«Magnifica Humanitas»: «O antídoto para os desvios da inteligência artificial é ter relações presenciais de qualidade» – Luís Miguel Figueiredo Rodrigues

Diretor da Faculdade de Teologia defende tempos de silêncio para contrariar modelos da «economia da atenção»

Lisboa, 15 ago 2026 (Ecclesia) – O diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP) alertou para a necessidade de relações humanas e do silêncio, perante a constante interrupção tecnológica proposta pela “economia da atenção”.

“O antídoto para os desvios da inteligência artificial, na minha perspetiva, é termos relações presenciais de qualidade”, defendeu Luís Miguel Figueiredo Rodrigues em entrevista à Agência ECCLESIA, a respeito da encíclica ‘Magnifica Humanitas’, primeira do pontificado de Leão XIV.

O especialista sugeriu a adoção de um “shabbat digital” inspirado no dia de descanso judaico, para combater o modelo de negócio das grandes empresas tecnológicas centrado na economia da atenção.

“Nós precisamos de tempos de silêncio”, recomendou o docente universitário ao desconstruir a ilusão de companhia permanente provocada pelos ecrãs.

O sacerdote sublinhou que a proliferação de avatares e de assistentes virtuais promove um mero “simulacro” de relação que explora a carência humana, como refere Leão XIV.

“Há pessoa enquanto há corpo”, alertou o teólogo perante as teses transumanistas.

O entrevistado destacou o valor do contacto físico e da convivência presencial com a doença ou a deficiência enquanto ferramentas para “calibrar” a visão sobre a humanidade.

“Eu não sou digno porque produzo, porque sei e porque faço; sou digno porque sou uma criatura amada por Deus”, assinalou Luís Miguel Figueiredo Rodrigues.

O docente universitário assinalou que o impacto ambiental da inteligência artificial exige igualmente uma enorme responsabilidade face à extração intensiva de recursos naturais e ao consumo energético invisível da chamada “nuvem”.

Para o sacerdote, a mensagem do Papa Leão XIV na ‘Magnifica Humanitas’ deve ser encarada com “esperança”, por desafiar os crentes a assumirem uma postura ativa na defesa da dignidade da pessoa.

“Se calhar o cuidado do pobre, o cuidado dos marginalizados, na inteligência artificial e na utilização que nós fazemos dela nos diversos dispositivos, pode ser um bom barómetro para eu perceber se estou no caminho correto”, concluiu.

A entrevista que vai ser emitida este domingo, na RTP Antena 1 (06h00), é a segunda de um ciclo de conversas sobre a IA, à luz da encíclica de Leão XVI publicada a 25 de maio, que aborda os enormes éticos e antropológicos levantados por estas ferramentas digitais.

OC

 

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