Nenhuma estrela faz crescer trigo!

Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Reparem no mapa. Rocafonda. Los Palacios y Villafranca. Foios. Haro. Parece a lista das paragens de um autocarro que ninguém apanha. E é, mais ou menos, isso: sítios que não estão em nenhum roteiro. bairros construídos em terrenos agrícolas nos anos 60 para acolher quem chegava sem nada, aldeias de sete mil almas na horta de Valência. Foios, um quintal nos arredores de Valência onde um miúdo fintava os cães da família. Ferran Torres passou a infância a fintar o cão da família num quintal em Foios. Aos doze anos cresceu doze centímetros num verão e deixou de conseguir controlar a bola — caía a correr, pensou que estava tudo acabado. Depois vieram os 55 milhões do Barcelona, a pressão, e aquilo a que ele chamou o «poço sem fundo». Foi ao psicólogo. Contou-o em voz alta. Tatuou «I refuse to sink» ao lado da âncora igual à da irmã.

Marcou o golo da final. E disse: «o golo foi de 47 milhões de pessoas, não foi meu».

Guardem essa frase. Vamos precisar dela.Ponham-na ao lado de qualquer legenda de influenciador — incluindo, dói-me dizê-lo, de certos influenciadores cristãos leigos e clérigos.

Rocafonda, bairro operário de Mataró, feito de migrações e contentores. Lamine Yamal, quando marca, faz com as mãos o 304 — o código postal de Rocafonda, Mataró. E uma mãe ganesa que atravessou meio mundo até ao País Basco com dois filhos pequenos e uma mala que não era de cabine. Nico e Iñaki Williams são filhos de uma mulher que veio do Gana com o marido e atravessou meio mundo para que eles pudessem nascer com passaporte e escola. Ela lavou o que havia para lavar. Eles jogam descalços de vaidade.

Nada disto devia dar campeões do mundo. Deu!

E deu porque houve um homem de Haro — La Rioja, essa terra de que ninguém se lembra —, filho de um marinheiro da marinha mercante, que disse uma coisa escandalosa para os padrões do nosso tempo, que devia estar afixada em cada sacristia deste país: «Quando seleciono um jogador, exijo que seja boa pessoa.» Boa pessoa. E boa pessoa, no futebol, é ser solidário, generoso, trabalhar em equipa com capacidade de sofrimento, pondo o grupo à frente do indivíduo». Não pedia métricas. Não pedia seguidores. Pedia generosidade, capacidade de sofrimento, o grupo antes do eu! Não é bonito. É exigente. É outra coisa.

Luis de la Fuente não dança, nem joga futebol no TikTok. E ganhou um Mundial!

Agora comparem isto com o que se passa nos nossos ecrãs — e, sim, também nos católicos. Há uma nova doença de que quase ninguém fala com o nome certo: o populismo católico: influenciadores católicos com anel de luz, coreografias, receitas, humor leve, tudo medido em visualizações. Este clericalismo clerical e laical faz dos Reels o seu ambão.

Mudou o cenário, não mudou o pecado. Porque é aqui que quero chegar. Li há dias, no Sete Margens, sobre o «populismo eclesiástico»: padres com aro de luz, ministério gerido como marca pessoal, a felicidade encenada em Reels, a aprovação social a substituir devagarinho a verdade do Evangelho.

E há uma imagem que me ajuda a pensar isto. Na astronomia, medimos tudo em unidades solares — massa solar, luminosidade solar. E depois passamos a vida deslumbrados com estrelas distantes, a achar que o Sol devia brilhar como elas. Mas nenhuma dessas estrelas aquece a terra onde vivemos. Nenhuma faz crescer o trigo. A vida não depende das estrelas em geral. Depende do Sol.

Toda a vida cristã no digital se resolve nesta distinção. Podes ser estrela — brilhante, distante, inútil. Ou podes ser planeta — e então tens de admitir que não és a fonte da luz.

Uma Igreja de estrelas isoladas produz números onde cada uma brilha para o seu público. É um céu bonito e estéril! Uma comunidade que aponta tudo para o Sol — que não é o padre, não é o influencer, não é o carisma de ninguém, é Cristo — essa dá fruto. Mesmo sem viralizar.

A seleção espanhola percebeu isto sem precisar de teologia. Lamine Yamal celebra com o código postal de Rocafonda porque sabe de onde vem. Nico Williams joga por uma mãe que atravessou o deserto. Ferran devolve o golo a 47 milhões. E nós, quando marcamos, apontamos para onde?

Ninguém acima da equipa. Ninguém a fingir que a luz é sua.

Trabalho sério, sem estridência, com metas grandes. Chamem-lhe modelo espanhol. Eu chamo-lhe outra coisa: um modelo cristão de estar no mundo — e no digital.

A pergunta que fica é simples. Quando publicamos, quando pregamos, quando aparecemos: estamos a apontar para o Sol, ou só a pedir que olhem para a nossa pequena estrela, tão longínqua que não aquece ninguém?

O Sol não precisa de gostos! Precisa que a terra se deixe aquecer!

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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