Programa Ecclesia antecipa Dia de Portugal, a partir do que significa ser português na atualidade, com testemunhos de quem nasceu ou tem raízes no exterior
Lisboa, 08 jun 2026 (Ecclesia) – Eugénia Quaresma, com raízes em São Tomé e Príncipe, Nuno de Souto, originário da África do Sul, e Helena Domingues, nascida na República Popular da China, partilham histórias de vida marcadas pela diversidade cultural e apontam o diálogo como forma de combate ao preconceito.
“Estamos aqui e somos fruto da abertura de Portugal ao mundo. Somos responsáveis por ir ao encontro do mundo, por descobrirmos a globalização, ou fundarmos ou inaugurarmos a globalização. Somos frutos desse movimento. E há que assumi-lo como parte dessa identidade”, referiu a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, ao Programa ECCLESIA (RTP2).
Eugénia Quaresma nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, depois dos pais se mudarem para território nacional antes da independência de São Tomé e Príncipe, a 12 de julho de 1975.
“Portugal é diverso, é diversidade. E se calhar é lá fora que se percebe melhor o que é que nos une. Apesar da diversidade, da maneira de confecionar, da música, descobrimos que há qualquer coisa que nos une. E se calhar esta questão lá fora tem um outro peso”, afirmou.

Filho de pais portugueses, Nuno de Souto nasceu na África do Sul e veio para Portugal com cinco anos; depois dos estudos, emigrou para os países nórdicos, onde esteve quase 20 anos, tendo regressado no ano passado.
“Apesar de irmos trabalhar noutro sítio, fica sempre a saudade da cultura portuguesa. De voltar e voltarmos para cá para sentirmos o sol. No meu caso, por causa dos nórdicos. Sentir o amor da comunidade portuguesa, sentir o sabor da comida portuguesa”, expressou.
Também a entrada do filho na escola pesou na decisão de voltar ao sudoeste da Europa, explica Nuno de Souto, que indica que a família desejava que a criança crescesse rodeada da tradição portuguesa.
Da China veio Helena Domingues, aos seis anos, concretizando em Portugal todo o percurso de vida.
Filha de pai português e mãe chinesa, a gestora de projetos da área de Intervenção social da Cáritas Portuguesa dá conta que é com “admiração” que as pessoas muitas vezes a percecionam por falar fluentemente a língua portuguesa.
“Quando não me conhecem e se confrontam a primeira vez, é sempre aquela expectativa não só do sotaque, mas muitas vezes assumirem que eu não falo realmente português ou que não sou mesmo portuguesa. Mas acho que é nesse confronto, nesse encontro, que nasce essa riqueza”, salienta.
O programa ECCLESIA antecipou o Dia da Portugal, que se assinala no dia 10 de junho, a partir da perspetiva do que significa ser português na atualidade.
A diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações fala que os traços culturais contam parte da história de cada um e, num tempo de “tanta polarização face à migração”, defende a relevância dos migrantes estarem disponíveis “para o diálogo e para a desconstrução”.
Como é importante para o outro que supostamente recebe não julgar o livro pela capa e estar disposto a descobrir e a ler quem tem à sua frente, quem tem ao seu lado, quem trabalha consigo, quem é o seu aluno. E, portanto, estamos no tempo de promover o encontro e manter esta saudável curiosidade de criança de descobrir”, ressaltou.

A responsável considera “estranha” a hostilidade que se vê nas redes sociais e convida a cultivar aquilo que é humano e é identitário da população portuguesa: “Eu vejo a hospitalidade como algo muito característico do ser português. O receber bem como algo muito característico do ser português. O orgulho pelas comidas e por aquilo que há de bonito na sua terra e de mostrar”.
“Falando aqui da encíclica do Papa, temos que voltar a redescobrir a humanidade e voltar àquilo que nos humaniza. E as migrações também nos ajudam a pensar um bocadinho nisto, a reconhecer aquilo que nos distingue, aquilo que nos une”, frisou.
Eugénia Quaresma sublinha que não é com violência, nem pela força das armas que se resolvem conflitos.
Fruto do trabalho com crianças, Helena Domingues testemunha que numa faixa etária mais nova ainda há muita “ingenuidade e curiosidade de tentar compreender realmente quem é que está na outra margem”.

“Conforme vai acontecendo o desenvolvimento, o crescimento, acho que vão estando também numa etapa em que vão estando mais influenciáveis daquilo que veem, não só nas redes sociais, mas também com os seus pares e o seu contexto familiar”, contou.
A entrevistada indica que tem sido feito um caminho pelas escolas e educadores, docentes e não docentes para desconstruir estereótipos, como forma de evitar chegar à violência e posições extremistas.
Nuno do Souto alerta que muitas vezes é em casa que os mais novos têm contacto com discursos que rejeitam a imigração.
“O Estado e a sociedade estão basicamente a tentar educar as crianças, mas esquecem-se de, possivelmente, educar os adultos, porque há muita informação que passa dos adultos para as crianças. Inconscientemente as crianças absorvem e essas ideias que ouvem em casa passam depois para o resto dos amiguinhos”, relatou.
HM/LJ/OC
