Évora: Restos mortais de antigos responsáveis da Diocese de Díli «regressam a uma Igreja que ajudaram a construir», afirmou núncio apostólico

D. Andrés Carrascosa lembrou «uma história de evangelização, de fidelidade, e de comunhão», que «une profundamente» Portugal e Timor-Leste

Évora, 19 ago 2026 (Ecclesia) – O núncio apostólico em Portugal presidiu à Missa de encomendação dos restos mortais de três antigos responsáveis da Diocese de Díli, antes do seu regresso definitivo a Timor-Leste, esta tarde, na catedral de Évora.

“Três pastores que regressam não apenas ao solo timorense, regressam a uma Igreja que ajudaram a construir, a uma comunidade viva, a um povo que sabe agradecer aqueles que o serviram, regressam a uma nação reconciliada consigo mesma, e aberta ao futuro”, disse D. Andrés Carrascosa Coso, na homilia da Eucaristia que presidiu, esta quarta-feira, na Sé de Évora, e foi transmitida online pela arquidiocese alentejana.

O núncio apostólico em Portugal, o representante do Papa, realçou que os primeiros responsáveis da Diocese de Díli – D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e monsenhor Martinho da Costa Lopes, que lideraram a diocese timorense sucessivamente entre 1941 e 1983 –, “os fundadores”, vão reencontrar aqueles que “continuam hoje a missão, os pastores de ontem encontram a Igreja de hoje”, e “a memória transforma-se em responsabilidade”.

D. Andrés Carrascosa Coso salientou que entre Portugal e Timor-Leste permanece um património comum que “ninguém poderá apagar” – a fé cristã, a língua portuguesa, e “uma amizade construída ao longo de séculos” -, e desejou que esta celebração “renove igualmente os laços de fraternidade” entre os dois países lusófonos, e que “fortaleça a cooperação entre as Igrejas, e entre os povos”.

Segundo o arcebispo espanhol, há celebrações em que a liturgia e a história se encontram “de forma particularmente intensa”, e a Eucaristia na Sé eborense foi uma delas, porque não se reuniram “apenas para rezar pelo eterno descanso de três veneráveis pastores da Igreja”, mas para dar “graças a Deus por uma história de Evangelização, de fidelidade, e de comunhão, que une profundamente Portugal e Timor-Leste”.

Foto: Arquidiocese de Évora; (arquivo, igreja do Espírito Santo, dia 17 agosto)

D. Jaime Garcia Goulart foi o primeiro bispo da Diocese de Díli, D. José Joaquim Ribeiro o segundo e último bispo português daquela diocese lusófono, e monsenhor Martinho da Costa Lopes, natural de Timor, foi administrador apostólico de Díli de 1977 a 1983.

“A Palavra de Deus ilumina profundamente este momento, acabámos de escutar que nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nos morre para si mesmo; quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor; rezamos para que estes três pastores, que procuraram conduzir o povo de Deus pelo caminho do Evangelho, participem plenamente da comunhão eterna com Cristo”, desenvolveu.

O representante do Papa em Portugal, que lembrou a visita ao país asiático de João Paulo II e Francisco, também destacou o “relacionamento particular” entre a Arquidiocese de Évora e a Igreja timorense, D. José Joaquim Ribeiro era bispo auxiliar eborense quando foi nomeado segundo bispo de Díli, e começou a enviar seminaristas para esta diocese “para se formarem como padres”, “uma ligação que não é apenas histórica, é comunhão de fé, missão, caridade”.

Timor-Leste, antiga colónia portuguesa, proclamou a sua independência a 28 de novembro de 1975, o território é, depois, invadido pela Indonésia, a 7 de dezembro de 1975, e tornou-se independente dessa ocupação a 20 de Maio de 2002.

“Durante décadas, o povo timorense conheceu enormes sofrimentos, muitas famílias viveram a dor da perda, da separação e incerteza, e, nesses anos difíceis, a fé revelou-se uma força extraordinária, a Igreja tornou-se lugar de oração, consolação, defesa da dignidade humana e esperança. A luz do Evangelho continuou acesa”, referiu D. Andrés Carrascosa Coso, que lembrou “a restauração da independência”, onde a Igreja procurou oferecer a sua contribuição

“Timor leste oferece ao mundo um admirável testemunho de esperança, de juventude e de profunda confiança em Deus.”

No final da celebração, após discursos institucionais de representantes do Governo timorense e da Igreja Católica e oferta de lembranças, realizou-se a encomendação de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e monsenhor Martinho da Costa Lopes, cujos restos mortais seguiram, em cortejo automóvel, para Lisboa.

O calendário estabelecido pelas autoridades timorenses prevê a selagem das urnas a 22 de agosto, logo após a conclusão de todos os procedimentos legais e protocolares; a chegada a Díli está agendada para o dia 1 de setembro.

CB/PR

Foto: Arquidiocese de Évora; (arquivo, igreja do Espírito Santo, dia 17 agosto)

O arcebispo de Évora, no início da Missa, saudou “com especial ênfase na alegria de receber o núncio apostólico” para presidir a uma celebração que “ultrapassa a dimensão da arquidiocese, e abre os braços à eclesialidade de Portugal e de Timor”.

“É a ação de graças e o louvor por estas vidas: o louvor que nós queremos fazer homenagem, honra, memória, e, pela fé orante, sufrágio, que colocamos nesta comunidade que representa a globalização do mundo que a Igreja abraça e serve; sejam todos bem-vindos, esta catedral é a vossa casa, é a nossa casa, a casa da Igreja que somos nós”, disse D. Francisco Senra Coelho, que dedicou algumas palavras a D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e a monsenhor Martinho da Costa Lopes.

No final da celebração, o ministro do Planeamento e Investimento Estratégico de Timor-Leste afirmou que a Igreja Católica “ocupa lugar para além do âmbito pastoral” no país.

Gastão Francisco de Sousa explicou que a transladação destes responsáveis religiosos realizava-se por “dever de memória histórica, obrigação institucional de gratidão”, e que são “filhos que retornam à casa que sempre foi sua”.

O bispo de Baucau, representante da Conferência Episcopal Timorense, manifestou a “imensa alegria e comunhão fraterna”, numa mensagem de “profunda gratidão à Igreja Católica em Portugal” pela colaboração na transladação dos restos mortais dos seus predecessores.

“Queremos evocar com elevada consideração o sentido da presença dessas entidades na história da missão desempenhada com suor e zelo apostólico por Timor e pelos timorenses; as contribuições destes prelados marcaram a identidade cristã e cívica do nosso povo; os seus legados permanecem vivos na história e na fé dos timorenses”, disse D. Leandro Maria Alves, que estudou na Arquidiocese de Évora.

Participaram nesta celebração representantes políticos, vários sacerdotes portugueses e de Timor-Leste, e os bispos das Dioceses de Santarém, Lisboa, Beja, o arcebispo emérito Évora.

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