seu uso.

 

Em novembro, Portugal deixou de usar carvão na produção de eletricidade. Elogiou, aliás, o recurso a energias renováveis no nosso país. Devemos recorrer à energia nuclear, é um passo que tem de ser estudado ou dispomos de recursos suficientes?

Eu penso que, em Portugal, não se justifica a energia nuclear. Na Espanha, por exemplo, a energia nuclear serve de backup, porque as energias renováveis têm o problema da intermitência. E repara-se que não é só o problema das intermitências diárias, mas é sazonal. A eletricidade está mais cara na Europa, este ano, e um dos problemas foi que no verão e no outono, em toda a fachada Atlântica, houve menos vento, inclusive em Portugal. E aqui há o problema de que não temos tanta água e não podemos turbinar para gerar energia elétrica. Mas penso que não se justifica a energia nuclear, cada país tem a sua cultura, a nossa é de rejeição. Há países que têm apostado nisso e temos o exemplo da França, sem nada a apontar, em termos de segurança.

Existe uma forma de energia que continua em fase de investigação e de construção de protótipo, que é a fusão nuclear, não a fissão. Há um grande projeto europeu, em que Portugal participa, que é o ITER, o qual pretende que se consiga produzir energia a partir da fusão nuclear, que é no fundo o que se passa no sol. Temos de ter presente que a vida existe porque o sol e todas as outras estrelas são reatores nucleares de fusão, mas imitar o sol na terra é uma coisa que não é fácil…

 

Os jovens têm liderado a luta contra as alterações climáticas. É possível dizer-lhes que podem ter esperança?

Eu penso que sim. Não gosto de otimismo, pessimismo, é uma questão de ser realista e todas as gerações têm um projeto, algo novo a dizer. Isso repete-se, cada geração tem uma visão diferente e está convencida de que ela pode frutificar. Acho que podem ter esperança.

 

 

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