Saúde Mental: Vítor Cotovio alerta número de suicídios é superior ao «impacto dos acidentes de viação»

Psicoterapeuta destaca importância do acompanhamento, de «criar laços», e da «resposta padronizada» da inteligência artificial

Lisboa, 10 set 2026 (Ecclesia) – O psicoterapeuta Vítor Cotovio afirmou-se preocupado com a perda do “registo comunitário” na sociedade, no âmbito do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio (10 de setembro), alertando que se “morre mais por suicídio” do que em acidentes de viação.

“Estamos sempre a falar do impacto dos acidentes de viação, e bem, mas ter a noção que se morre mais por suicídio, que é uma coisa que, às vezes, as pessoas não têm perceção”, disse o diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal, instituição dos Irmãos de São João de Deus, em entrevista emitida hoje, à Agência ECCLESIA.

Vítor Cotovio revelou preocupação que “como sociedade” não se perca “o registo comunitário”, aquilo pode ser um ‘kit de Saúde Mental’, que, segundo o psicoterapeuta, “tem uns ‘P’: a pertença, a partilha, a participação e a prudência”.

“Partilha o que é que é? São histórias, identidades, sentido. Nós precisamos de partilhar histórias para dar significado, para saber que não estamos sozinhos no mundo”, explicou, questionando como é que se garante, para além da pertença, quando andam “todos a correr”, e podem-se esquecer que “o ser humano não vive sem pertença”.

‘Mudando a Narrativa sobre o Suicídio’, com o tópico ‘Comece a Conversa’, é o tema trienal 2024-2026 para o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, que se assinala a 10 de setembro, organizado pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP), com a Organização Mundial de Saúde (OMS) da ONU.

Foto de Noah Silliman em Unsplash

Para o diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal é preciso garantir que “as pessoas têm lugares de escuta”, tenham pessoas para “as ouvir na angústia e no seu sofrimento”, porque senão tiverem vivem com essas ideias dentro delas “até que as possam eventualmente consumar”.

A OMS (Nações Unidas) contabilizou que mais de 720 mil pessoas se suicidam anualmente em todo o mundo, e é a quarta maior causa de morte nos jovens entre os 15 e os 29 anos.

Segundo Vítor Cotovio “é complexo” resgatar um jovem de 15 ou 16 anos porque “inclusive ele pode estar sozinho no quarto dentro desse processo”, nas redes sociais, “a partilhar com os Chat GPT coisas bizarras” que lhe dá uma resposta padronizada “e ele acha que está a ser entendido, e aquilo pode resultar mal”.

“Neste mundo atual, estar sozinho, num sofrimento, com acesso a explicações desafetadas acerca do seu sofrimento, e com respostas algorítmicas não é propriamente o melhor caminho. E, portanto, senão são pais, são amigos, quem é que são as figuras significativas destes jovens, e como é que estes jovens não se estão a isolar?”

O psicoterapeuta observa que se esses jovens estão a se isolar, “não estão a ter o mesmo desempenho, não estão a ter atividades lúdicas e desinvestiram”, se eles estão deslaçados e desinvestidos em termos de projeção, já estão “na zona de risco”.

“A preocupação é como é que nós ajudamos a criar laços ou resgatar ou recuperar laços, sejam eles quais forem: sejam dentro da Igreja, sejam eles no espaço psicoterapêutico, sejam eles nos grupos de jovens onde a Igreja tem um papel fundamental”, acrescentou, realçando que a dimensão comunitária é essencial “em qualquer contexto”.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

O diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal, da Ordem Hospitaleiras dos Irmãos de São João de Deus, salientou que a Pastoral da Saúde e a Pastoral dos Jovens têm “uma dimensão muito importante a desempenhar”, e é necessário existir essa sensibilidade, porque, “no fundo, é um lugar que pertence e que partilha”.

A entrevista a Vítor Cotovio, que começou com as memórias de querer “ser varredor de ruas” aos 4 ou 5 anos, e depois engenheiro eletrotécnico, até aos ambientes que definem o percurso de vida do psiquiatra e psicoterapeuta, a atenção que coloca nos outros, a saúde mental e a sociedade, foi emitida no Programa ECCLESIA na RTP Antena 1, pouco depois da meia-noite desta quinta-feira, e pode ser escutada na íntegra no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

LS/PR/CB/OC

 

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