«Somos chamados a construir relações novas e a trabalhar por uma Igreja e por um mundo mais humano» – D. José Ornelas

Ao terminar esta noite, há dois mil e trinta e tal anos, quando começava um novo dia, um anjo de luz apareceu para dar uma notícia que havia de mudar o mundo. Dizia, como escutámos há pouco: “Não está aqui, no túmulo onde O pusestes; ressuscitou. Ide depressa dizer aos seus discípulos: Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia; lá O vereis. Eis o que tinha para vos dizer.” Afastando-se do sepulcro, as mulheres, cheias de temor e de grande alegria, correram a dar a notícia aos discípulos.
Trinta e poucos anos antes desta noite, também um anjo iluminou a noite e provocou grande susto a homens pobres e sofridos, que guardavam os seus rebanhos. Disse-lhes: “Não temais. Anuncio-vos uma grande alegria, que será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é Cristo Senhor.”
A estes dois anúncios poderíamos juntar ainda o anúncio feito a Maria, quando o anjo lhe disse que seria mãe daquele que Deus enviaria ao mundo. Há algo de semelhante em todos estes acontecimentos: são anjos que chegam e, à primeira vista, inquietam. Também Maria ficou perturbada com a saudação do anjo; sentiu-se surpreendida, deslocada da normalidade. Trata-se sempre de algo totalmente novo.
Depois, porém, surge uma palavra de tranquilidade: “Não temas”, “a paz esteja contigo”. Não se trata de uma ameaça, mas de uma notícia fundamental, portadora de alegria.
Assim acontece também com estas mulheres: primeiro sentem temor, depois são invadidas pela alegria. Como os pastores, que partiram apressadamente para ver o que lhes tinha sido anunciado, também elas correm. E Maria, após o anúncio, partiu igualmente apressadamente para as montanhas.
Esta é uma notícia que não se pode guardar nem esconder: é para ser levada. Levada na alegria, levada no testemunho. Maria glorifica o Senhor porque Ele veio habitar no meio de nós; e agora é este mesmo Senhor que está em causa.
Entretanto, ao longo destes cerca de trinta anos, Jesus viveu no meio de nós, partilhando a nossa vida: as nossas dificuldades, os nossos sonhos, os nossos projectos. Discerniu, guiado pelo Espírito, como Filho de Deus, mas também como verdadeiro homem. Fez-Se um de nós para que nós nos pudéssemos tornar como Ele.
No alto do Calvário, é uma mulher — a sua Mãe — que O recebe nos braços, morto. Aquele que trouxe no seu seio é agora acolhido no seu colo sem vida. Parecia que tudo tinha terminado. Os discípulos não tiveram coragem de permanecer junto da cruz; quem lá estava eram a Mãe e as mulheres.
E por isso são elas as primeiras a intuir a ressurreição: porque estiveram junto da cruz, porque tiveram a coragem de seguir Jesus até ao fim e de contemplar o modo como Ele deu a vida. Até um pagão, o centurião que presidia à execução, ao ver como Ele morreu — não pelos milagres, não pelo poder, mas pela forma como morreu — declarou: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.” É um pagão o primeiro a fazer esta profissão de fé. Porquê? Porque o mistério da cruz é o mistério do dom total da vida. Jesus, que Se fez Deus connosco, partilhou tudo da nossa existência. Faltava apenas uma coisa: a morte. E, ao partilhá-la, entrega-Se nas mãos do Pai. Do seu lado aberto brota o Espírito prometido, aquele de que falava o profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; dar-vos-ei um coração novo, tirarei de vós o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.”
É esse Espírito que agora dá fruto. As mulheres vêm prestar homenagem, trazendo perfumes: é o gesto do afecto. E é esse afecto que Deus deseja que seja a nossa fé — uma fé feita de relação, de gratidão, de amor. Por isso intuem que algo de novo está a acontecer, ainda que não saibam explicá-lo. Ficam perturbadas, mas, ao escutarem o anjo, partem. E o que fica entre estes dois anúncios — o do nascimento e o da ressurreição? Fica toda a vida de Jesus. E o que diz agora Jesus às mulheres? “Ide dizer aos meus irmãos que estou vivo e que vou para a Galileia; lá Me verão.”
A Galileia é o lugar onde tudo começou: onde chamou os discípulos e onde eles começaram a segui-Lo, ainda sem compreender totalmente.
Eles pensavam segundo uma lógica antiga: esperavam um Deus milagreiro ou um líder poderoso que resolvesse tudo. Mas agora compreenderão que não é assim. Tinham-se dispersado; alguns já partiam, como os discípulos de Emaús. Sem Jesus, pensavam não haver motivo para permanecer unidos.
Mas é precisamente aqui que nasce a Igreja. É este Jesus vivo que nos reúne. Sem Ele, não há Igreja. É Ele que continuamente anima, que se aproxima, que caminha connosco. Já não está limitado por paredes ou distâncias: chega a todos, porque vive com a força de Deus. É este o Espírito que hoje recebereis. Tornai-vos filhos e filhas de Deus. É isto que acontece também no Baptismo: como a criança que será baptizada, assim todos nós somos gerados para uma vida nova. É isto que somos como Igreja: uma comunidade reunida por Cristo. Por isso, sois muito bem-vindos. É com estes irmãos e irmãs que formamos este mundo novo. E somos chamados a viver de forma empenhada e activa.
Agora somos enviados a refazer o caminho da Galileia — um caminho que antes não compreendíamos, porque não tínhamos passado pela morte e ressurreição de Jesus. Agora, porém, já não há lugar para o medo. O Ressuscitado reúne-nos de um modo novo.
Ele continua presente na sua Igreja, ontem, hoje e sempre. Aqueles discípulos estavam desanimados e desiludidos: a morte parecia o fim. Mas, na verdade, era apenas o começo.
Também esta noite é um recomeço: na vossa vida e na nossa. Vamos celebrar o Baptismo, pelo qual nos tornamos filhos e filhas de Deus.
Por isso, irmãos e irmãs, somos chamados a construir relações novas e a trabalhar por uma Igreja e por um mundo mais humano. Um mundo onde não prevaleça a força, a violência, a guerra ou a opressão, mas onde cada um contribua com o bem que pode oferecer.
Seguindo Jesus, acolhemos a cruz de cada dia — isto é, o dom de nós mesmos em amor — para que, pelo seu Espírito, vivamos com coragem, recomeçando sempre.
Porque Ele está verdadeiramente vivo e actuante no meio de nós.
D. José Ornelas
Bispo de Leiria-Fátima


