Igreja/Unidade: «Há linhas que não se podem ultrapassar», afirma o novo provincial dos Jesuítas

Padre António Valério alerta para os perigos da polarização do discurso, valoriza os apelos à união do Papa Leão XIV e o processo sinodal impulsionado por Francisco, a partir da espiritualidade inaciana

Foto Agência ECCLESIA

Lisboa, 30 jul 2026 (Ecclesia) – O novo provincial da Companhia de Jesus em Portugal afirmou a sinodalidade “tem na base a espiritualidade inaciana” e sublinhou que, para garantir a unidade na Igreja Católica, “há linhas que não se podem ultrapassar”.

“Há consciência de que não se podem ultrapassar estas linhas e há uma garantia da unidade, que é a figura do Papa, o que é a tradição da Igreja”, disse o padre António Valério em entrevista à Agência ECCLESIA, comentando a decisão cismática da Fraternidade São Pio X de ordenar bispos sem nomeação pontifícia.

O superior provincial da Companhia de Jesus considera que o Papa Leão XIV tem diante de si um “caminho muito difícil”, com “desafios muito grandes”.

Acho que o Papa Leão tem sido impressionante nas suas intervenções a apelar à unidade”.

O padre António Valério referiu que “o que é mais perigoso para a Igreja é a divisão interior e a divisão do discurso que polariza, que é o ‘nós’ e o ‘eles’, dentro da Igreja”.

O padre António Valério referiu-se também à inspiração inaciana do Papa Francisco para dinamizar o processo sinodal na Igreja Católica, afirmando que é “alimentado pelo discernimento que vem dos Exercícios Espirituais, da proposta de Santo Inácio, que tem uma metodologia própria para o fazer”.

O Papa Francisco marcou muito o modo da Igreja se pensar como estrutura, a partir da colaboração, do diálogo, da escuta do outro e da realidade, e da escuta do Espírito, para tomar a decisão de acordo com aquilo que o Espírito quer para a Igreja e não as nossas ideias ou as nossas projeções ou as nossas estratégias”.

Natural de Idanha-a-Nova, onde nasceu em 1977, o padre António Valério quis ser sacerdote a partir do exemplo do pároco que o batizou e que “ainda continua lá”, tendo iniciado a formação no Seminário da Diocese de Portalegre-Castelo Branco e depois, no início dos estudos teológicos, optou pela Companhia de Jesus.

“É o modo como Deus também nos vai trabalhando interiormente”, afirmou, acrescentando que se sentiu motivado pela realidade de estar numa comunidade e não ser capaz de fazer “ideia nenhuma” do que estaria a fazer passados 10 anos.

Ordenado sacerdote em 2009, no Carmelo de São José, em Fátima, onde está uma irmã sua, o padre António Valério afirma que a Vida Contemplativa tem sido uma inspiração.

Faz parte do jesuíta ter o contato com o claustro e, desde a ordenação, tem sido muito importante saber que há pessoas na Igreja dedicadas à oração e que esta oração é extremamente apostólica, é missionária”.

Na Companhia de Jesus, o padre António Valério colaborou “muito de perto” com o responsável do Apostolado de Oração no “processo de recriação” de um movimento que estava em declínio, em muitos países, e se transformou, como obra pontifícia, em Rede Mundial de Oração do Papa.

“Isso implicou pensar o Apostolado de Oração e a Rede Mundial de Oração em múltiplas vertentes: na sua vertente de proposta espiritual, mas também nas formas de comunicação para chegar a novos públicos. E aí entrou a renovação da imagem, a renovação da tecnologia, das plataformas”, indicou.

O processo de aliar a tradição orante da Igreja Católica aos desenvolvimentos tecnológicos foi um processo que “durou 10 anos” e uma “experiência de muita consolação”, afirma o padre António Valério, referindo as aplicações “Passo-a-Rezar” ou “Click to Pray” como resultado desse trabalho, apresentadas na Web Summit, em 2018.

O padre António Valério não esconde a tensão entre o uso individual de uma aplicação tecnológica e necessária comunitária da fé, referindo que “há claramente o risco” da pessoa ficar fechada.

“Mas as propostas que são feitas, na própria oração, naquilo que se escreve, naquilo que se ouve, são propostas que colocam sempre a questão: sai de ti, tens uma comunidade, tens a Igreja. Há sempre essa preocupação da pessoa não ficar fechada em si própria”, afirmou.

A  entrevista do padre António Valério à Agência ECCLESIA, no contexto de início de mandato e por ocasião do Dia de Santo Inácio, 31 de julho, esteve em destaque no programa Ecclesia desta quinta-feira e está publicada integralmente no canal Youtube da Agência Ecclesia.

PR

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