Há quem tenha chamado aos blogues “uma espécie de diários virtuais”. Com a expressão pretendia sublinhar-se um certo carácter intimista, subjectivo e estritamente pessoal dos conteúdos “postados”. Mas um blogue não é um diário. Ou pelo menos a esmagadora maioria escapa a essa categoria. E escapa porque um blogue tem uma diferença fundamental em relação ao diário: este escreve-se, normalmente, como uma reflexão introspectiva, supondo mesmo que não vai existir mais ninguém, além do autor, a ler aquelas linhas; o blogue, pelo contrário, supõe outros leitores, é escrito para eles, mesmo quando assume um tom intimista e subjectivo. O autor de um blogue assume que tem alguma coisa para dizer a outros, sejam as mais eruditas reflexões, sejam banalíssimas considerações pessoais, notas de humor ou viagens por estados de alma. Há uma vontade de partilha, de dizer e/ou de dizer-se. Por outro lado, o bloguista (ou blogger, se preferirem) é alguém que, normalmente, tem gosto em procurar outros que façam o mesmo exercício. Sinal desta vontade de encontro, é o hábito de grande parte dos autores de blogues colocarem, no seu próprio blogue, uma listagem de outros e serem abundantes as referências a conteúdos de outros. Desta forma, os blogues acabam por transformar-se, com muita frequência, em formas de participação em “tertúlias virtuais”, onde se vão debatendo opiniões, propondo pistas de interpretação ou simples desabafos. A este propósito, já se falou de uma certa democratização da opinião publicada, na medida em que, qualquer pessoa, mesmo não tendo acesso às tribunas oferecidas pelos tradicionais meios de comunicação, pode colocar on-line o que tem para dizer, com toda a liberdade e sem limitações de qualquer espécie, a não ser as que a própria consciência lhe ditar. Mas o mundo virtual acaba por funcionar como o mundo real. A seguir à explosão bloguista que se verificou até há uns meses atrás, com milhares de portugueses a lançarem blogues no ciber-espaço, começa a verificar-se um processo de selecção natural. Muitos desaparecerão e poucos se constituirão em referências. Mas isso é normal e não impede que os blogues possam continuar a ser aquilo que melhor os define: manifestações importantes da liberdade de pensamento e de opinião. Manuel Vieira
