Vaticano aprova iniciativas inter-religiosas em Fátima

Bispo de Leiria-Fátima falou de uma «liga dos inimigos de Fátima» O Santuário de Fátima assegurou hoje que o Vaticano estava a par de tudo o que aconteceu no Congresso “O presente do homem, o futuro de Deus. O lugar dos santuários na relação com o sagrado”, realizado em Outubro de 2003, onde estiveram presentes vários líderes religiosos de todo o mundo, e aprova as iniciativas de abertura ao diálogo inter-religioso. Na apresentação, em conferência de imprensa, das actas integrais do Congresso foi revelado um texto assinado pelo presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso incluído nesse livro. “É óbvio que um Santuário como Fátima, fundado numa experiência de fé, tem de estar aberto a todos os tipos de pessoas”, refere o Arcebispo D. Michael Fitzgerald, numa análise pessoal do Congresso. O Pe. Anacleto de Oliveira, da Comissão Científica do Congresso, recordou que esta iniciativa do Santuário de Fátima contou com a colaboração da Faculdade de Teologia da UCP na escolha dos temas e que o próprio Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso ajudou a indicar alguns dos conferencistas, através do subsecretário do Dicastério. “Para escolher alguns conferencistas, deslocamo-nos de propósito a Roma para pedir ajuda”, disse aos jornalistas. Várias manifestações de desagrado, que falam em “profanação” e “blasfémia”, começaram desde que se realizou em Fátima este Congresso sobre santuários e religiões, de 10 a 12 Outubro de 2003. As tensões aumentaram com a recente vinda de um grupo de hindus ao Santuário. D. Serafim Ferreira e Silva, Bispo de Leiria-Fátima, considerou que esta agitação foi provocada por “uma liga de inimigos de Fátima”. “Há várias ligas dos inimigos de Fátima e que já são velhas. Alguns estão na área científica ou pseudo-científica e outros estão na área do adro da igreja, ou seja afirmam-se católicos”, afirmou o prelado, que lamenta o “fundamentalismo” de muitos crentes. “O atrito é quase inevitável, o conflito é que é evitável se houver seriedade, busca da verdade e serenidade”, atirou em conferência de imprensa. “As vozes que vieram do estrangeiro, sobretudo do Canadá, só precisaram de arranjar pretextos, mesmo de ontem. O Bispo tem toda a confiança no Reitor e tem a confiança do seu superior hierárquico”, assinalou o prelado. “Tenho instruções pessoais do Santo Padre, mesmo neste campo. Eu procuro ser fiel e a fidelidade é um compromisso”, insistiu. D. Serafim Ferreira e Silva fez questão de sublinhar, várias vezes, a sua “confiança” e “apoio” na equipa sacerdotal do Santuário de Fátima. O presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, D. Michael Fitzgerald, esteve em Fátima durante esses dias, altura em que defendeu que a acção do Papa João Paulo II a favor do diálogo e da abertura da Igreja Católica a outras religiões “deve ser vista como um exemplo para todos”. O metropolita Epiphanios, do Patriarcado Ortodoxo de Constantinopla, Rusmir Mahmutcehajic, presidente do Fórum Internacional Bósnia e Taka Fukushima, monge budista japonês, foram alguns dos que se quiseram juntar a esta reflexão e testemunhar a importância de se evitar tomar a religião como ideologia, “o que levou à arrogância e ao desejo de submeter o outro”. O Pe. Anacleto Oliveira reconheceu que “sabíamos que o tema poderia gerar polémica, porque não é unânime. Por isso não trabalhámos sozinhos e procurámos estar em sintonia com instâncias oficiais da Igreja, sobretudo com o contacto permanente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso”. “Tivemos aqui a pessoa autorizada pelo Papa para discutir estes temas”, frisou. Para D. Serafim, faz parte da missão do Santuário de Fátima “ajudar a pensar, promover um casamento entre o culto e a cultura”. Segundo os defensores de posições mais conservadoras, expostas em importantes sítios Web católicos internacionais, o que está em causa é a intenção de abrir definitivamente o Santuário a outras religiões, como um centro inter-religioso, algo que nunca foi assumido por nenhum dos seus responsáveis. Ainda hoje, o Bispo de Leiria-Fátima desmentiu que o Santuário de Fátima venha a deixar de ser Católico. “O Santuário de Fátima é um centro católico, mariano, e já o disse aos peregrinos. No início da Peregrinação Aniversária de hoje vou voltar a ler aos peregrinos um resumo sobre estas questões”, revelou. Explicações D. Serafim Ferreira e Silva referiu que “o Congresso de Outubro, de há um ano atrás, foi preparado durante muito tempo, com a UCP, para apresentar de forma científica uma reflexão sobre o homem de hoje e a imagem de Deus”. “O título, propositadamente, foi polémico. No decurso do Congresso, notámos forças mandatadas por grupos, com fins provocatórios”, revelou. O representante da Comissão Científica do Congresso confirmou que o Vaticano pediu explicações, mas desdramatizou a situação. “Nós sabemos que por detrás desse pedido de explicações estarão concepções diferentes sobre este tema”, disse o Pe. Anacleto Oliveira. “Antes dele se realizar já havia contestação, em vários artigos de opinião e na imprensa. Durante o Congresso, houve grupos que contestaram a iniciativa e depois, é evidente que a intervenção de um teólogo (Jacques Dupuis, ndr) que tinha tido algumas dificuldades com a Congregação para a Doutrina da Fé. Houve uma outra reacção negativa, não tanto pelo conteúdo, mas pela presença dessa pessoa”, assegurou. A questão levantada à volta de Fátima aparece, de facto, como um acontecimento fora de tempo e de sinal contrário a toda a acção de João Paulo II, que num esforço religioso e diplomático reconhecido por todos tem procurado mostrar que o caminho para a paz é o da maturidade humana e espiritual, que conduz ao diálogo e evita o tão temido “choque de civilizações”. O Papa, que entrou em sinagogas e mesquitas, sabe que a guerra é provocada pela falta de respeito à cultura, à religião, à liberdade legítima do outro, e tem vindo a abrir a Igreja Católica ao diálogo com as outras religiões, de uma forma que até, muitas vezes, não é recíproca. A campanha de contestação foi liderada pela revista Fatima Crusader (O Cruzado de Fátima) o maior periódico do mundo dedicado à Mensagem de Fátima, ligada às posições do padre canadiano Gruner, conhecido pela defesa de valores tradicionais. A campanha agressiva contra o Bispo de Leiria-Fátima e o Reitor do Santuário espalhou milhões de mensagens na Internet, criticando as intenções supostamente “panreligiosas” dos mesmos. D. Serafim Ferreira e Silva criticou hoje “as vozes do estrangeiro, sobretudo do Canadá”, vincando que, estando a chegar ao final do seu mandato por limite de idade, está de consciência tranquila “porque me dediquei de alma e coração à minha Diocese”.

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