Sociedade: Vítor Cotovio afirma importância da virtude da «gentileza», que «pode ajudar à saúde mental das pessoas»

Após o curso de Medicina, fez o internato de Psiquiatria, para «compreender o menos compreensível e a relação com as pessoas», a ideia que o acompanhava «desde sempre e tinha subjacente»

Foto: Agência ECCLESIA/LJ

Lisboa, 09 set 2026 (Ecclesia) – O diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus (OHSJD), afirmou que o ser humano tem a “necessidade de partilhar”, destacou a importância da “gentileza”, da escuta, e o “grande desafio” da tecnologia.

“O ser humano sempre tem essa necessidade de partilhar. Veja a pandemia e veja a necessidade, foram muito importantes as tecnologias, a possibilidade de, através das tecnologias, conseguir criar um sentimento de pertença, mas as pessoas estavam desejosas depois do contacto”, disse o médico psiquiatra Vítor Cotovio, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O psicoterapeuta lembra que quando a pandemia acabou as pessoas “não ficaram em casa só porque tinham acesso” a esses meios tecnológicos, mas “precisavam da comunicação, daquilo que é ativar os neurónios-espelho”.

“É um grande desafio. Nós temos que ter humildade e um discernimento, se quiser, de não diabolizar os avanços tecnológicos, mas com a prudência, que é uma virtude aristotélica que gosto bastante, tentar ter as atitudes mais adequadas em função da leitura das circunstâncias, e não ser às tantas atropelado por tudo, e deixarmos de pensar com sentido crítico”, desenvolveu.

Vítor Cotovio salienta que a filósofa espanhola Marina Garcés diz que “a grande utopia” seria viver “num mundo inteligente com pessoas estúpidas”, e explica que é importante perceber que “a inteligência artificial não representa emoções reais”.

“Não vai chorar, não vai arrepiar da pele, não vai ficar vermelha”, acrescenta.

O médico-psiquiatra que em casa teve “essencialmente o exemplo”, filho de um militar da GNR e a “mãe um registo muito sereno, uma mulher paciente”, assistiu a uma comunicação que “tornava as coisas mais leves e tornava a preocupação com o outro muito central”.

“Eu costumo dizer que há acima de virtudes radicais, três virtudes radicais civilizacionais, que são esta coisa da exemplaridade, da ética e da esperança, que estão um bocadinho contracorrente ao mundo atual, e que nós devíamos resgatar”, explicou.

Neste sentido, Vítor Cotovio também assinalou que existem “três virtudes relacionais estéticas muito interessantes”, que são “a gentileza, a generosidade e a gratidão”.

Porque é que nós não somos mais gentis às vezes uns com os outros? Parece uma virtude de somenos, gentileza, não, é uma virtude muito importante e pode ajudar à saúde mental das pessoas.”

Segundo o especialista, os lugares de escuta no crescimento “são fundamentais”, e lembra que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han identifica que se vive “numa sociedade de cansaço, mas também numa época pós-narrativa”, isto é, “uma crise de metáforas”.

“Porque há muito ‘scroll’, muitos ‘likes’ (‘gostos’), vivemos de impulso, perdemos um bocadinho esta relação entre aquilo que eu costumo dizer, que é resgatar o pensar-sentir e o sentir-pensar; a narrativa é muito importante, porque a escuta e a espera, ele diz que corremos o risco de viver numa sociedade sem espera, sem escuta e sem mistério, com perda de identidade”, desenvolveu.

Vítor Cotovio referiu que também há alturas que percebem que a pessoa precisa de um acompanhamento espiritual, e já fez esse encaminhamento, “há virtudes teologais que cruzam com as virtudes psicoterapêuticas”, como “o perdão, a compaixão, a esperança”.

O diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal, dos Irmãos de São João de Deus, recorda que quando acabou o Curso de Medicina fez o internato de psiquiatria, porque acompanhava-o a ideia, “desde sempre e tinha subjacente”, de “compreender o menos compreensível e a relação com as pessoas”.

Com 4 ou 5 anos de idade, o entrevistado “queria ser varredor de rua, achava aquilo fascinante”, quando os via “descontraídos a varrer”, depois, com um tio da área da mecânica, pensou ser engenheiro eletrotécnico, mas entrou para a Medicina “já com a vontade da psiquiatria”.

A entrevista a Vítor Cotovio pode ser escutada no Programa ECCLESIA emitido na RTP Antena 1, pouco depois da meia-noite desta quinta-feira, 10 de setembro, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, e vai ficar disponível na íntegra no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

LS/PR/CB/OC

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