Migrações: Francisca Gorjão Henriques critica retrocesso de Portugal nas políticas de acolhimento

Responsável da Associação «Pão a Pão» lamenta falta de aposta na «Integração» por parte da AIMA

Foto: RR/Gonçalo Costa

Lisboa, 07 jun 2026 (Ecclesia) – A presidente da Associação ‘Pão a Pão’ alertou para o crescimento da xenofobia em Portugal e denunciou o recente agravamento da lei da nacionalidade como uma forma de exclusão de cidadãos estrangeiros.

“As barreiras que foram colocadas com a nova lei da nacionalidade e da imigração estão apenas a dizer às pessoas que o melhor é não virem e o melhor é deixarem o país”, afirmou Francisca Gurjão Henriques, em entrevista conjunta à Agência Ecclesia e Renascença, emitida e publicada este domingo.

A responsável considerou que a extensão dos prazos legais representa uma mensagem política clara sobre a forma como o país afasta “pessoas que fazem falta” às comunidades.

“Quando nós passamos para dez anos o acesso à nacionalidade de cidadãos estrangeiros, fora da CPLP e da União Europeia, estamos basicamente a dizer às pessoas que não as queremos aqui”, precisou a dirigente associativa.

A entrevistada sublinhou a importância de inverter a hostilidade pública que se tem instalado contra as comunidades imigrantes.

“O crescimento da xenofobia, do discurso de ódio, que muitos imigrantes que já estão cá há algum tempo não eram confrontados com isso no início, e nos últimos anos têm sido”, referiu a entrevistada.

Francisca Gurjão Henriques considerou que muitas destas dinâmicas se apoiam numa leitura manipuladora que faz dos imigrantes “bode expiatório”.

“As questões da imigração têm sido muito manipuladas para fazer passar um discurso extremista que não corresponde à realidade portuguesa”, indicou a presidente da ‘Pão a Pão’.

A responsável rejeitou as teses alarmistas com base em indicadores oficiais que desmentem o peso dos migrantes na criminalidade.

“Os dados mostram que as pessoas imigrantes não têm índices de criminalidade acima da população natural do país, antes pelo contrário”, declarou.

Os números do impacto financeiro foram igualmente evocados para combater as perceções sociais negativas associadas à chegada destas comunidades.

“De 2015 até 2025, e isto são dados oficiais, os imigrantes contribuíram com 16,3 milhões de euros, já descontando as prestações sociais que eles próprios recebem”, clarificou.

A preocupação com o envelhecimento demográfico justificou o apelo a uma análise estrutural e menos ideológica sobre as necessidades do mercado de trabalho.

“Temos uma das populações mais envelhecidas do mundo e precisamos muitíssimo desta mão de obra”, salientou a representante, sem esquecer a “riqueza que é trazida por pessoas que vêm de contextos diferentes”.

O acompanhamento de proximidade desenvolvido pela instituição tem evidenciado o desgaste social gerado pelos estrangulamentos na regularização de documentos.

“Ficou muito evidente que as pessoas imigrantes estão muito preocupadas com o que está a acontecer, aliás, saíram notícias recentemente de que há muita gente a ir embora”, advertiu Francisca Gorjão Henriques.

As críticas visaram diretamente a atuação da nova Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA).

“Ouvimos muito das pessoas que a AIMA, Agência para a Migração, Migrações e Asilo, deixou cair o ‘I’ da integração”, assumiu a responsável durante o diálogo.

As propostas de melhoria nos serviços do Estado estão atualmente em discussão na Assembleia de Cidadãos Migrantes, a decorrer até ao dia 20 de junho.

“Se nós estamos a chamar as pessoas imigrantes para construírem soluções e para fazerem parte da resposta, é bom que depois esse processo tenha consequências”, concluiu Francisca Gorjão Henriques.

A partir de 30 de maio, durante quatro sábados seguidos, 50 migrantes vão estar reunidos em Lisboa para analisar, debater, concluir e propor medidas concretas para melhorar o serviço de imigração em Portugal.

A Assembleia de Cidadãos Migrantes, promovida pela Associação ‘Pão a Pão’, vai apresentar as suas recomendações a 20 de junho, numa sessão aberta, antes de serem apresentadas às entidades públicas do setor.

O relatório e o balanço dos contactos vão ser divulgados no dia 11 de novembro, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, financiadora do programa.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Partilhar:
Scroll to Top