Igreja/Política: «Todas as formas de manipulação não são legítimas» – D. Pedro Fernandes

Bispo de Portalegre – Castelo Branco pediu na 14ª Jornada de Teologia Prática, «credibilidade e seriedade» aos políticos e coragem aos cristãos para ultrapassar ameaças de «discurso único» e do medo

Foto Agência ECCLESIA/JPG, Seminário Maior de Coimbra, XIV Jornada de Teologia Prática

Coimbra, 09 mai 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre – Castelo Branco criticou hoje “todas as formas de manipulação”, afirmou ser dever da Igreja católica “ajudar as pessoas a sentirem-se participantes” e desafiou os políticos à “credibilidade e seriedade”.

“Para toda a classe política, para todas as pessoas que estão envolvidas na política, parece-me que significa especialmente um desafio de muita credibilidade, de muita seriedade na relação com a comunidade ou com as comunidades, de muita seriedade na busca sincera de soluções para os problemas das pessoas e que as pessoas sintam isso e se sintam envolvidas nisso”, afirmou D. Pedro Fernandes à Agência ECCLESIA.

Perante o crescimento de “afirmações populistas e extremistas”, o responsável afirmou ser dever da Igreja “formar as pessoas para uma presença crítica e evangelizadora que seja inequívoca e que não compactue com discursos ambíguos”, que “fomentam o ódio e a divisão das pessoas”, e denunciar “formas de manipulação”.

“Todas as formas de manipulação, inclusive através do discurso religioso, não são legítimas precisamente porque são manipulação. O que faz que o cristianismo seja cristianismo é a fidelidade ao Evangelho, não é a fidelidade a ideologias populistas que tentam arrastar a multidão para discursos de ódio, ou para compartimentação da sociedade, ou para divisão da sociedade em blocos de gente de bem e gente de mal, gente aceitável e gente recusável, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda”, frisou.

D. Pedro Fernandes participou na 14ª Jornada de Teologia Prática, que decorreu no Seminário de Coimbra, onde refletiu sobre «A consciência cristã e o compromisso político», e lamentou o “discurso único” e o “medo” que se percebem na sociedade.

“Vivemos numa sociedade, ao nível do ocidente contemporâneo, extremamente ameaçada pelo discurso único e pelo medo. O medo que faz as pessoas procurar soluções rápidas, soluções populistas e um populismo naturalmente que se alimenta do medo e que manipula justamente ao serviço de agendas de poder que não têm muito a ver nem com verdade, nem com o bem real, com o bem comum real. E portanto há que contrariar realmente o medo, fomentando por um lado a confiança, por outro lado a desconstrução de discursos fáceis e a perceção da vida, toda a sua complexidade”, indicou.

Foto Agência ECCLESIA/PR, Seminário Maior de Coimbra, XIV Jornada de Teologia Prática

Paulo Fontes, Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, lembra que a realização da 14ª Jornada de Teologia Prática, assinalou os 60 anos da «Dignitatis Humanae», declaração do Concílio Vaticano II Conselho de Vaticano, “fundamental na definição e na compreensão que a Igreja faz de adesão ao valor da liberdade”.

O professor afirmou o “grande desafio das polarizações e de um entendimento fechado das identidades”, procurando contrariar “a exclusão” e sublinhar a “dignidade de todos”, através do diálogo.

“O diálogo não é para consensualizar só posições, é uma palavra que está muito em voga também hoje, os consensos são necessários no campo da sociedade, no campo da política, mas chegar a eles pressupõe todo um processo – que é também fundamental – que é o reconhecer o valor e a dignidade do outro no exercício da sua liberdade conforme a sua consciência”, propõe.

Se a diversidade “faz parte da vida”, indica, é na “aceitação dessa diversidade” que se devem construir “espaços de convergência, de entendimento e de expressão dessa mesma diversidade”.

“A consciência individual obriga também à procura da verdade e a sermos capazes, cada um de nós, cada comunidade, cada grupo, cada religião, a dizer isso, mas ser capaz de o argumentar, não para chegarmos a um unanimismo, mas para termos, precisamente a partir deste entendimento daquilo que nos é, eu diria, natural, esta dignidade como pessoa, é isto que nos caracteriza a todos, que permitirá esse diálogo na pluralidade”, defende.

O investigador e docente da UCP indica que o “horizonte de comunhão” só existirá com “o reconhecimento da diversidade e da dignidade”: “É na convergência destas duas polaridades que hoje a Igreja Católica, ou das Igrejas Cristãs em geral, ou mesmo das outras tradições religiosas, estamos desafiados a caminhar”.

Foto Agência ECCLESIA/PR, Seminário Maior de Coimbra, XIV Jornada de Teologia Prática

Participantes na reflexão sobre «Modelos políticos para uma cidadania em movimento» estiveram a autarca de Condeixa, Liliana Pimentel, e a presidente do Conselho de Opinião da RTP, Deolinda Carvalho Machado.

A autarca afirmou a importância de “movimentos de cidadania ativa e plena” para o bem-estar da democracia.

“São movimentos de cidadãos para os cidadãos, criados no seio da sociedade civil, onde o escuta, a partilha e o desenvolver de ideias para os próprios locais é feito claramente no seio da sociedade civil e não dentro do escrutínio político de um determinado partido”, reconheceu.

Liliana Pimentel lamentou “lideranças partidárias que falham” e que colocam em causa “a crença na democracia dentro dos próprios partidos e falha a democracia no seu geral”.

“Se não houver estruturas de lideranças fortes, com capacidade de abertura ao diálogo, a um olhar para si próprio, para ser críticos suficientes, e não olharem aos partidos como uma forma de estar em determinadas posições dentro de um partido para conseguirem ascender a determinadas posições profissionais, de político de maior destaque, mas se tiver que olhar para o bem mais comum, para aquele sentido que é o bem comum da comunidade e da sociedade, essa é que é a importância da liderança política, perceber quais são as melhores políticas para atingir o bem comum”, traduz.

Deolinda Machado entende a sua ação decorrente de um “imperativo ético” e em “necessidades de consciência” que se traduz atualmente numa procura de “harmonizar diferentes pensamentos, diferentes opiniões, diferentes perspetivas, mas uma mesma vontade” procurando o serviço público na RTP.

“No Conselho de Opinião, procuramos encontrar a solução, perceber qual é o nosso foco – a defesa do serviço público, a defesa da pessoa, a defesa da dignidade humana. E a dignidade humana, na verdade, é a base para todo o resto, e por isso é daqui que nós partimos”, indica.

Na sua experiência sindical, em movimentos de ação católica, como vereadora municipal ou na Comissão Executiva da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil, Deolinda Machado indica haver um “bem-comum” que gera comunhão.

“Independentemente do ponto de vista da opinião, do partido em que se está ou não está, enfim, dos diferentes olhares, na verdade, há uma comunhão, uma perspetiva, uma partilha, há uma implicação de todos nós, de nós e eles”, reconhece.

PR/LS

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