Igreja: D. Andrés Carrascosa Coso, o núncio apostólico que queria ser pároco da aldeia

Chegou a Portugal em fevereiro e já deu mais de 12 entrevistas procurando conhecer o país e explicar o seu trabalho como forma de combater o clericalismo e apelar à transparência na Igreja; D. Andrés Carrascosa Coso explica que a forma como um país trata os seu migrantes nota a «saúde» de uma sociedade

Foto Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 12 ago 2026 (Ecclesia) – D. Andrés Carrascosa Coso, núncio apostólico em Portugal, disse que os portugueses são “muito formais”, que as pessoas precisam de “encontro” e a Igreja necessita “sair para encontrar as pessoas, sem impor nada mas também sem renunciar à fé”.

“Vocês têm muitos valores, mas em Portugal vocês são muito formais. Eu tendo a ser informal, por natureza, e isso surpreende as pessoas. Ouço as pessoas dizerem – ‘nunca sonhei em poder conversar assim com um núncio apostólico’ – mas eu acho que deve ser normal. No final, parece-me positivo, porque a humanidade, e a Igreja, tem necessidade de encontro. Isso é bom para a humanidade e é bom para a Igreja”, explica à Agência ECCLESIA.

O núncio apostólico, designado pelo Papa Leão XIV – de quem foi colega na formação para a diplomacia – chegou a Portugal em fevereiro, depois de ter passado, pelas mesmas funções, no Congo, Panamá e Equador; após a sua chegada, deslocou-se à região de Leiria para conhecer o impacto da tempestade Kristin, e nas semanas seguintes deu mais de 12 entrevistas.

Como representante do Papa em Portugal, o núncio assume como uma das suas funções ajudar na nomeação de bispos e D. Andrés Carrascosa Coso dá conta que em todas as deslocações que faz explica o processo, sublinhando a importância da transparência e de eliminar o clericalismo.

“Acho que é o meu dever e, se não faço, para mim, é um pecado de omissão. Um presidente de um país chegou a dizer-me, uma vez, que o arcebispo deveria ser pessoa X e eu expliquei que não era assim tão simples que a consulta é muito grande, chegando a atingir mil cartas para chegar a um nome. Falando com esse presidente, eu disse-lhe: «Sabe qual é a diferença entre os senhores e nós? Que os senhores passam por ser democratas. Quando tem que fazer uma terna, chegam lá com o dedo colocado. Nós, que passamos por ser autoritários, consultamos mil pessoas»”, conta.

O responsável rejeita qualquer “fofoca, forças ocultas ou clericalismo” no processo e indica que quanto maior transparência, melhor o resultado.

D. Andrés Coso reconhece que a Igreja em Portugal está “pouco habituada” a uma proximidade com o núncio, que “está nas redes sociais com um perfil pessoal, não da Nunciatura Apostólica” mas que esta sua postura resulta da sua maneira de ser, sintoma da sua vocação inicial de querer ser “pároco de aldeia”, “não apenas para fazer pregações mas acompanhar o ritmo das pessoas na vida e na morte”.

O núncio é o mais novo de seis irmãos, “somos uma família ‘fifty-fifty, três casados e três consagrados”, explica ter crescido com o exemplo cristãos dos pais e com a “presença da memória” de quatro padres na família assassinados durante a Guerra Civil: “Um deles é beato – José Bartolomeu Rodriguez Sória. Foi natural crescer com o exemplo de quem viveu e morreu pela sua fé”.

O sonho dos seus pais, após a ordenação, em 1980, e formação em Bíblia, em Roma, é que pudesse regressar a Cuenca, de onde é natural, ajudar na paróquia e acompanhá-los nos últimos anos de vida, mas ao ser chamado para fazer estudos, e com alguma relutância, o sue bispo lhe terá dito: «Aquele que quer servir, não escolhe o lugar do serviço».

Perseguir esta máxima levou D. Andrés carrascosa Coso a iniciar a carreira diplomática, sendo chefe de gabinete dos cardeais D. Angelo Sodano e D. Jean-Louis Tauran, a acompanhar representações Pontifícias na Libéria e Dinamarca, nas Nações Unidas e nas Instituições Especializadas em Genebra, no Brasil e Canadá, tendo passado também pela Serra Leoa, Guiné Conacri e Gambia, Suécia, Islândia, Finlândia e Itália.

Na Libéria, onde chegou com 29 anos, acompanhou um golpe de Estado, que durou algumas horas, foi retirado do carro diplomático com “quatro metralhadoras”, sofreu malária; no Congo conversou com guerrilheiros e ajudou, através da diplomacia, ao desenvolvimento da democracia.

“Isto é Evangelho. Não é fazer pregação, mas é ler o Evangelho com as pessoas. Sem nenhum tipo de protagonismo. Desenvolvimento, bem-comum, é o Evangelho colocado em prática”, sublinha.

Das muitas viagens realizadas durante os 41 anos ao serviço da Santa Sé, o Núncio explica que o “homem é igual em todo o lado”, seja o pigmeu, o andino ou o europeu: “Estamos perdendo humanidade. O individualismo está a fazer-nos mal, a deixar crescer a polarização agravada pelos algoritmos. São os algoritmos que estão a ganhar as eleições”.

D. Andrés Carrascosa Coso preside hoje à Peregrinação Internacional Aniversária, no Santuário de Fátima, dedicada a migrantes e refugiados, e alerta que a saúde de um país se mede pela forma como “acolhe as pessoas migrantes”.

“Um país deve fazer um estudo sério sobre a sua capacidade de acolhimento. É o seu dever, sem deixar que posições populistas tomem parte. «O que fizeste ao teu irmão foi a mim que fizeste» é o que Deus nos vai dizer. O tema da migração é um dos temas mais complexos. E não podemos ser simplistas. Porque os simplismos servem somente para os populismos e isso não constrói um país”, lamenta.

A conversa com o núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso vai estar no centro do programa ECCLESIA, emitido esta noite, na RTP Antena 1, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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