Homilia do patriarca de Lisboa na Missa da Ceia do Senhor

1. A hora de Jesus passar deste mundo para o Pai cumpre-se na plenitude do amor para com os seus, e realiza-se no contexto da Última Ceia, no dom sublime da instituição da Eucaristia.
Esta «Hora» não é simplesmente o escoar do tempo na ampulheta da história. É a irrupção da plenitude. Naquela Ceia derradeira, o tempo inclina-se diante da Eternidade. Cristo, ao instituir a Eucaristia, não nos deixa apenas um rito, nem apenas uma memória: entrega-nos o seu próprio «Passar», o mistério da sua Páscoa tornado Sacramento.
Por isso, somos chamados a ir além da sucessão dos acontecimentos e a mergulhar no mistério desta passagem: não uma vitória abstrata sobre o tempo, mas o encontro definitivo com o Pai. A Eucaristia não apenas recorda essa passagem: ela é o seu acontecer, aqui e agora.
Só o Amor – esse Amor absoluto que rompe o muro do nada – dá consistência à nossa travessia do tempo para a eternidade. E só Cristo, no seu amor sem medida, rasga a distância entre a terra e o céu (cf.Mt 27, 51), entre a criatura e o Criador, abrindo-nos o caminho para o Pai. Sem Ele, seríamos náufragos do efémero; com Ele, tornamo-nos peregrinos da Glória.
2. Esta passagem não se realiza por artes humanas, nem pelo esforço heroico de uma vontade isolada. Só Aquele que saiu do Pai e regressa ao seu seio pode conduzir-nos neste êxodo. E como o faz? Pela sabedoria divina da entrega.
Na Cruz, Ele dirá: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46). Mas já aqui, na Ceia, antecipa esse gesto supremo na humildade desconcertante do lava-pés.
No lava-pés, tocamos o abismo da kenosis: Aquele que é de condição divina inclina-Se até ao pó da nossa condição (cf. Fl 2, 6-8). Não se trata apenas de um exemplo moral. É uma revelação ontológica. É Deus que Se abaixa para elevar o homem.
Jesus inclina-Se para nos erguer. Faz-Se servo para nos tornar participantes da sua própria vida. Lava os pés aos discípulos para os introduzir na sua filiação. Ali, no gesto silencioso, acontece uma transferência de vida: Ele dá-nos o que Ele é.
Sem esta doação total – sem este «esvaziar-Se» até ao fim – não haveria Páscoa. E a Eucaristia seria apenas corpo sem alma, forma sem substância, gesto sem mistério.
3. Participar na Fração do Pão não é, portanto, repetir gestos sagrados de forma mecânica. É entrar em comunhão real com Cristo. É unir-se a Ele no seu próprio movimento: passar deste mundo para o Pai (cf. Jo 13, 1).
Em cada Eucaristia, somos inseridos neste êxodo. Somos arrancados à lógica da finitude para começarmos já a viver da eternidade. Um herói pode conquistar a memória dos homens; mas só aquele que comunga de Cristo está sempre na memória de Deus.
Este êxodo assume a forma de uma pertença mútua. No lava-pés, Jesus estabelece uma aliança silenciosa: «Sou vosso, e vós sois Meus». Ele purifica-nos, toma-nos consigo e apresenta-nos ao Pai como membros do seu próprio Corpo.
A Eucaristia não é apenas presença: é incorporação. Não é apenas proximidade: é comunhão. Não é apenas sinal: é participação real na vida divina.
4. Caros irmãos, somos convidados a redescobrir o fascínio da Eucaristia, a sua beleza sempre antiga e sempre nova: Cristo realmente presente, que Se dá e nos transforma.
Em cada Missa, renova-se aquele ato de amor que nos resgata da superficialidade do mundo e nos mergulha na profundidade da eternidade. Ir à Missa não é fugir do mundo, nem alienar-se da realidade. Pelo contrário: é levar o mundo consigo, para o oferecer a Deus.
Quando vais à Eucaristia, não vais sozinho. Levas contigo o mundo inteiro: as suas dores, as suas alegrias, as suas feridas, as suas esperanças. E, unido a Cristo, apresentas tudo ao Pai. A Missa é o lugar onde o mundo respira. Onde reencontra o sopro da vida verdadeira. Onde aprende, ainda que sem o saber, o ar da Ressurreição.
Por isso, se amas o mundo, não te afastes da Eucaristia. Leva-o contigo. Oferece-o. Deixa que seja transfigurado no amor de Deus, pois como o Sol dá vida ao mundo, a Eucaristia dá vida à alma.
5. Por isso, amados irmãos, compreendamos com lucidez e coragem: poupar-se, hesitar na entrega, fechar-se no egoísmo, são gestos profundamente anti-eucarísticos.
A Eucaristia é a celebração do dom total. É o «despojamento santo» de Deus por nós e o convite a que também nós nos tornemos dom. Ela abre-nos um caminho: o caminho de uma vida entregue. Ela dá-nos uma certeza: em Cristo, o nosso fim não é o término: é o verdadeiro princípio. Porque, n’Ele, tudo o que é dado não se perde. Tudo o que é oferecido é transfigurado. E tudo o que morre por amor… ressuscita para a vida eterna. Amen.
D. Rui Valério
Patriarca de Lisboa
