Clero: Sacerdotes rejeitam estatuto de «super-heróis» e pedem partilha de responsabilidades

11.º Simpósio Nacional destacou a urgência de combater o isolamento dos padres e de trabalhar com equipas multidisciplinares

Foto Agência ECCLESIA/HM

Fátima, 03 set 2026 (Ecclesia) – O 11.º Simpósio Nacional do Clero concluiu-se hoje, em Fátima, com um apelo à reestruturação da missão dos padres em Portugal, assinalando a urgência de combater o isolamento e promover a corresponsabilidade nas comunidades católicas.

“Somos humanos, somos ministros, somos servidores, não somos super-heróis”, advertiu o reitor do Seminário de São José da Diocese do Algarve, padre António de Freitas, em declarações à Agência ECCLESIA.

O sacerdote algarvio denunciou o desgaste provocado pela acumulação de tarefas administrativas e de gestão, defendendo a delegação destas funções em leigos com competência técnica para que os padres se concentrem no “essencial” do seu ministério.

O relatório de síntese dos grupos de trabalho, divulgado esta manhã, acompanhou estas apreensões, identificando como prioridades o combate à solidão, o estabelecimento de maior proximidade com os bispos e a criação de equipas multidisciplinares que auxiliem os párocos em casos de sofrimento complexo e de saúde mental.

Foto Agência ECCLESIA/HM

O documento estrutural sublinha ainda o valor primordial do encontro físico nas paróquias, alertando para os riscos de saturação e de despersonalização inerentes ao excesso de comunicação digital.

“Vejo um isolamento e um afastamento muito grande entre nós, sacerdotes”, relatou à Agência ECCLESIA o padre António Carlos, da Arquidiocese de Évora, exemplificando a dureza da solidão nas aldeias desertificadas do interior alentejano.

O pároco observou que o desafio é acentuado por se tratar de comunidades com “pessoas já muito antigas, idosas, que no fundo exigem muito”, apelando a que a fraternidade presbiteral deixe as “palavras e papéis” para passar “à prática”.

O padre António Almiro Mendes, da Diocese do Porto, descreveu a dureza do sacerdócio atual, lamentando que os clérigos giram a sua vida “em grandes solidões, em trabalho desmesurado, que esmagam”.

“Nós não nascemos acabados, nós nascemos para nos construirmos”, evidenciou o pároco nortenho, exortando a assembleia a agarrar-se a Cristo para garantir um crescimento assente na edificação de um “humano bom”.

A integração comunitária ditou a perspetiva do padre Vítor Mira, da Diocese de Leiria-Fátima, que evocou a consciência sinodal no seu depoimento a esta agência ao sublinhar que “a missão não é só do padre, é de todos os batizados”.

“Somos vasos de barro, mas que levamos em nós um tesouro”, sustentou o entrevistado, alertando para o risco de se impor logo a doutrina sem “escutar” e “acolher as pessoas” num “mundo ferido”.

A 11ª edição do Simpósio do Clero de Portugal decorreu desde segunda-feira, no Centro Paulo VI, em Fátima, desenvolvendo o tema ‘Irmãos no sacerdócio e testemunhas do Evangelho’.

HM/OC

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