República de São Marino: «Promover a liberdade implica defender os espaços da consciência», afirma o Papa, em encontro com os capitães-regentes

Em visita pastoral, Papa exortou pequeno Estado europeu a ser «laboratório de boa política» e destacou o cuidado com o outro como uma marca desta geografia

Foto: Vatican Media

República de São Marino, 22 ago 2026 (Ecclesia) – O Papa Leão XIV afirmou hoje que “promover a liberdade implica defender os espaços de consciência”, no encontro com os capitães-regentes da República de São Marino, na visita que realiza esta manhã ao pequeno Estado europeu, no norte de Itália.

“Não existe verdadeira liberdade civil sem liberdade pessoal, ou seja, sem o respeito e a promoção da dignidade da pessoa humana, da qual a liberdade é uma componente essencial. Esta liberdade é concedida e garantida, em última análise, por Deus, cuja voz ressoa na consciência de cada ser humano”, referiu, no discurso proferido na Sala do Conselho Grande e Geral, perante autoridades e sociedade civil.

A visita de Leão XIV à República de São Marino segue-se às deslocações de São João Paulo II, em 1982, e de Bento XVI, e surge em resposta ao convite oficial formulado pelos antigos capitães-regentes Matteo Rossi e Lorenzo Bugli.

No discurso, o Papa lembrou os “muitos homens e mulheres que, em todas as épocas e em todos os lugares, são mártires da liberdade porque testemunham precisamente o primado da consciência”.

“Ainda hoje, em muitas partes do mundo, não faltam pessoas que permanecem fiéis à sua consciência mesmo em contextos de grande adversidade, testemunhas da verdadeira liberdade, aquela que deriva do facto de serem filhos e filhas de Deus”, lembrou.

“Com admiração, expressamos a nossa solidariedade para com todos aqueles que, neste momento, pagam pessoalmente por não terem traído a sua consciência”, mencionou.

O Papa destacou que, além disso, “a liberdade concretiza-se na doação, na comunhão, no encontro e no diálogo”, recorrendo à imagem de “uma planta que cresce e produz ramos e folhas para oferecer a todos oxigénio, sombra, perfume, frutos e novas sementes”.

“E como poderia ser de outra forma, uma vez que brota da fonte que é o Amor Uno e Trino? Esta referência teológica pode talvez parecer excessiva, mas creio que hoje é necessária, face à idolatria que corrompe na raiz aqueles projetos políticos e económicos que se apresentam em nome da liberdade, mas que, na realidade, são escravos dos ídolos e do poder”, realçou.

Leão XIV evocou que “na visão cristã, a liberdade e a comunhão estão ligadas: ou perdem-se juntas ou mantêm-se juntas”.

Foto: Vatican Media

A intervenção do Papa centrou-se no lema “Libertas” (liberdade), síntese do testamento espiritual do fundador da República de São Marino, ressaltando-a como uma palavra com profundidade.

“No contexto da história de um povo e de um Estado, ela expressa certamente a aspiração à autodeterminação, a não depender de outras autoridades políticas”, disse, acrescentando, mais à frente, que significa também um compromisso inabalável de participação ativa e positiva na construção da paz.

“Relativamente a este aspeto, manifesto o meu profundo apreço e encontro uma especial sintonia com a postura da Santa Sé. Por isso, partilhamos a estima pela diplomacia e pelo multilateralismo, enquanto vias privilegiadas para cultivar as relações internacionais e promover o entendimento entre as nações”, indicou.

O discurso de Leão XIV sublinhou também “o valor peculiar de um pequeno Estado”, “onde é possível experimentar a proximidade da política às necessidades dos cidadãos e, por conseguinte, uma democracia mais eficaz, tanto mais se for também animada pela inspiração cristã”.

“Por isso, a República de São Marino pode ser um ‘laboratório’ de boa política, onde, sem derrogar o carácter laico do Estado, é possível recorrer aos princípios da doutrina social católica: a busca do bem comum, a destinação universal dos bens, a harmonia entre subsidiariedade e solidariedade, a justiça social”, defendeu.

O pontífice ressaltou que “este empenho afigura-se hoje ainda mais valioso, num momento em que o Acordo de Associação com a União Europeia está prestes a entrar em vigor” e a República de São Marino “se verá a relacionar-se de forma estável, ainda que de modo peculiar, com uma realidade complexa”, que poderá beneficiar grandemente a sua contribuição.

O Papa aludiu ainda ao “cuidado com o outro” que tem sido uma “característica distintiva da história de São Marino desde os seus primórdios”, evocando o “acolhimento, que nunca falhou ao longo dos séculos para com aqueles que sofrem e se encontram em dificuldades”.

“Recentemente, manifestou-se através do apoio e da hospitalidade prestados ao povo ucraniano, especialmente no início do conflito, bem como no empenho em prol do direito internacional humanitário, num momento histórico em que este parece ser diariamente desrespeitado, se não mesmo pisado”, recordou.

Foto: Vatican Media

Depois da troca de presentes com os capitães-regentes de São Marino, Alice Mina e Vladimiro Selva, o Papa apareceu na varanda central do Palácio Público para uma breve saudação e a bênção aos presentes na praça.

“Agradeço-vos sinceramente pelo acolhimento, neste dia maravilhoso! Estou verdadeiramente feliz por estar aqui convosco, por vos saudar e por desfrutar da beleza, da história, da tradição e da fé deste grande povo de São Marinho”, disse.

“Os meus melhores votos para vós: que vivam sempre com verdadeira liberdade, com a verdadeira liberdade em Cristo Jesus, com a verdade, e que estejam sempre unidos neste espírito acolhedor. Os meus melhores votos para todos!”, concluiu.

O Papa seguiu depois a pé para a Basílica de São Marino para o encontro com a comunidade eclesial.

O Papa aterrou hoje de helicóptero no Aeroporto de Toraccia da República de São Marino às 8h45 locais (menos uma hora em Lisboa), depois de menos de uma hora de voo.

À tarde, Leão XIV desloca-se até à cidade italiana de Rimini, onde participa no ‘Meeting’ promovido pelo movimento Comunhão e Libertação.

Desde que foi eleito, a 8 de maio de 2025, o Papa já visitou a Espanha (06-12 de junho de 2026); Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13-23 de abril de 2026); o Mónaco (28 de março de 2026); e a Turquia e o Líbano, com peregrinação a İznik por ocasião do 1700º aniversário do I Concílio de Niceia (27 de novembro-02 de dezembro de 2025), bem como várias cidades italianas.

LJ

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