Palestina: «Igreja Católica tem uma palavra a dizer» sobre os «conflitos em todo o mundo» – Ministra Negócios Estrangeiros

Varsen Aghabekian Shahim encontrou-se com presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, e relembrou que pedem «direito à autodeterminação»

Foto Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 14 set 2026 (Ecclesia) – A ministra dos Negócios Estrangeiros da Palestina, Varsen Aghabekian Shahim, encontrou-se hoje com o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a quem afirmou que a Igreja tem uma “palavra a dizer” sobre os conflitos no mundo.

“A Igreja Católica tem uma palavra a dizer quando se trata de conflitos em todo o mundo e, mais especificamente, quando o conflito se passa na Terra Santa, berço do cristianismo e da ressurreição. Como tal, a Igreja e os cristãos de todo o mundo devem estar preocupados com o que está a acontecer aos palestinianos e aos cristãos na Palestina”, afirmou à Agência ECCLESIA.

A responsável descreve a situação como “bastante catastrófica, quer na Faixa de Gaza, quer na Cisjordânia” e afirma ser necessária “ajuda humanitária para Gaza” perante “o aumento e a escalada do terrorismo dos colonos”, uma situação “inadmissível”.

Varsen Aghabekian Shahim sublinha o trabalho que as organizações cristãs desenvolvem no terreno.

Na Palestina temos quase 300 organizações cristãs afiliadas a Igrejas ou apoiadas diretamente por estas. Estas organizações precisam de ser mantidas, e podem apoiá-las financeiramente, podem prestar apoio em espécie, podem defende-las face à tributação por parte das autoridades israelitas, podem realizar intercâmbios com universidades cristãs ou outras instituições palestinianas, podem enviar pessoas ao terreno para ver o que se passa.”

Varsen Shahim fala numa “geração afetada” a quem é “negado o direito à educação”.

“A educação é imprescindível porque há muitas escolas cristãs, e hoje em dia estas escolas enfrentam grandes dificuldades no território ocupado. As escolas não deram início ao ano letivo porque a maioria dos professores foi impedida de entrar em Jerusalém, e a maioria dos professores dessas escolas é da Cisjordânia; se não conseguem aceder a Jerusalém, não há ninguém para dar aulas. E estas escolas ensinam cerca de 10 mil alunos, pelo que se trata de uma questão de direitos humanos. Temos 10 mil alunos a quem foi negado o acesso à escolaridade até agora este ano”, sublinha.

Foto: Agência ECCLESIA/MC

A deslocação da ministra dos Negócios Estrangeiros da Palestina acontece a convite do homólogo português, Paulo Rangel, assinalando o primeiro aniversário do reconhecimento pela República Portuguesa do Estado da Palestina, a 21 de setembro de 2025.

“O reconhecimento não é simbólico. Há muito apoio por parte de Portugal nos fóruns internacionais, na ONU, nas organizações de direitos humanos. Recentemente, Portugal confirmou o que constava na declaração dos 12 países que afirmaram que «já basta», e que vamos começar a aplicar algum tipo de sanções, confirmando a ilegalidade desta ocupação”, regista.

“Portugal reconheceu a situação numa altura difícil e está a apoiar a causa dos palestinianos, querendo forjar a paz, pois essa paz é boa para os palestinianos, é boa para os israelitas, é boa para a região e é boa para o mundo”, valorizou.

Varsen Shahim reconhece as palavras do Papa Leão XIV, que pede que se caminhe para a solução de dois Estados, para o conflito entre Israel e Palestina, como uma “esperança que se infunde no povo palestino” e recorda a presença histórica dos cristãos no território ocupado.

O cristianismo está a enfraquecer, a diminuir de dia para dia. Temos de nos alarmar com isso. Não podemos ter uma Terra Santa ou um território ocupado desprovido da população cristã. A Igreja precisa de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar os cristãos, enquanto parte da população palestiniana, a permanecerem firmes no seu país.”

A ministra dos Negócios Estrangeiros diz que a Palestina “pede o direito à autodeterminação”.

“Não pedimos nada que vá além do direito internacional nem nada que fique aquém dele. O nosso foco é o direito internacional”, aponta.

O encontro foi acompanhado pela embaixadora da Palestina em Portugal, Rawan Sulaiman.

LS

O presidente da CEP sustentou que a situação que os palestinianos vivem mostra um dos “mais graves problemas da humanidade”.

“Estamos no epicentro de um dos mais graves problemas que está a viver a humanidade. Há milhões de pessoas que estão numa situação de sofrimento e que, naturalmente, a grandíssima parte delas não tem culpa absolutamente nenhuma daquilo que, porventura, alguns grupos terroristas, radicais, acabam por realizar”, afirmou D. Virgílio Antunes à Agência ECCLESIA.

“É um sinal de que estamos com os que sofrem, de que estamos desejosos de ver reconstruída a paz, as relações entre os povos, como tem sido o apelo constante da Igreja, tanto aqui ao nosso nível, como, sobretudo, na voz do Santo Padre”, acrescentou, na sede da CEP, em Lisboa.

O responsável indicou a “força da solidariedade humana” que os cristãos podem desenvolver ajudando a população “em situação de debilidade”.

“A Igreja portuguesa tem feito algum esforço no sentido de ajudar as comunidades cristãs e todos aqueles que estão em situação de debilidade, a encontrarem, às vezes, um pequenino oásis, que pode ser a comida, pode ser a água, podem ser alguns cuidados de saúde, pode ser a própria possibilidade da liberdade religiosa, que é uma questão fundamental. Temos esta solidariedade profunda que o povo português sente, e que os cristãos e os católicos em Portugal também sentem, e têm manifestado isso de muitas e diversas formas”, recordou o bispo de Coimbra.

O presidente da CEP recordou a proximidade com o patriarca Latino de Jerusalém, uma voz “isenta e livre, que Portugal deve procurar”, para “perceber a situação” atual, fala num “diálogo privilegiado”, fundado na “fraternidade da Igreja Católica” e reconhece a “influência e importância” do cardeal Pierbattista Pizzaballa, apesar das “dificuldades” sentidas “na relação com os Estados e com forças políticas”.

“Temos a obrigação de estar atentos àquilo que se passa e de reconhecer os problemas que estas populações estão a viver. E isso está acima de todas as políticas, está acima de todas as religiões, está acima de todas as questões que possamos criar uns aos outros”, indicou.

D. Virgílio Antunes deu conta da cooperação internacional desenvolvida pela Igreja católica com “peso na área da educação, da saúde, também da alimentação”.

“Penso que podemos ter condições para reforçar. Nós temos agido bastante através das Cáritas Diocesanas e da Cáritas Portuguesa. Quem sabe, se não poderá haver outras instituições, tanto universitárias como de ensino, como particulares, privadas e públicas, que possam continuar a fazer uma cooperação mais direta, mais próxima e mais visível com estas pessoas que estão na situação que todos nós conhecemos”, explicou.

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