Igreja/Sociedade: Comissão Justiça e Paz de Braga rejeita tempo de férias como um luxo e sublinha que «direito ao descanso é uma questão de justiça»

«A pessoa é mais importante do que o trabalho», refere organismo católico

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Braga, 21 jul 2026 (Ecclesia) – A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga defendeu, esta segunda-feira, que o tempo de férias não deve ser encarado como um luxo, nem uma simples interrupção do calendário laboral, mas como “uma necessidade humana, familiar, espiritual e social”.

“O direito ao descanso é uma questão de justiça. Não nasceu de forma espontânea nem foi uma concessão generosa dos poderes económicos ou políticos. Foi conquistado pela luta persistente dos trabalhadores, que reclamaram – e continuam a reclamar – horários mais humanos, descanso semanal, tempo livre e férias remuneradas”, lembrou.

Numa nota enviada à Agência ECCLESIA, o organismo católico enfatiza que “estas conquistas sociais devem ser protegidas, valorizadas e tornadas efetivas para todos”.

“Num tempo marcado pela pressa, pela produtividade e pela pressão permanente”, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga salienta que importa “afirmar com clareza: a pessoa é mais importante do que o trabalho”.

Com o título “Férias: descanso, justiça e recomposição da vida”, a mensagem evoca a primeira carta encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas” (a magnífica humanidade), publicada a 15 de maio, na qual o pontífice escreve que “o trabalho não é um mero instrumento”, mas expressa e enriquece a dignidade” da vida de cada um.

“Mas precisamente por isso o trabalho não pode absorver toda a existência. Quando ocupa um lugar excessivo, ficam feridas a dignidade da pessoa, a vida familiar e a própria qualidade da sociedade”, destaca a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga.

A nota evoca também a Doutrina Social da Igreja e o Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et spes, que afirma que todos devem gozar de “suficiente descanso e tempo livre para atender à vida familiar, cultural, social e religiosa”, e ainda a encíclica Laborem exercens, de São João Paulo II.

“O descanso não é, portanto, uma realidade secundária: pertence à dignidade do trabalhador e à justiça das relações sociais”, pode ler-se.

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga recorda que o descanso “não protege apenas o indivíduo; protege a família, a educação dos jovens e a vida comum”.

“As férias podem ser precisamente esse tempo em que a presença volta a ter lugar: a mesa partilhada, a conversa sem pressa, a visita a quem está só, o encontro com os amigos, o cuidado dos mais frágeis, a vida familiar e comunitária”, realça.

O organismo católico vinca que “o descanso é profundamente humano” e lembra que cada um é “corpo, relação, fragilidade e dom”, acrescentando que o período de repouso ajuda a reconhecer uma verdade simples e decisiva: a vida “precisa de ser cuidada, não apenas produzida”.

“Para os cristãos, esta dimensão encontra uma expressão regular na vivência do domingo”, ressalta a mensagem, “que não é apenas um dia sem trabalho, mas Dia do Senhor, tempo de escuta da Palavra, de celebração da Eucaristia, de encontro comunitário, de vida familiar, de fraternidade e de atenção aos mais frágeis”.

“A paragem – semanal e anual – recorda-nos que não somos máquinas de produzir, mas filhos e filhas de Deus, chamados à comunhão, à gratuidade e ao cuidado”, assinala a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga.

O texto faz referência a outras tradições religiosas que, numa sociedade plural e multicultural como a portuguesa, valorizam tempos e gestos que interrompem a lógica da pressa e da produção.

“O sabbath judaico, a oração quotidiana e semanal dos muçulmanos, a meditação budista e tantas outras práticas espirituais recordam que o ser humano precisa de silêncio, gratuidade, contemplação e abertura ao Mistério”, indica o organismo.

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga reforça que “defender as férias, o descanso semanal e, para os cristãos, a vivência plena do domingo é defender a dignidade humana”, “é afirmar que a economia deve estar ao serviço da pessoa, e não a pessoa ao serviço da economia”.

“É reconhecer que uma sociedade verdadeiramente justa precisa de trabalho digno, mas também de repouso, família, cultura, oração, cuidado e tempo para viver”, desenvolve.

No final da mensagem, o organismo católico deseja que “este tempo de férias seja, por isso, ocasião de descanso verdadeiro, gratidão, encontro e renovado compromisso”.

“Porque só uma vida recomposta, cuidada e livre pode regressar ao quotidiano com mais discernimento”, conclui.

LJ/OC

Partilhar:
Scroll to Top