Cinema: Jornal do Vaticano publica especial sobre adaptação da «Odisseia» por Christopher Nolan

Textos sublinham atualidade da obra, perante mundo em guerra e «muros erguidos contra os migrantes»

Cidade do Vaticano, 28 jul 2026 (Ecclesia) – O jornal do Vaticano, ‘L’Osservatore Romano’, publicou um especial dedicado ao novo filme do realizador britânico Christopher Nolan sobre a ‘Odisseia’, elogiando a obra por sublinhar as semelhanças entre o declínio da Grécia Antiga e as crises do mundo contemporâneo.

“A terrível atualidade do filme torna-se evidente: a Grécia Antiga é como o mundo de hoje, marcado por uma guerra mundial fragmentada e muros erguidos contra os migrantes, onde o acolhimento é negado e o direito internacional e as regras da diplomacia são diariamente espezinhados e desrespeitados”, escreve Andrea Monda, diretor do jornal.

O responsável sublinha que “Nolan retrata um mundo em declínio, um mundo em crise na Idade do Bronze, no qual os hinos homéricos emergem como memória coletiva, um mundo no qual os poucos homens com consciência que ainda resistem não sabem como permanecer humanos nesta trágica mudança de época”.

O artigo nota que o cineasta acrescentou ao herói de Homero “o peso da consciência”, apresentando um Ulisses humano e atormentado que procura resgatar-se da sua própria animalidade para não viver “como os brutos”.

O texto traça um paralelo direto entre o dilema moral de Ulisses e o do cientista Oppenheimer, o protagonista do filme anterior de Nolan, “atormentado por ter contribuído para a criação de terríveis armas atómicas”.

A análise reconhece que a transição do texto escrito para a tela implicou a supressão de momentos importantes do poema original, como o encontro com os Feácios ou o diálogo com o ciclope Polifemo, falando nalgumas “escolhas que talvez pudessem ter sido evitadas e que foram certamente infelizes”.

O jornal do Vaticano aponta o rei Agamémnon como o grande antagonista e o verdadeiro “monstro” do filme, representando a procura cínica do “poder pelo poder” e a substituição da força da lei pela lei da força.

A obra retrata, numa fase inicial, um Ulisses quase “ateu” e iluminista, que ridiculariza uma religiosidade baseada na superstição e no medo, para depois o conduzir a um autêntico “ato de fé” e de abandono, no qual o herói aceita os seus limites e feridas interiores.

A crítica destaca ainda a mensagem de esperança na reta final do filme, num desfecho onde Ulisses volta a zarpar, mas desta vez acompanhado por Penélope, embarcando numa viagem de “expiação e cura” que aponta para um horizonte de salvação.

Já o ensaísta Sergio Valzania elogia a “dimensão cristã” da nova adaptação cinematográfica da ‘Odisseia’, considerando que Nolan reinventou a figura de Ulisses, arrancando a personagem à “tradição heroica” e bidimensional que habitualmente a aprisiona na literatura clássica.

O artigo interpreta as atribulações e o atraso na viagem de regresso como uma fuga interior, ditada por um “sentimento de culpa do qual não tem sequer consciência”.

“O herói está a fugir do passado de feroz destruidor de comunidades indefesas que o persegue”, aponta a reflexão.

Segundo Valzania, o Ulisses que abandona o exílio apresenta já uma “psicologia moderna” e uma estrutura nova que adquiriu e amadureceu o “sentido do pecado”, aproximando-se da moralidade cristã.

OC

Outro dos textos aborda a forma como o poema épico tem sido evocado pelos sucessivos pontífices como uma metáfora da viagem existencial.

O jornal do Vaticano recorda que o Papa Leão XIV, durante a audiência geral de 31 de dezembro de 2025, utilizou a obra de Homero para sublinhar que toda a vida “é uma viagem, cuja meta última transcende o espaço e o tempo”.

A resenha histórica percorre o magistério do Papa Francisco, com destaque para a visita à Grécia em 2021, onde o pontífice argentino defendeu que “o sentido da vida não é ficar na praia à espera de que o vento traga novidades”.

O artigo aborda o uso da figura de Telémaco, o filho que parte à aventura em busca do pai, que serviu para Francisco ilustrar os passos das novas gerações e dos migrantes que procuram construir o futuro projetando os seus sonhos para além do medo.

Em 2012, no Sínodo dos Bispos, Bento XVI explicou que o termo grego ‘evangelium’ já marcava presença na Odisseia como o “anúncio de uma vitória e, portanto, anúncio de bem, de alegria, de felicidade”.

A encíclica ‘Fides et Ratio’ (1998), de João Paulo II, também encontra no clássico grego as perguntas fundamentais sobre a identidade e o destino, notando que “da resposta a tais perguntas, de facto, depende a orientação a imprimir à existência”.

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