Lianor e Miguel lembram que têm colegas sem professor e apontam a utilização do telemóvel como entrave à socialização dos mais novos
Lisboa, 01 jun 2026 (Ecclesia) – Miguel Félix, aluno do 6ºano de escolaridade, e Lianor Garrido, do 8ºano, denunciaram a falta de professores como um obstáculo à aprendizagem e indicaram que o telemóvel nas escolas compromete a socialização, numa conversa sobre os direitos das crianças.
“É como se estivéssemos a regredir. A falta de professores também cada vez é maior. Eu estando na escola privada não sinto isso, mas quando estou nos desportos ou quando vou a centros de estudo, acabo por encontrar colegas meus que me dizem que ‘ah hoje não tive aula de matemática’”, conta Miguel Félix.
O Programa ECCLESIA de hoje, transmitido pelas 15h, na RTP2, é dedicado à celebração do Dia Mundial da Criança, falando com os mais novos sobre os seus direitos.
O aluno do 6ºano, do Barreiro, destaca que muitos dos amigos ficam contentes por não terem aulas, no entanto, frisa, “não sabem é que no futuro” a falta de aprendizagem vai “ter consequências”.
Já Lianor Garrido expressa que fica “muito triste” com a falta de docentes, porque gosta de aprender, e realça que os adultos deveriam escutar mais as crianças.
Nós realmente temos bastantes coisas para dizer e devíamos ser ouvidos e deviam tentar incentivar-nos até a falar do que nós pensamos e a desenvolver o nosso pensamento crítico”, referiu.
A estudante do 8ºano dá conta que, na escola antiga, teve a disciplina de filosofia, considerando que foi uma das coisas que mais a ajudou a desenvolver o pensamento.
“Sempre desde muito pequena que pensei, tentei pensar sobre tudo à volta, perceber o que é que é melhor e esse exercício acho que é importante desde cedo”, disse.
Miguel Félix testemunha que só este ano é que a escola que frequenta passou a lecionar a matéria de cidadania: “Não percebo porque é que existem essas disciplinas que são para resolver as queixinhas durante os intervalos, mas não existe uma disciplina para educar as crianças e os alunos a serem melhores cidadãos”.
Na conversa, o aluno defendeu que a utilização dos telemóveis nas escolas está a fazer a sociedade voltar para trás.
Não sinto falta do telemóvel, acho que isto também é uma parte psicológica que é, quando não se tem, não se sente falta, não se precisa, então como eu não tenho, eu não sinto uma obrigação de o ter”, sublinhou.
Miguel Félix afirma que os colegas fazem pressão para que tenha este aparelho e que, muitas vezes, acaba por ficar de fora das conversas.
“’Olha, viste aquele vídeo que a não sei quê meteu ontem nas redes sociais? Ou viste aquilo que ela meteu?’ Eu tento ignorar, mas às vezes também é difícil. E depois eu falo com os meus pais e eles ajudam-me bastante nisso”, explica.
Também Lianor Garrido, apesar de ter telemóvel, considera que este “tira muito o tempo de brincar”, que caracteriza como “muito importante”.
“Mas não tenho redes sociais e realmente sinto um bocadinho essa parte de pressão para ter, para estar incluída no que toda a gente está a ver, mas acho que também não nos podemos deixar cair nessa tentação, porque as redes sociais, na verdade, não nos trazem assim tantas coisas positivas”, descreve.
A adolescente defende que a utilização dos telemóveis deveriam ser limitados nas escolas até níveis de escolaridades superiores, ao contrário do que acontece atualmente.
“Até ao 6ºano, a maioria das escolas proíbe, mas depois os miúdos entram no 7ºano, que foi um bocadinho também a minha experiência, e depois já é permitido nos intervalos levar para a escola e, de repente, está toda a gente ao telemóvel e não há um controlo”, ressalta.
Para Lianor Garrido, “é muito triste” olhar para os corredores e ver toda a gente no chão, sentada com o telemóvel, uma vez que se perde a “socialização nos intervalos”.
“Depois perde-se também o brincar, realmente. Miúdos com a minha idade agora já não brincam tanto, mas só o conversar e o rir, ouvir as pessoas a rir nos corredores, já é uma coisa especial e importante”, disse.
No Dia Mundial da Criança, a aluna deixou uma mensagem para os protagonistas desta data: “Vão lá para fora, brinquem, estejam com a vossa família, com os vossos amigos, tenham a consciência da sorte que têm por viver neste país, viver com uma família. E vão brincar, larguem o telemóvel, um bocadinho, aproveitem o dia e aproveitem ser crianças. E é isso que eu também tentarei fazer”.
Espero que sejam todos felizes, que os conflitos que vocês têm na escola, se compararem com o que outras crianças passam noutros países, não é nada, e que vocês têm de ser felizes e às vezes deixar passar o que já aconteceu. E que agradeçam pelo que têm e que sejam muito felizes”, acrescentou Miguel.
Também Odete Severino Soares, professora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e que tem dedicado a sua investigação ao tema das crianças no direito, participou na conversa.
A docente ressaltou que o direito à participação é aquele que menos tem destaque na Convenção dos Direitos das Crianças, destacando como “importantíssimo” em termos da formação cívica e participação cívica dos mais novos, quer no presente, quer no futuro.
Odete Severino Soares lança hoje a obra “Direitos das Crianças”, pelas 18h30, no El Corte Inglés, em Lisboa, com diversas perspetivas de especialistas, magistrados, académicos e profissionais da área, que refletem sobre o tema, alertando para os desafios que persistem.
“A ideia surgiu no sentido de criar, de fazer alguma reflexão da evolução dos direitos da criança no nosso país, focando no passado, no presente e nos desafios futuros”, disse a professora.
| O presidente da República, António José Seguro, publicou uma mensagem a propósito da data que hoje se celebra, mostrando-se preocupado com as “estatísticas alarmantes sobre a realidade das crianças em Portugal”.
“Sabemos que há crianças que passam fome; crianças privadas de atividades escolares, culturais ou desportivas por falta de recursos; crianças que crescem em contextos de pobreza, negligência, violência ou exclusão; crianças vítimas de abuso sexual e de violência doméstica”, referiu. O chefe de Estado sublinhou que “por detrás de cada um destes casos há um rosto, uma infância que é forçada a enfrentar demasiado cedo o peso da adversidade”, bem como “sonhos que se vão apagando, talentos que ficam por revelar e caminhos que se estreitam quando deveriam abrir-se ao mundo”.
O presidente da República aludiu à implementação da Estratégia Única dos Direitos das Crianças e Jovens 2025-2035, que define como “um instrumento importante para uma resposta pública mais integrada e eficaz”, contudo, assinala, “nenhuma estratégia produzirá os resultados desejados nas políticas públicas sem o compromisso ativo de toda a sociedade”. “Num tempo marcado pelo agravamento das desigualdades e pela crescente exposição das crianças a novos riscos, precisamos de instituições mais articuladas, de comunidades mais próximas, de escolas mais inclusivas, de famílias mais acompanhadas e de uma sociedade mais consciente do dever coletivo de proteger a infância”, enfatizou. António José Seguro evidencia que é necessário “garantir a todas as crianças o direito de continuarem a sonhar, sem esquecer aquelas que vivem em situações de maior vulnerabilidade: as crianças em situação de pobreza, com deficiência ou doenças crónicas, pertencentes a minorias ou expostas à violência, ao abandono e aos riscos do ambiente digital”. “Porque proteger a infância não é apenas responder às fragilidades do presente. É manter acesa a chama da esperança. É garantir que cada criança encontra espaço para crescer livre, descobrir os seus talentos e alimentar os sonhos que darão forma ao país de amanhã”, escreveu. Segundo o presidente da República, “nenhuma criança nasce a odiar, a discriminar ou a excluir”, “todas nascem com a capacidade de acolher, de respeitar e de acreditar”. |
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