LUSOFONIAS – De Moçambique a Angola

Tony Neves, em Moçambique e Angola

Aterrei em Maputo na noite de 27 de junho, era sábado. A viagem começou em Lisboa, na véspera, e passou por Luanda. Fui levado até ao Seminário de S. Agostinho, na Matola, situado numa área de pântanos, com caminhos de difícil acesso, tantos os buracos de água que os povoam. No dia seguinte, tive a alegria de presidir à Missa na Capela da Imaculada, pertencente à Paróquia de S. Francisco de Assis, nas periferias da Matola. Foi o meu primeiro banho de África, com uma Eucaristia toda cantada e dançada, bem ao ritmo das culturas locais, o que garante sempre uma animação fantástica.

Mas encontrei a Igreja em Moçambique a viver um dos momentos mais trágicos da sua história. D. Osório Citora, Bispo de Quelimane, foi barbaramente assassinado na sua própria casa, a 6 de junho. Era um Missionário da Consolata, trabalhou largos anos em Roma e tinha apenas 54 anos. Recentemente, o Vaticano tinha-o nomeado também Administrador da grande Arquidiocese da Beira. O contexto desta morte dá a entender que houve envolvimento ou, pelo menos, conivência de pessoas próximas ao Bispo. Tal tragédia gerou uma onda de suspeição, quer fora quer dentro da Igreja, o que complica muito o testemunho missionário.

Tive a feliz oportunidade de reencontrar D. João Carlos Nunes, Arcebispo de Maputo e fui até à Nunciatura para reunir com D. Luis Miguel Muñoz Cárdaba, o Núncio Apostólico. Percebi, pelas palavras e pelos silêncios, que há problemas graves que a Igreja terá de enfrentar e resolver nos próximos tempos. Seja qual for a decisão da justiça moçambicana sobre este assassinato, os tempos que se seguem serão difíceis. Esta morte traz ao de cima a violência, a instabilidade social e a pobreza que caracterizam Moçambique hoje e mostra como a vida humana está desvalorizada, bastando olhar para a quantidade de pessoas que sofrem violência ou são mortas por razões menores. Daí se compreenda a afirmação dos três Arcebispos que foram chamados a Roma e, no fim, disseram: ‘o Papa Leão XIV acompanha de perto a situação e mostrou-nos que é possível transformar a tragédia num caminho de renovação, conversão e purificação’.

É neste contexto que vivem e trabalham os Espiritanos. Os missionários são jovens, as estruturas frágeis, mas a vontade de anunciar o Evangelho e caminhar com o povo é enorme. Tive a alegria de, mais uma vez, visitar o país com o objetivo único de estar com os missionários e com eles avaliar a missão que ali se desenvolve, bem como lançar os compromissos espiritanos para os próximos anos. O Conselho Ampliado do Grupo, sob a forma de Assembleia Geral, reuniu na Matola, periferias de Maputo, todos os Espiritanos que vivem e trabalham em Moçambique. Digno de nota – uma vez que aponta para um futuro risonho – este Encontro contou, pela primeira vez na história, com um jovem Padre Espiritano nascido e criado em Moçambique: o P. Agostinho João, recentemente ordenado em Nampula e já nomeado para trabalhar na vizinha Zâmbia. Participaram dois Leigos.

O mais velho do Grupo é o P. John Kingston, irlandês, ordenado há 50 anos, na sua terra natal. Iniciou as celebrações jubilares na Irlanda, celebrando depois em Inhazónia (Chimoio, onde trabalha) e ali no Seminário da Matola durante a Assembleia Espiritana. Foi missionário em Angola, durante a guerra civil, tendo marcas no corpo das balas que recebeu durante uma emboscada. Foi formador de futuros espiritanos, na Irlanda e, depois, desempenhou o cargo de Conselheiro Geral, em Roma. Está, atualmente, no Chimoio, sendo o Superior da Missão de Inhazónia, assumida em 1996.

Nestes tempos conturbados que o país e a Igreja vivem, os Missionários do Espírito Santo, além de responsabilidades formativas e paroquiais, acompanham um numeroso grupo de Leigos que querem partilhar a espiritualidade e a missão dos Espiritanos.

Deixei Maputo a 4 de julho e iniciei a visita a Angola. Tive a alegria de celebrar a missa de domingo no Centro da Congeral, pertencente à grande Paróquia de S. Pedro do Prenda, que abrange diversos musseques das periferias da capital. Ali avança a construção de uma enorme Capela em honra de S. Teresinha…

Luanda ainda tomou conta de mim alguns dias, mas depois rumei ao planalto, passando por Sumbe e Benguela. Desta enorme viagem falarei na próxima crónica…

Tony Neves, em Moçambique e Angola

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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